Soja convencional perde espaço para a transgênica no oeste de Mato Grosso

Soja convencional perde espaço para a transgênica no oeste de Mato Grosso

Pesquisa de variedades geneticamente modificadas está mais avançada e produtores acabam ficando sem opções

Leticia Pakulski*, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2017 | 19h33

Líder na produção de soja, Mato Grosso está reduzindo o cultivo de variedades convencionais para expandir o de geneticamente modificadas (OGMs). O motivo é a oferta limitada de variedades. Enquanto a pesquisa de produtos transgênicos está acelerada, estudos sobre opções de soja convencional não têm o mesmo ritmo e produtores se queixam da falta de opção. Durante o Rally da Safra, expedição promovida pela Agroconsult, produtores do entorno de Campo Novo do Parecis, polo tradicional de produção da soja sem transgenia, contaram estar migrando para a tecnologia Intacta RR2, da Monsanto, em busca de melhores rendimentos. Eles argumentam que a pesquisa tem se concentrado nesta tecnologia e que o diferencial de preço da convencional por vezes não compensa os cuidados para evitar contaminação e o investimento em agroquímicos.

"O entrave para a (soja) convencional hoje é pesquisa de variedades", disse Tissiano Vendramin, gerente da Fazenda Vô Arnoldo, do Grupo Agroluz, que cultiva 2.120 hectares com soja em Campo Novo do Parecis. Produtores da região reclamam que as grandes empresas têm direcionado poucos recursos para o desenvolvimento de grãos convencionais, o que dificulta a continuidade do cultivo. Segundo ele, o centro de aprendizagem e difusão (CAD) da Fundação MT instalado na fazenda tem uma área dedicada só à pesquisa de sementes convencionais. No entanto, acrescenta ele, as multinacionais precisariam complementar essa pesquisa. "Estamos na mão de poucos na soja convencional. A pesquisa é demorada, cara e às vezes não chega com o resultado que o agricultor espera em produtividade", comentou. "O trabalho de melhoramento está muito direcionado para a Intacta, entregando um resultado mais imediato, e produtores migram para ela, ainda que exista o mercado para convencional."

A fazenda vem reduzindo progressivamente a área dedicada à soja convencional. Em 2014/15, 100% da propriedade era cultivada com soja convencional. No ciclo 2015/16, foram plantados 40% da área com soja convencional, 30% com Intacta e 30% com RR, mas as transgênicas de segunda geração deram melhor resultado. Por isso, neste ano-safra a proporção de área plantada com convencional caiu para 15% - o restante do plantio foi com variedades RR2. "Para nós, a questão é de produtividade mesmo, porque as produtividades da convencional estão deixando a desejar e também pela questão de manejo do solo por plantas daninhas. Tem que mudar o manejo para tentar alavancar a produtividade", disse Vendramin. "Hoje a rentabilidade da Intacta em relação à convencional está igual. A diferença de custo da Intacta é compensada em produtividade." O gerente lembra, entretanto, que a soja convencional ainda tem forte apelo na região, porque grande parte das empresas que atuam ali tem capacidade de segregação entre grãos transgênicos e convencionais, com armazenagem separada, e paga um valor extra pelo produto não transgênico. "A produção de convencional está diminuindo, então o pessoal tem que pagar mais se quer produto com diferencial."

O produtor rural e ex-presidente do Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis, Alex Utida, ressalta que, além da logística adaptada e do diferencial de preços, o controle de nematoides foi até o momento o grande atrativo da soja convencional. "A nossa região sofreu muito com nematoides e com a genética conseguimos resistência à praga. E isso aconteceu antes na soja convencional do que na transgênica", diz ele. Variedades como a TMG 4182, citada por vários produtores por ser muito utilizada na região, apresentaram ampla resistência a nematoides e levaram a ganhos de produtividade rápidos. "Como uma grande parte das áreas aqui tem esse problema, muita gente que plantava transgênicos acabou indo para convencional para combater nematoide e ganhar em produtividade", disse Utida. "Teve agricultor que saiu de 45 sacas, 50 sacas por hectare, para 60 sacas por hectare, de um ano para outro." Contudo, nos últimos anos sementes desenvolvidas por várias empresas a partir da tecnologia Intacta estão apresentando a mesma resistência e com maior rendimento. "Diminuiu o número de aplicações (de defensivos), e o produtor entra menos na lavoura para controle", destaca o produtor. Segundo ele, isso é um atrativo, apesar dos royalties pagos pela tecnologia.

Alguns produtores dizem que, considerado o custo de produção, o diferencial é pequeno entre as duas tecnologias. Tanto que a engenheira agrônoma Franciele Dalmaso, que semeia 2 mil hectares com variedades convencionais em Sapezal ao lado da família, pretende utilizar Intacta este ano. "Sempre plantamos 100% convencional. Este ano a gente vai mudar porque o custo é quase o mesmo e o benefício na hora da venda não está compensando", assinalou. Na região, dependendo do momento do ano, a diferença entre a soja convencional e transgênica costuma variar de R$ 2 a R$ 4 por saca, embora, dependendo da oferta total, o diferencial possa superar isso. Ente junho e julho de 2016, produtores que tinham soja convencional armazenada em silos próprios conseguiram vender por até R$ 100 a R$ 110 a saca na região de Sapezal. Já a família Dalmaso, que tinha estocado a produção em instalações de uma trading, obteve no máximo R$ 95/saca.

As sementes para a próxima safra, 2017/18, ainda não foram adquiridas, mas tudo caminha para que a propriedade opte por transgênicos em 100% da área. A produtora ressaltou, entretanto, que a migração não é definitiva e tudo dependerá das condições de sanidade das lavouras e de mercado até lá.

Ainda assim há muitos produtores que, mesmo vendo a demanda cair - 2013 e 2014 foram anos de maior interesse comprador - têm mantido a área reservada para o plantio convencional. Em Nova Mutum, o Grupo Mutum segue cultivando em torno de 20% da área de 10,6 mil hectares com soja convencional. O engenheiro agrônomo Rafael Feltrin conta que, além do controle dos nematoides, a soja convencional tem evitado a infestação de capim amargoso, uma erva daninha que dá trabalho aos agricultores da região. Segundo ele, a opção pelo plantio convencional em parte da área vale a pena mesmo em períodos em que o prêmio obtido na comercialização da soja livre de transgenia não é tão atrativo. "É bom trabalhar com convencional pelo prêmio e também pela produtividade, controle de amargoso e nematoides e pela necessidade de rotação de culturas."

O gerente da fazenda, Luiz Divino da Silva, acrescenta que a soja convencional é a primeira a ser colhida, a primeira que entra e sai do armazém. No ciclo atual, a negociação trouxe algumas oportunidades. "Quando a gente vendeu soja a R$ 77 a saca, a transgênica estava em R$ 68 e R$ 69; depois a convencional foi a R$ 70 e a transgênica a R$ 62 e R$ 63." 

*A jornalista viajou a convite da Agroconsult

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