Werther Santana/Estadão - 20/10/2020
'ITA está bem situada e é uma empresa que não tem endividamento futuro', aponta Sidnei Piva. Werther Santana/Estadão - 20/10/2020

'Suspenso não é cancelado. Vamos voltar a voar', diz presidente da ITA

Em entrevista ao 'Estadão', Sidnei Piva negou irregularidades ligadas à empresa e disse que, desde que parou de voar, aérea da Itapemirim recebeu contatos de fundos de investimento interessados em fazer aportes no negócio

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 05h00

Apesar de a ITA – empresa aérea do grupo Itapemirim, hoje em recuperação judicial – ter suspendido abruptamente seus voos na sexta-feira, deixando mais de 45 mil passageiros sem atendimento só até o próximo dia 31, o presidente da empresa, Sidnei Piva, afirma, em entrevista ao Estadão, que a empresa não está em estado falimentar e que fez contatos com fundos de investimento interessados em fazer aportes no negócio, mas se nega a revelar quais seriam.

O empresário disse ainda que tem esperança de a empresa voltar aos céus, apesar de a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ter suspendido a autorização da companhia para operar. No total, a atuação da ITA não chegou a completar seis meses. “Suspenso não é cancelado. Quando voltarmos, teremos de preencher todos os questionários da Anac, mas a Itapemirim deverá estar apta para voltar em breve”, ressaltou Piva.

De acordo com o empresário, a interrupção dos serviços ocorreu porque prestadores de serviços deixaram de fazer a operação aeroportuária da companhia, que é toda terceirizada. Piva nega que a paralisação tenha decorrido de problemas financeiros: “Das companhias aéreas, a Itapemirim é a que menos deve”, afirma.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O que aconteceu na sexta-feira para que a paralisação fosse tão abrupta? Faltou dinheiro para combustível ou para pagar fornecedor?

Nesses últimos dias, estamos sofrendo um ataque muito forte e muitas notícias sem confirmação do que está acontecendo. Foi um problema operacional. Todo o trabalho de aeroportos da empresa é feito por funcionários terceirizados. Temos apenas gerentes nos aeroportos. Tínhamos um acordo com uma dessas empresas terceirizadas…

A Orbital?

Uma delas é a Orbital. Mas tínhamos contratos com várias dessas empresas e um planejamento de programação para, a partir de janeiro, a Itapemirim assumir toda a operação de aeroportos. Tínhamos documentos assinados de que esse operador pararia em 10 de janeiro e, repentinamente, ele resolveu tirar todas as suas operações na sexta-feira às 16h.

Que empresa foi essa?

A Orbital. Ela retirou todos os seus funcionários com um comunicado por telefone. Nós não tínhamos condição de mandar contingente para os aeroportos imediatamente. Decidimos, por força maior, parar a operação. (Por mensagem, o presidente da Orbital, Rubens Filho, afirmou que a declaração de Piva é uma “inverdade” e que a Orbital continua prestando assistência a passageiros mesmo sem expectativa de ser remunerada.

Por que eles pararam? Todos dizem que a ITA deve para vários fornecedores. Eles pararam por falta de pagamento?

Das companhias aéreas, a Itapemirim é a que menos deve. Ela está bem situada e é uma empresa que não tem endividamento futuro. Tem endividamento do dia a dia. É lógico que temos o endividamento natural do dia a dia com todos os fornecedores.

Conversei com arrendadores de aeronaves e empresas de aeroportos que citaram atrasos de um mês de pagamento.

Negociações são naturais. É lógico que não podemos olhar para os outros, e sim para nossos negócios, mas tem várias companhias com essas negociações, que são normais na aviação. Isso não afeta o andamento. 

O que a Orbital alegou para paralisar a operação? Eles quebraram o contrato?

Nós estamos tomando todas as medidas para isso. Notificamos esses ocorridos à Anac. Estamos tranquilos e temos tudo documentado.

Eles não alegaram nada para parar? Disseram só ‘estamos parando’?

