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Sony pede desculpas por ofensas em e-mails vazados por hackers

Mensagens da copresidente da empresa, Amy Pascal, ofendem o presidente Barack Obama e trazem críticas a vários projetos de filmes da empresa

Cecilia Kang, The Washington Post

12 Dezembro 2014 | 17h33

Quando há uma caricatura sua na parede do icônico restaurante ThePalm, isso é sinal do sucesso em Hollywood. E, quando o Palm abriu seu novoendereço em Beverly Hills no mês passado, a copresidente da Sony PicturesEnertainment, Amy Pascal, foi escolhida para uma caricatura na qual aparece comuma pose imitando as Panteras.

Amy foi uma escolha óbvia. Ela está entre as poucas pessoas quefazem parte de uma indústria predominantemente masculina que decide quais serãoas grandes produções do cinema a serem lançadas para o mundo. Os filmes delapara o estúdio - que incluem Spider-Man e Casino Royale - ganharam váriosprêmios e trouxeram bilhões de dólares em vendas e bilheterias ao longo dosanos.

Mas todo esse sucesso foi eclipsado essa semana pelo devastadorvazamento de e-mails particulares revelando pensamentos muitas vezesdesagradáveis - e profundamente ofensivos - que jamais deveriam chegar aoconhecimento do público.

Na mais recente leva de correspondência devassada, Amy e oprodutor Scott Rudin debatem um evento de captação de recursos para Obama,revelou o Buzzfeed na noite de quarta feira.

Os dois começam a imaginar o tipo de filme e ator que o presidentemais gostaria, sempre associados a personagens e cineastas negros.

“Devo perguntar se ele gostou de Django (Livre)?”, diz Amy,de acordo com o material vazado. Rudin responde: 12 Anos (de Escravidão).Amy responde: “Ou O Mordomo (do Presidente). Ou Pense como eles?“Rudin: “Ride-Along. Aposto que ele gosta de Kevin Hart“.

Na quinta feira Amy pediu desculpas, rompendo semanas de silêncionas prejudiciais e cada vez mais numerosas informações vazadas.

“O conteúdo de meus e-mails a Scott foi insensível e inapropriado,mas isso não é um reflexo de quem sou de fato“, disse Amy em pronunciamento,referindo-se à troca de mensagens com Rudin não apenas a respeito de Obama, mastambém sobre numerosos projetos de filmes.

“Embora fosse uma mensagem particular roubada, aceito totalresponsabilidade pelo que escrevi e peço desculpas àqueles que se sentiramofendidos.”

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Brigas. Foi uma resposta tardia para um desastre em andamento que vemganhando força desde que um grupo de hackers que chama a si mesmo de Guardiansof Peace divulgou dados ilustrando todos os aspectos possíveis do funcionamentoda Sony, desde informações salariais confidenciais até brigas pessoais.

O episódio lança dúvidas sobre o futuro de uma das mulheres maispoderosas do mundo das corporações americanas, cujo relacionamento de décadascom pessoas influentes nos bastidores de Hollywood ajudou a Sony Pictures aconseguir alguns de seus maiores projetos de filmes.

A história da ascensão de Amy é digna de um roteiro de cinema.Depois de se formar na UCLA, ela entrou para a indústria do entretenimento comosecretária do produtor da BBC Tony Garnett, da Kestal Film. 

Ao desenvolverrelacionamentos e aprender o funcionamento do ramo, ela se tornou umaconhecedora dos bastidores e foi nomeada vice-presidente de produção da 20thCentury Fox em 1986. O trunfo de Amy era o lado criativo - lidar com cineastase atores para escolher e desenvolver os filmes.

Depois de entrar para a Columbia Pictures em 1988, elasupervisionou títulos como Feitiço do Tempo, Mulherzinhas e Tempode Despertar. Em 2006, após uma sequência de filmes que alcançaram sucessode público e crítica, ela foi nomeada copresidente da Sony Pictures. Num acordoincomum, ela partilhou o comando com Michael Lynton. A divisão de trabalhoentre eles era clara: Amy cuidava do lado criativo, e Lynton, dos negócios.

Quando a Sony Pictures, de Culver City, Califórnia, renovou ocontrato dela em 2010, Sir Howard Stringer, presidente da Sony Corp., disse,“Não há dúvida que Amy está transformando Culver City no centro dacriatividade, um lar longe de casa para os melhores de Hollywood”.

Amy continuou a produzir sucessos, como A Rede Social e OEspetacular Homem-Aranha. No ano passado, os maiores sucessos do estúdio foram AHora Mais Escura, A Morte do Demônio e Tá Chovendo Hambúrguer 2.

Bruce Bozzi Jr., vice-presidente executivo da rede de restaurantesPalm, disse, “Foi uma honra colocar Amy Pascal na parede. Ela é uma pioneira”.

Mas, nesse ano, a Sony Pictures apresentou desempenho ruim,ficando atrás de 20th Century Fox, Buena Vista (Disney) e Warner Bros. nasbilheterias.

Os e-mails vazados mostram Amy e Rudin brigando por causa de umfilme biográfico a respeito de Steve Jobs. No fim, a Sony perdeu os direitos dofilme para a Universal.

Em outros e-mails divulgados, Rudin se queixava da atriz AngelinaJolie, chamando-a de “menininha mimada de talento mínimo”.

Além do breve pronunciamento de Amy Pascal, a empresa mantevesilêncio enquanto novos vazamentos de informação delicada vieram à tona.

Especialistas em relações públicas dizem que Amy precisa assumir aresponsabilidade conforme a crise avança.

“Eu convocaria uma entrevista coletiva nacional após opronunciamento e pediria desculpas ao público, colocando-me à disposição paraexplicações”, disse Jarvis Stewart, presidente da empresa de comunicação emcrises IR+ Media, consultoria com sede em Washington especializada emdiversidade.

Existe também pressão para que a Sony garanta aos investidores,funcionários e outros na indústria que a empresa está adotando todos os passoscabíveis para controlar o estrago crescente.

“A Sony precisa convencer os profissionais talentosos que elespodem e devem confiar nela em se tratando de conteúdo”, disse Janet Janjigian,sócia administrativa do Carmen Group e ex-vice-presidente sênior decomunicações da MGM Studios./Tradução de Augusto Calil

 

 

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