Ricardo Telles/Divulgação
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Suzano volta ao jogo e tem interesse em participação da Votorantim na Fibria

Fatia da líder de mercado Fibria que pertence à família Ermírio de Moraes tem sido alvo de empresas concorrentes, entre elas a segunda maior empresa do setor no País, que passou por processo de reestruturação e agora estaria pronta para voltar a crescer

Mônica Scaramuzzo , O Estado de S. Paulo

14 de dezembro de 2015 | 05h00

(Texto atualizado às 15h10 para correção de informações)

A Suzano está disposta a voltar ao jogo. O grupo de papel e celulose fundado pela família Feffer tem interesse em comprar uma fatia na Fibria, resultado da união entre a Votorantim Celulose e Papel (VCP) e Aracruz, a maior companhia do setor. A Suzano já teria buscado assessoria para avaliar como poderia alinhavar essa operação, apurou o ‘Estado’.

A Fibria tem como principais acionistas a família Ermírio de Moraes, com 29,42% das ações, e o braço de participações do BNDES, o BNDESPar, com outros 29,08% de ações, segundo dados referentes a setembro. 

A participação dos Ermírio de Moraes na companhia líder do setor tem sido cobiçada por empresas concorrentes, como a Eldorado Celulose, controlada pelo grupo J&F, da família Batista, dono da gigante de alimentos JBS (Friboi). O grupo, que tem um complexo industrial em Três Lagoas (MS), mesma região onde está instalada a Fibria, manifestou interesse em adquirir um pedaço da companhia, mas os ânimos esfriaram, segundo fontes. “Não chegaram a um acordo sobre preço”, disse uma das fontes. A J&F é assessorada pelo Credit Suisse. Procurada, a empresa e o banco não comentam.

“Temos sim interesse na fatia que a família Ermírio de Moraes (na Fibria), mas não estamos em negociações”, disse Walter Schalka, presidente da Suzano. O executivo, que está à frente da companhia desde 2013 e já trabalhou no grupo Votorantim, disse que a Suzano não descarta crescer por fusões e aquisições, mas que a prioridade atual é trabalhar pela redução de custos de produção do grupo e desenvolver os chamados projetos “adjacentes”, como investimentos anunciados em produção de “tissue” (papel usado para higiene pessoal), em celulose de fibra curta do tipo “fluff” (usada para fraldas e absorventes) e na extração de lignina do eucalipto (que pode ser usada para a produção de biocombustíveis).

Empecilho. O nó da transação em uma possível associação entre Fibria e Suzano, segundo fontes com conhecimento no assunto, está em definir como empresa dos Feffer poderia alinhavar a operação, uma vez que, se comprar toda fatia da família Ermírio de Moraes, terá de exercer o “tag along” (fazer oferta pública de ações pelos papéis em circulação no mercado). E, considerando a relação de troca de ações, a Suzano está em desvantagem. A líder Fibria tem seu valor de mercado avaliado em R$ 27,26 bilhões, com valorização de 51,6% neste ano, de acordo com levantamento da Economática. A Suzano, avaliada em R$ 19,24 bilhões, teve valorização de 60% no mesmo período. 

A consolidação no setor de papel e celulose no Brasil é apontada como um caminho sem volta. Nos últimos dois anos, a expectativa do mercado era de que a Fibria fosse liderar esse movimento. No entanto, segundo fontes, o grupo Votorantim pretende concentrar seus negócios em cimento e poderá se desfazer de ativos considerados não estratégicos, entre eles, a Fibria. Procurados, o grupo Votorantim e a Fibria não comentaram o assunto.

Lição de casa. Com a maior competitividade conquistada com a valorização do dólar, que beneficia as exportações do setor, a Suzano concentra seus esforços para reduzir seu alto endividamento. Ao fim de 2013, a relação da dívida líquida chegou à marca de 5,2 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações). No terceiro trimestre, essa relação foi reduzida para 3 vezes, mas as obrigações ainda são altas e somavam R$ 12,7 bilhões até o dia 30 de setembro.

De acordo com Schalka, o dólar mais alto favorece as exportações do setor, mas tem impacto direto nas dívidas da companhia, pois 75% do total estão atrelados à moeda americana. 

Para garantir maior competitividade, sem depender da volatilidade da moeda e dos preços internacionais da celulose, a companhia traçou metas rígidas de redução de custos de produção para os próximos anos. “Queremos chegar a um custo de US$ 150 por tonelada em 2018 e US$ 125 por tonelada ao fim de um ciclo do florestal (2021/2022). Esse número (se alcançado) vai mudar as relações do setor, dando maior robustez para fazer frente à volatilidade dos preços da celulose e do câmbio”, afirmou Schalka. “Temos a tendência de olhar os últimos meses, que mostram o bom desempenho das ações das companhias de celulose na Bolsa, mas os preços internacionais da celulose estão baixos há muito tempo.”

O grupo não  está longe de atingir essa meta. No terceiro trimestre, seu custo de produção estava em R$ 668 por tonelada, enquanto nos países europeus gira em torno de US$ 450. Para os produtores asiáticos, os custos são de US$ 320 por tonelada. Até 2018, a expectativa da Suzano é sair de uma produção de 4,75 milhões de toneladas de papel e celulose, hoje, para 5,1 milhões, em 2018.

Sem apego às florestas, o executivo da Suzano não descarta a venda de parte delas. “Já fomos procurados por fundos, mas não houve acordo para venda.”

No entendimento do mercado, a Suzano está trilhando o caminho certo para não ser alvo de compra, mas de consolidadora em um setor cada vez mais concentrado.

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