Estamos parando diante de uma notificação de (atender) até 10 de janeiro. Mas até 10 de janeiro falta um tempo e ocasionou essa parada. Esse foi o motivo da parada. Mas nós pedimos para a Anac uma suspensão temporária para reorganizar a empresa, contratar esse pessoal de atendimento e voltar às operações normalmente.

Mas agora foi suspenso (o certificado de operador aéreo da empresa) por parte da Anac.

Suspenso não é cancelado. Quando voltarmos, teremos de preencher todos os questionários da Anac, mas a Itapemirim deverá estar apta para voltar em breve.

Quando devem voltar?

Assim que efetivarmos o quadro. Não tenho uma data. Gostaria que fosse antes das festas de fim de ano, mas, por burocracia também, acredito que isso não vai ser possível.

Em fevereiro de 2020, o sr. me disse que a empresa seria criada com aporte de investidores árabe:  US$ 500 milhões – com possibilidade de mais US$ 500 milhões em dez anos – do fundo privado da família Al Maktoum, de xeiques dos Emirados Árabes Unidos. O que aconteceu com esse dinheiro? Algum outro investidor apareceu? A empresa foi criada apenas com recursos do Grupo Itapemirim?

Na viagem que tivemos (aos Emirados Árabes) com a comitiva do governador Doria, chegamos a assinar compromissos com escritórios que representavam a família Maktoum. Tivemos uma carta de intenção de investimento e, para isso, tínhamos de cumprir algumas tarefas. Assim fizemos. Mas o dinheiro não entrou. A Itapemirim utilizou recursos do grupo Itapemirim autorizados pelo juiz da recuperação judicial desde que tivéssemos em dia com nossa recuperação. Estávamos e estamos em dia com ela. Isso nos proporcionou liberdade de investimento. Quando começamos a voar, você começa a criar atenção de vários mercados e alguns pequenos investidores fizeram aplicações também. Temos vários investidores de pequeno porte. (A administradora judicial da Itapemirim, EXM Partners, afirma que o “o juízo nunca autorizou a criação da ITA” e que “os pagamentos dos credores não estão em dia”. Decisão de 2020 do juiz João Oliveira Rodrigues Filho, da 1ª Vara de Falências de São Paulo, diz que a abertura de aérea pelo grupo “não merece ser objeto de discussão nesses autos”, mas que a  “assunção de novas operações não é vedada. Basta que não haja comprometimento ao cumprimento do plano”. )

O sr. pode dizer quem são os investidores?

Não posso dizer. Mas temos e estamos fazendo um processo bom de reestruturação. Entendemos que precisamos aprimorar a malha, com uma previsão de investimentos futuros. Inclusive estamos em reuniões hoje (segunda-feira), amanhã e depois com vários grupos para escolher o melhor investimento para a Itapemirim.

Quanto já foi colocado na empresa aérea? Tudo veio do grupo Itapemirim?

Não posso revelar valores, mas foi o suficiente para montar a companhia aérea, que todos sabem que é um custo altíssimo. Da Itapemirim, foi muito pouco, em torno de R$ 40 milhões. Esse dinheiro já tem programa de devolução. Isso não está afetando a recuperação judicial. Essa parte do investimento da recuperanda foi programada, auditada, autorizada e já está sendo devolvida. Tem menos da metade hoje para devolver.

Qual é a situação financeira da ITA hoje? Desde que ela começou a operar, sabemos que pagamentos não são feitos em dia, FGTS não é recolhido, diárias não são pagas…

Tudo isso é um monte de notícias que estão soltando gradativamente. Mas não é tudo isso nem dessa forma. Tivemos problema no pagamento de salário, não me recordo o mês. O banco estava voltando a trabalhar com a Itapemirim, abrindo as contas, e houve falha nos sistemas. Nós atrasamos. No processamento contábil, também houve atraso no Fundo de Garantia. Mas a Itapemirim tomou todas as providências. Ela (a ITA) não está com problema. Ela está com as contas justas, como deve ser em todas as companhias. Não acredito que alguma companhia aérea esteja com seu balanço positivo. Se você perguntar: ‘A Itapemirim tem muito dinheiro em caixa?’ Não, mas a Itapemirim é uma empresa que trabalha seu dia a dia com responsabilidade no caixa.

