Taba Benedicto/Estadão
Carro aprovado: Michelle Pirotello afirma que não pretende mais dirigir um modelo hatch Taba Benedicto/Estadão

SUVs agora lideram as vendas no Brasil e não devem parar de crescer

Utilitários-esportivos representam 31,7% do mercado brasileiro; em 4 anos, a fatia do modelo no País só deverá ser menor do que a nos EUA

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

O mercado brasileiro já teve mais da metade das vendas voltada aos carros compactos, mas, neste ano, os SUVs (utilitários-esportivos) ganharam o posto de líder, com 370,5 mil unidades comercializadas até julho. O volume representa 31,7% do total de automóveis e comerciais leves vendidos no País, 1 ponto porcentual à frente dos antigos líderes, os modelos hatch.

Os SUVs são mais esportivos, mais altos em relação ao chão, com espaço e porta-malas maiores, com mais tecnologia e alguns têm tração nas quatro rodas, atrativos que estão conquistando clientes no mundo todo. Embora sejam mais caros do que modelos tradicionais hatch e sedã, a preferência do brasileiro por esse segmento cresce há 19 anos quase consecutivos.

Nos próximos quatro anos, os SUVs vão ganhar 12,2 pontos porcentuais em participação nas vendas de veículos no País, a maior alta porcentual entre sete dos principais mercados globais. A fatia do segmento vai passar dos 34,1%, previstos para este ano, para 46,3% em 2025, segundo estudo feito com exclusividade para o Estadão pela consultoria KPMG, usando como base dados da LMC Automotive.

Com isso, o País será o número dois no mundo com maior presença de SUVs em suas vendas, atrás dos Estados Unidos, cujo aumento será de 2,1 pontos entre este ano e 2025, quando atingirá fatia de 56,9% de utilitários no mercado local. O Reino Unido estará encostado no Brasil, com 46,2% de participação, seguido por China (43,2%), França (42,1%), Índia (34,9%) e Japão (21,7%).

“Tudo indica que o Brasil vai ser o país dos SUVs”, diz Ricardo Bacellar, responsável pela área automotiva da KPMG do Brasil. Ele ressalta, porém, que pouco mais da metade dos consumidores deverão adquirir outro tipo de carro, seja por não gostar dos utilitários, seja por não ter dinheiro para comprá-los, por se tratar de um produto mais premium.

‘Sonho das nanicas’

Foram espaço, conforto e o visual que levaram a analista de sistemas Michelle Pirotello, de 43 anos, a escolher um SUV ao trocar de carro no mês passado. Antes, todos os automóveis que ela teve foram hatch.

“Uso o carro para passear, levar o filho de 10 anos à escola, ir ao supermercado, e nada nesse carro é apertadinho como nos outros”, diz ela, que mora com a família em São Caetano do Sul, no ABC paulista, e adquiriu um Hyundai Creta.

Michelle afirma que o utilitário, por ser mais alto, “é o sonho das nanicas” e que não pretende voltar, “de jeito nenhum”, para modelos hatch. O marido, Alfredo, segundo ela, sempre preferiu os sedãs, “mas agora quer dirigir o meu carro o tempo todo”.

Em uma lista dos 40 SUVs mais vendidos no Brasil publicada pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), o Creta está em terceiro lugar neste ano, com 37,8 mil unidades. Nos próximos meses a Hyundai vai lançar a nova geração do modelo. Vão chegar ainda este ano o Pulse, primeiro SUV da Fiat, os Jeep Commander e o Compass híbrido, o Chevrolet Equinox, o Volvo XC40 elétrico, o BMW elétrico ix e o Chery Exeed.

Atualmente, 18 montadoras produzem 33 modelos de SUVs no País, e há ainda os importados trazidos pelas próprias fabricantes e mais 27 marcas. Segundo a Fenabrave, há cerca de 140 utilitários à venda no País a preços que variam de R$ 80 mil a mais de R$ 1 milhão, como o Mercedes-Benz Classe G.

Nova concorrente, a chinesa Great Wall deve chegar ainda este ano, primeiro como importadora e possivelmente como fabricante no futuro. A empresa produz utilitários e picapes e negocia a compra da fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP), desativada em dezembro.

Na visão de Bacellar, da KPMG, além de atrativo ao consumidor, o segmento de SUVs é mais lucrativo para a indústria, por isso, muito dinheiro está indo para a inovação dos modelos. É o segmento com maior número de lançamentos neste ano.