Todas as empresas aéreas estão realmente endividadas, mas a ITA vai tirar recursos de onde para continuar operando? 

Por incrível que pareça a receptividade depois do que aconteceu nesses dois dias… Recebi mais de dez fundos muito bem intencionados em aplicar muito dinheiro na Itapemirim e estamos estudando as possibilidades. É uma companhia que foi um modelo. Vai ser um modelo. Isso dentro de uma humildade, de um parâmetro, que estamos adotando, mas os objetivos da companhia continuam. Tem companhias muito mais endividadas que a Itapemirim.

Mas elas já conseguiram financiamento para continuar. A Itapemirim não conseguiu até agora.

Não posso entrar na questão das outras. Tenho que agradecê-las. Elas têm feito um trabalho fantástico, tentando nos ajudar a atender os clientes. O problema é que elas estão encontrando uma dificuldade grande porque não têm assentos disponíveis (para acomodar os passageiros da ITA). O que estamos fazendo diante disso? Estamos oferecendo até ônibus aos passageiros. Também já atingimos um grande número de devolução (do valor das passagens). (Segundo a Itapemirim, R$ 7,8 milhões em pedidos de reembolso já foram processados e 56% dos passageiros impactados até 31 de dezembro foram reembolsados ou reacomodados).

A empresa não tem problema financeiro hoje então nem para fazer as devoluções?

Ela não está quebrada como todos colocaram. Isso ficou muito forte, inclusive para investidores. Ela está com suas contas regulares. 

Como sobreviver a esse problema de agora, de não estar gerando caixa?

A Itapemirim tem outros recursos. Tem outros investidores. Já fiz reunião com esses investidores que estão interessados em colocar dinheiro na companhia. Acabei de chegar de uma reunião que fiz com um grande grupo econômico que está de portas abertas e disposto a colocar dinheiro. Só estamos estudando como esse grupo terá seu ganho sobre isso. Mas é negociação que vamos resolver até quarta-feira.

Quem são os investidores?

Não posso dizer até por confidencialidade, mas são todos brasileiros. Todos fundos conhecidíssimos.

O sr. falou que, para criar a ITA, o juiz da recuperação judicial deu ok e que a empresa está em dia com o processo. Mas a administradora judicial afirma, em documentos, não ter sido paga em agosto e setembro. Diz também que, desde janeiro de 2020, as demonstrações contábeis estão pendentes. Também há credores que dizem não estar sendo pagos. Como o sr. responde a isso?

Vamos pontuar tudo isso. O administrador judicial não recebe porque não tem direito de receber. O contrato dele já venceu. (A EXM Partners informou que recebeu seus honorários, mas, como o prolongamento da recuperação judicial, deveria receber valores extras. O tema está em discussão na Justiça.)

Por que eles afirmam ao juiz que a empresa está sem receber?

Talvez para ganhar um pouquinho mais de dinheiro, mas não deu certo, porque o desembargador disse que não devemos pagar o administrador judicial. Ele é que está inadimplente com a Itapemirim, porque a empresa pagou a mais e inclusive pediu essa restituição. (Segundo a EXM, não há definição em segunda instância.)

Por que as demonstrações contábeis estão atrasadas?

É muito bom salientar que o administrador judicial tem 100% acesso ao caixa da Itapemirim. Pode entrar todos os dias, a qualquer hora, para verificar a conta, movimento da conta, o que foi pago. É difícil apresentar uma petição em que diz não ter controle do que está sendo feito quando você tem a chave do cofre na tua mão. (Por e-mail, a EXM afirmou que as demonstrações contábeis são obrigações do devedor e que, em novembro de 2021, após determinação judicial de segunda instância, a Itapemirim apresentou parcialmente documentos pendentes relativos a 2019, 2020 e 2021.)

Ainda assim, vocês têm de apresentar relatórios, não?