Robusto

Acostumado a trafegar por estradas esburacadas, o gerente comercial Jorge Luis Miranda, de 41 anos, também trocou no mês passado seu hatch por um SUV da Jeep, o Renegade. “É alto, tem estabilidade, rodas maiores e é confortável”, diz o morador de Recife (PE).

Ele afirma que queria um carro mais robusto para sair com a esposa e os três filhos, confortável para cinco pessoas. Miranda já teve modelos sedã e outro SUV, que precisou vender quando trocou de apartamento. Na lista da Fenabrave, o Renegade é o utilitário mais vendido neste ano, com 47,5 mil unidades.

Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea, entidade que representa as montadoras, diz que “os SUVs vieram para ficar porque os consumidores gostam”.

Em sua opinião, os automóveis hatch devem perder espaço no mercado, mas ele ressalta que, atualmente, as estatísticas estão prejudicadas porque há baixa oferta desses modelos em razão da falta de semicondutores para a produção. Itens que chegam vão para modelos de melhor rentabilidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Cada país tem a versão de carro que se encaixa à sua cultura, diz KPMG

Pequenos no Brasil e na França, luxuosos na China e grandes nos EUA, os SUVs detêm 40% das vendas globais

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

O segmento de utilitários-esportivos é vasto. Envolve modelos pequenos, médios, grandes e de alto luxo. Mundo afora não é diferente, e cada país tem o SUV que se encaixa mais à sua cultura automotiva. 

Nos últimos dez anos, a participação dos SUVs no mercado global cresceu de 11% para quase 40% no ano passado.

No Brasil a categoria tem forte apelo para uso familiar. Também é símbolo de status, afirma Ricardo Bacellar, da KPMG. Ele relata que, em depoimentos, vários usuários dizem que de dentro do carro “é possível olhar todo mundo de cima, o que também gera percepção de mais segurança”. Os mais vendidos são os pequenos, principalmente em razão dos preços.

Com base em dados de seus pares de seis países, Bacellar mostra o tipo de versão que mais sobressai em cada um e os motivos. Nos EUA, maior mercado global de SUVs, o que prevalece são modelos de grande porte e muita tecnologia.

“Para os americanos, quanto maior melhor”, diz o consultor. A infraestrutura, com ruas e rodovias largas, é feita pensando em carros grandes. A participação dos SUVs nas vendas é bem superior aos demais, e a tendência é continuar crescendo, embora em porcentuais menores do que em outros países.

Na China, maior mercado automotivo do mundo, os carros mais vendidos são sedãs, mas começa a ocorrer uma inversão. No subsegmento de luxo, que desempenha grande papel na preferência dos chineses, utilitários já superam os sedãs.

A maior parte dos SUVs na China são pequenos, mas duas empresas locais, Li Auto e NIO começaram a produzir modelos de maior porte. O país, no entanto, é o que tem a menor previsão de alta na fatia de vendas dos utilitários, de 3,6 pontos porcentuais entre este ano e 2025.

Bacellar explica que a renda da classe média chinesa continua subindo, o que favorece o mercado de utilitários. Outro indutor deve ser a recente decisão do governo de dar incentivo para que os casais tenham três filhos – até 2016, era proibido ter mais de um filho. Desde então foi autorizado ter duas crianças e, em maio, três. “O reflexo será o interesse por veículos maiores.”

No Reino Unido, a popularidade vem da percepção dos consumidores de que os SUVs são luxuosos, confortáveis, elegantes e seguros para os ocupantes, por permitirem visão melhor do que ocorre no entorno. O foco são modelos pequenos e médios.

Também voltada a carros de menor porte, a França deve ver o segmento ganhar espaço nas vendas mais por substituição da frota do que aumento de consumo. Os franceses avaliam os SUVs como seguros, espaçosos, com melhor posição de dirigir e adequado ao uso familiar.

Considerados confortáveis para dirigir, os SUVs se tornaram ainda mais populares no Japão após a pandemia. Muitas pessoas passaram a comprar carros para evitar o transporte público, e esses modelos são vistos como ideais para famílias. Entre os países avaliados, é o que tem menor fatia na participação de utilitários. A maior demanda continua sendo por carros compactos, como os hatches.

Já na Índia, onde grande parte da população tem renda mais baixa que no Brasil, as montadoras começam a focar em SUVs pequenos para atender parte dessa classe. 

Segundo Bacellar, “de maneira geral não há dúvidas de que o modelo caiu no gosto do consumidor. A curva é crescente em todos os países, independentemente da versão”. As fabricantes, por sua vez, esperam margens mais altas nas vendas e, por isso, há uma corrida para a “suvização” dos mercados

Tudo o que sabemos sobre:
KPMGindústria automobilística

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.