E apresentamos. Está tudo nos autos. Ele disse que não, mas nós enviamos todos os links. Está tudo com o administrador. Ele mantém um watchdog (cão de guarda) na Itapemirim. Estamos há quatro anos com uma pessoa aqui dentro que nos monitora 24 horas por dia. É um pouco incoerente falar que é um administrador com uma pessoa aqui e não saber os dados da companhia. (De acordo com a EXM, a nomeação do watchdog não ocorreu por resistência da Itapemirim . A administradora judicial admite ter um funcionário que trabalha na Itapemirim para juntar os documentos necessários para elaboração dos relatórios mensais. Esse funcionário, no entanto, “quando levanta questionamentos, não tem respostas de forma clara”, diz a EXM).

Os credores que afirmam não estar recebendo. Eu conversei com alguns credores.

Precisa ver qual tipo de credor. Tem uma tal de associação de credores divulgada em algumas matérias de jornais que foi multada por litigância de má-fé, por tumultuar o processo, porque todos eles foram pagos. Nós recebemos, e é natural isso, toda semana, credor apresentando uma contradição de débito ou um outro que não se cadastrou na época da recuperação judicial. Todas essas informações vão para o administrador, que peticiona, analisa se a pessoa está no quadro de credores e, posteriormente, a Itapemirim paga. Sempre vai ter credor para receber. Isso não significa que você não está em dia com o seu plano. Temos credores trabalhistas cujos débitos podem ser pagos apenas quando a ação tiver transitado em julgado. O trâmite do judiciário é um pouco demorado, mas aí o credor sente falta desse dinheiro. Isso é normal. Vamos atualizando as listas de credores todos os meses e efetuando os pagamentos. Mas te reafirmo que estamos em dia com a recuperação.

Eu já vi extrato bancário de funcionário da ITA e observei que os pagamentos eram sempre feitos com atrasos. Em relação aos credores, mais de um me falou de atraso. O mesmo com fornecedores de diferentes áreas. E o sr. afirma que todos estão enganados.

Não te falei isso. Você me perguntou sobre recuperação judicial, correto? Estamos em dia. Não sou eu que estou te falando, é o desembargador. O que ele me pediu agora é uma lista de 125 credores pequenos. Eles vêm em sequência porque vão entrando as petições deles. O que tenho de fazer? Tenho de apresentar o pagamento dessas pessoas. Isso nós vamos fazer na volta do recesso (judiciário, iniciado na segunda-feira). Por isso, pedimos a suspensão do plano de recuperação. Estamos em dia com tudo.

E por que o sr. abriu uma empresa em Londres recentemente?

Totalmente oposto do que se fala nos jornais. A empresa foi aberta por mim. Não tem nada a ver com o grupo Itapemirim. Mas é uma empresa de títulos da dívida externa brasileira de cem anos. Não tem nada de ilegal nem de desvio de dinheiro. O que existe é o valor presente de R$ 70 mil em dívida projetado para 100 anos. Aí é calculado juros e apresentado. A projeção é feita para o vencimento. E o motivo dessa abertura de empresa não é nada além de ter uma empresa lá fora para que essa empresa tenha o mesmo proprietário da Itapemirim, e eu possa ter mais tranquilidade de fazer leasing para trazer mais aeronaves para o Brasil. É totalmente mentira uma hipótese que você (eu) tem R$ 6 bilhões em dinheiro. Eu seria o terceiro homem mais rico do Brasil se eu tivesse isso. Estaria numa situação bem confortável e não nessa situação de que a gente está aqui lutando e trabalhando. Na verdade, tinha feito (a abertura da empresa) e não a utilizamos para nenhum negócio. Simplesmente apresentei uma carta de que aquele título é verdadeiro, mas tem a projeção para cem anos. Isso não é para fazer negócios. É simplesmente para ter a companhia. Inclusive agora, em janeiro, tenho de estar lá para regularizar o endereço da companhia, passar para os arrendadores e poder trazer os aviões. 

Não seria melhor então a empresa ter uma conta na Inglaterra?

A ITA tem conta no exterior, sim. Não tem dinheiro na conta. Mas abrimos uma companhia lá fora para ter acesso aos lessors (‘locadores’ de aviões) com mais facilidade. Não tem intenção de nenhum outro negócio.

O sr. tinha quatro CPFs. Sei que já foram cancelados, mas por quê tinha mais de um?

A Justiça provou que eu não tenho. Pedi para abrir o processo criminal. Eu não tenho inscrição no Espírito Santo ou no Rio de Janeiro. Tenho só uma. A Justiça provou que não tenho. Isso está em terceira instância. Alguns estranhos oportunistas tentaram manchar minha imagem por interesse próprio. Esse interesse sempre foi disputa antiga na Itapemirim e parece que nunca tem fim. A verdade é que sempre trabalhamos com afinco. Sou um empreendedor e, às vezes, isso incomoda algumas pessoas. Todo mundo que começa a ter destaque no Brasil tem de ser colocado como bandido. Em outros países, é considerado herói. Aqui uma pessoa que tenta gerar emprego é taxada como bandido ou mal caráter. Isso machuca. Mas tenho minha vida limpa. Não tenho nenhum processo perdido, porque não estou com a mentira. Estou com a verdade. Então em todos esses processos, tanto o da recuperação judicial como esses em que tentaram atacar minha vida pessoal, provei na Justiça que estou certo. Tenho documentos para provar. Vou usar contra as pessoas que estão escrevendo ou colocando, vou tomar todas as medidas, porque tenho a documentação. Sou um homem trabalhador, um empresário que gera cinco mil empregos e isso tem de ser enaltecido. E não tentar fazer um desgaste da imagem de um empresário.

Quando o sr. diz que pessoas tentam manchar sua imagem, isso tem a ver com a briga com os antigos donos da Itapemirim?

Principalmente. As pessoas não querem aceitar a Justiça. A pessoa pega um repórter e diz a ele que viu algo, mas isso não é verdade. A minha verdade é o que estou te falando. Agora estou processando as pessoas que estão falando o que não é verdade e estou provando na Justiça que estou certo.

Há pouco mais de um ano, quando a empresa começou a contratar, os tripulantes candidatos às vagas tinham de pagar R$ 1 mil para se inscrever no processo seletivo. Depois o sindicato dos aeronautas interferiu e o procedimento foi cancelado. Por que isso ocorreu?

Mais uma fake news. Isso não existiu. Não cobramos. De jeito nenhum.

Não cobraram depois da interferência do sindicato. O sindicato e tripulantes afirmaram isso à época.

Estou falando a verdade dos fatos. Posso levantar a documentação para você para confirmar o que estou falando. A Itapemirim jamais faria isso. Em mais de 30 anos como empresário, nunca soube de alguém que cobrava só para o candidato para fazer uma ficha. Embora todos falem que a Itapemirim é uma empresa difícil de trabalhar, tenho 18 mil currículos cadastrados e, só na semana passada – porque vamos fazer ampliação de frota, sim –, recebemos mais de mil currículos para comissários. Então temos de enaltecer uma empresa brasileira que está gerando mais empregos.

Ainda que os passageiros recebam seu dinheiro de volta, muitos não vão conseguir comprar outra passagem para passar o Natal com suas famílias porque os preços estão mais altos. O que você diz a eles?

Estou muito chateado, muito triste. Quero que essas pessoas saibam que vou fazer de tudo para amenizar esse transtorno. Temos de beneficiá-las no futuro. Agora, o que posso fazer hoje é devolver o dinheiro para elas não serem lesadas. Prejudicadas, sim, porque todo mundo quer viajar nessa época. Tenho de pedir desculpa para esse cliente e vou deixar minha consideração e meu apoio. Quem conseguirmos reacomodar nas outras companhias aéreas, estamos fazendo. Está difícil porque elas estão com voos cheios. Estou colocando todos os ônibus da Itapemirim em todos os aeroportos. Não é o que a pessoa comprou, mas depois resolvemos o crédito. Estamos querendo resolver o problema delas. Não consigo colocar asa no ônibus pra levar uma pessoa, mas consigo fazer esse ônibus transportar essa pessoa para ela ter um Natal menos amargo. Fica aqui minha solidariedade, mas vamos cumprir os seus direitos. Claro que nosso site ficou totalmente carregado. Não tem call center que suporte a quantidade de pessoas ligando. Já mudamos a forma de atendimento para ter uma triagem do cliente. É muito importante a pessoa não ir ao aeroporto buscar passagem, porque não tem. O melhor é entrar em contato com a Itapemirim para ver se ela te reacomoda. Estamos empenhados mesmo. A maior dificuldade é com viagens para o Nordeste, mas, nas próximas semanas, vamos ter mais condições de acomodar pessoas em outras companhias.

Um dos documentos da administradora judicial afirma que sua remuneração foi estabelecida em R$ 300 mil mensais em 2020. Ainda é esse valor?

Faz um ano que não recebo e peticionei abrindo mão. Em dezembro de 2019, fiz um ajuste de salário. Pedi para fazer o aumento de salário para R$ 300 mil. Fui questionado. Recebi esse salário um mês. Aí acho incrível: pago R$ 240 mil para um administrador judicial, mas o proprietário não pode tirar dinheiro da sua empresa. Mas, por causa da polêmica, abri mão do meu salário e não recebo até hoje. 

R$ 300 mil é uma remuneração de CEO, mas sobretudo quando a empresa dá lucros.

A empresa tem resultados satisfatórios, tem lucro e está pagando as contas. Estar em recuperação judicial é outra coisa. Abri mão do salário porque acho que entramos numa disputa que parece que estou querendo lesar meu funcionário. Na verdade, a companhia é minha. Tenho direito a ter dividendos. Sou dono dela. Mas, naquele momento, achei por bem abrir mão desse salário, não receber para dar algum tipo de exemplo. Fiquei confortável com essa situação e continuei assim. Mas está peticionado. 

Quando pretende voltar a receber?

Posso, a qualquer momento, ter minha retirada, que não está proibida pela Justiça. 

O que aconteceu com a CrypTour, moeda digital lançada pelo grupo? Investidores dizem que R$ 400 mil aplicados na moeda teriam de ser devolvidos. Documentos provam que a moeda nasceu dentro do grupo. Tratava-se de um esquema de pirâmide? A empresa devolverá os valores reclamados?

O Grupo Itapemirim nunca realizou nenhuma operação envolvendo vendas de criptomoedas. Houve o início de um projeto de criptomoeda, mas não houve prosseguimento, sem qualquer tipo de lançamento no mercado. Foi feito, inclusive, um boletim de ocorrência para apuração criminal em detrimento de empresa que está utilizando a imagem do grupo. O Grupo providenciará as medidas legais para desvincular sua imagem de qualquer tipo de operação ligada à criptomoeda. A apuração criminal a pessoas ligadas à criptomoeda não resultou em nenhum apontamento em detrimento do grupo Itapemirim, comprovando a completa ausência de ligação na venda de criptomoedas.

O sr. quer acrescentar algo?

Gostaria que você colocasse a sensibilidade do empresário. (Sou) um empresário batalhador. Levantei uma empresa que estava completamente quebrada. Recebi diversos prêmios de empreendedorismo porque fui e fiz acontecer. Cuidei de 5 mil vidas que estavam abandonadas. Todos os tropeços acontecem. Ainda não somos uma empresa com caixa totalmente favorável, mas gostaria de deixar meu depoimento para você. Sou um gestor de empresa e trabalho para não deixar a empresa cair de forma alguma. Me considero um grande empreendedor, mas peço que os brasileiros compreendam a dificuldade do empreendedor de ser muito criticado em todos os seus atos. Um empreendedor que tira uma companhia, como eu tirei, de um processo de falência, tem de ser enaltecido. Peço sensibilidade para esse ponto. É muito difícil, em uma situação dessa, com várias pessoas impactadas, sofrer um impacto da sociedade por diversos tipos de pontos de vista que nem sempre condizem com a realidade. Isso é muito triste, mas estou confiante. Confio em Deus. Sou um cara cristão. Estou trabalhando. Sou competente. Tenho uma equipe muito focada no trabalho. No rodoviário, tenho funcionários de 40 anos. É uma família que está lutando sempre para deixar a Itapemirim no ponto mais alto. A gente tem uma responsabilidade gigantesca com a população, e não vou deixar isso cair.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Quem é Sidnei Piva, dono da ITA, companhia aérea que deixou de voar

Empresário, à frente da Itapemirim desde 2016, se envolveu em brigas com antigos donos do negócio e em polêmicas por atraso em pagamentos de funcionários da ITA

Luiz Vassalo, Luciana Dyniewicz e André Jankavski, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 05h00

Sidnei Piva comprou o grupo de transporte rodoviário Itapemirim por R$ 1 em 2016, quando a empresa já atravessava um processo de recuperação judicial. Assumiu ali também as dívidas da companhia, que hoje somam ao menos R$ 2,2 bilhões. Pouco menos de quatro anos depois, o empresário fixou seu salário em R$ 300 mil por mês – um valor dentro dos parâmetros do mercado para um presidente de uma empresa grande que apresenta boa performance, mas não para uma com dívidas bilionárias na praça. Diante da polêmica gerada, decidiu abrir mão da remuneração.

Essa não foi a única polêmica da trajetória empresarial de Piva e de sua companhia aérea, a ITA, que parou de operar repentinamente na última sexta-feira, causando caos nos aeroportos e deixando 45 mil passageiros sem atendimento até o dia 31 de dezembro. Envolvido em diversas disputas na Justiça, ele nega todas as acusações das quais é alvo.

Piva trava uma briga na Justiça com a família que controlava o grupo Itapemirim antes dele. Segundo Andreia Cola, neta do fundador da companhia, Camilo Cola, o acordo firmado com Piva previa que o patrimônio da família não entraria no negócio. Piva, porém, conseguiu na Justiça ficar com os bens dos Cola. “Nossa família perdeu quase tudo. Casa, apartamento e outros imóveis que não faziam parte da operação, mas faziam parte do patrimônio da empresa, já que a companhia só tinha um controlador”, diz Andreia. A Itapemirim, porém, diz que Andreia não tem provas das denúncias, enquanto a disputa segue.

Desconfiança

Desde o início da operação, o mercado colocava dúvidas sobre a viabilidade da ITA, que chegava a um mercado disputado num momento especialmente difícil, além de ser derivada de um grupo em recuperação judicial. 

Nas últimas semanas, quando já havia uma série de reclamações de fornecedores e trabalhadores da Itapemirim por atraso em pagamentos, ganhou destaque a notícia, publicada inicialmente pelo site Congresso em Foco, de que Piva abriu uma empresa de serviços financeiros em Londres no valor de 780 milhões de libras (R$ 5,9 bilhões). Piva afirma se tratar de uma companhia para facilitar o arrendamento de aeronaves e com a qual investiu em títulos da dívida brasileira.

“Não tem nada ilegal. O que existe é o valor presente de R$ 70 mil (em dívida) projetados para daqui a 100 anos. É mentira uma hipótese que você (eu) tem R$ 6 bilhões. Seria o terceiro homem mais rico do Brasil se eu tivesse isso.” A fortuna de cada um dos dez mais ricos do País, porém, ultrapassa US$ 30 bilhões (R$ 170 bilhões).

Ainda que não esteja na lista dos brasileiros mais ricos, Piva tem hábitos de consumo refinados. Documentos obtidos pelo Estadão em um processo que corre sob sigilo na Justiça de São Paulo mostram que, em 2020, em um shopping de Dubai, gastou R$ 29 mil no cartão de crédito. Em outra viagem – a Paris – foram R$ 23 mil na Louis Vuitton. Entre fevereiro e março, gastou R$ 40 mil em um resort no Rio. Questionada sobre os gastos, a Itapemirim afirmou que eles foram pagos pela pessoa física de Piva, sem prejuízo à companhia. 

Disputa judicial entre Piva e os Cola:

  • Ex-sócios

Ao comprar a Itapemirim, quando o negócio já estava em recuperação judicial, Sidnei Piva se enredou em uma briga com a família Cola, a antiga dona do negócio.

  • Bens pessoais

A família Cola afirma que o contrato previa que seus bens pessoais não entrariam no acordo, mas diz que não foi o que ocorreu. “Perdemos quase tudo”, contou Andreia Cola, neta do fundador da viação, ao Estadão.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.