'Temos meta de inflação, não de câmbio’, diz Meirelles

Presidente do BC rebate críticas de que instituição deveria evitar desvalorização do real ante o dólar

Beatriz Abreu, da Agência Estado, e Leandro Modé, do Estadão,

09 de fevereiro de 2010 | 20h48

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, rebate as críticas de que a instituição deveria intervir no mercado de câmbio para evitar que o real se desvalorize em relação ao dólar. "Temos meta de inflação e não de câmbio", disse.

 

Quanto essa crise na Europa preocupa? É o temido W?

 

Temos, repetidas vezes nos últimos meses, alertado os agentes econômicos contra o excesso de euforia, mostrando que existiam e existem problemas à frente. Portanto, temos de tomar cuidado com o excesso de euforia, que leva muitas vezes a excesso de correção. O que estamos vendo é um pouco isso. De fato, era previsível que teríamos problemas com a situação fiscal de alguns países. É previsível também que nem todas as perdas dos grandes bancos já estejam reconhecidas, até porque não se sabe exatamente onde vão aparecer. Mas não está configurada uma probabilidade elevada de uma recessão no modelo W.

 

Pode atrapalhar as expectativas favoráveis à economia brasileira?

 

As expectativas que tínhamos e temos, não. Evidentemente, atrapalha um pouco aquele clima de euforia, de um mundo sem problemas, com liquidez abundante, com aversão a risco baixíssima e, portanto, um mercado exuberante. Isso muda um pouco o quadro de aversão a risco com algumas consequências para o fluxo de capitais. Não contávamos com um cenário de exuberância absoluta durante este ano e os próximos. Portanto, estávamos alertando os mercados para isso.

 

O sr. falou de fluxo de capitais. Isso pode trazer alguma dificuldade para o Brasil se financiar?

 

Não. Estamos muito longe disso. (A crise) elimina a exuberância de caráter excessivo. O quadro é completamente diferente do passado. As perspectivas de crescimento da economia brasileira continuam sólidas, com expansão baseada no mercado interno. A Ásia está se recuperando relativamente bem. Os Estados Unidos, dentro do esperado, com as dificuldades já conhecidas. O sistema financeiro internacional funcionando normalmente, num quadro muito diferente de um pouco mais de um ano atrás. Portanto, voltamos à normalidade, corrigindo um excesso de euforia.

 

É quase benéfico?

 

Dizer que um problema é benéfico é um pouco exagerado.

 

Diante da necessidade de o Brasil se financiar, a crise força o País a mudar sua estratégia? Preocupa?

 

Não acho preocupante. No curto prazo, digamos este ano e possivelmente no próximo, o déficit em conta corrente brasileiro será financiado pelo investimento estrangeiro direto, na medida em que a expansão do mercado doméstico já está demandando investimentos das companhias. Esses investimentos vão atender ao déficit em conta corrente, independentemente de outros fluxos que continuam a existir. De outro lado, se o déficit em conta corrente continuar a aumentar e for objeto de preocupação, para isso temos o câmbio flutuante. A combinação de câmbio flutuante com reservas elevadas é a adequada para que agentes refaçam projeções, de forma que as taxas de câmbio sejam ajustadas a níveis sustentáveis.

 

O real foi a moeda que mais se valorizou em relação ao dólar em 2009 e a que mais se desvalorizou em 2010 até agora. Por que o real é uma moeda tão volátil?

 

Pode-se dizer que uma coisa é consequência da outra. Quando se valoriza muito, é normal que haja uma correção maior. Não há dúvida de que, em um certo momento, houve uma aposta muito grande no mundo todo de que o real sofreria um processo de valorização muito grande. Alertamos contra essa euforia para que os investidores tomassem cuidado para não se decepcionarem. Ao mesmo tempo, existe também certa mudança de expectativas sobre a conta corrente.

 

Mas o BC age para conter a conter a volatilidade do câmbio?

 

Não diretamente. Não temos metas de taxa de câmbio nem bandas. Não olhamos a taxa de câmbio para nossas atuações. Olhamos o fluxo. Nosso sistema, ao final de um certo tempo, tende a se aproximar do fluxo total de compras, apesar de não existir uma decisão de comprar o fluxo.

 

Em 2008, quando houve volatilidade ao contrário, o BC atuou na ponta oposta. Foi com igual objetivo?

 

Naquele momento, houve falta de liquidez. Houve saída liquida de capitais por repatriação, saque de fundos. Um segundo fenômeno ligado a esse, mas um pouco mais abrangente, foi a queda na oferta de linhas externas. Ao mesmo tempo, as companhias tinham falta de crédito externo e tinham de tomar reais no Brasil. Houve, ainda, o problema dos derivativos tóxicos, que gerou grande demanda (por dólar). O BC atuou nos três canais de transmissão: remessa de capitais, oferta de linhas de crédito em dólares e mercado futuro.

 

Hoje é diferente?

 

Completamente diferente. Não há problemas de liquidez. O fluxo em fevereiro é positivo. O BC atendeu lá a um problema de liquidez.

 

Não há risco de o dólar mais alto criar problemas para a inflação?

 

A taxa de câmbio é um dos componentes da inflação, como a oferta e a demanda, os preços administrados e uma série de outras expectativas e fatores. Levamos em conta todos os fatores e tomamos uma decisão no Copom, baseados nos nossos modelos de projeção de inflação. Temos meta de inflação e não de câmbio. Não tomamos decisão de câmbio baseado em inflação.

 

Nos últimos anos, o BC foi criticado por deixar o dólar cair demais. Como o sr. vê, agora, os pedidos para que o BC intervenha para segurar a alta da moeda americana?

 

Acho curioso. Quando o dólar estava caindo e passou de R$ 1,90, houve críticas muito fortes de que o BC estava ‘deixando’ o dólar. Agora que a moeda se aproxima de R$ 1,90, mas subindo, o BC é criticado por deixar subir para esse nível. Acredito que há todo um passado de câmbio controlado e muitas pessoas ainda não concordam, aceitam completamente a ideia de que o câmbio flutuante existe para corrigir desequilíbrios.

 

O BC parou de comprar dólar?

 

Estamos fazendo leilões diariamente, comprando de acordo com as condições de mercado.

 

Então não parou de comprar?

 

Não. Os volumes diminuíram muito, o que é normal e esperado. Neste mês, são volumes significativamente menores. Em janeiro, não, as compras ainda foram substanciais. Os fluxos ainda estão positivos.

 

Em 2008, o BC estava preocupado com a inflação e elevou os juros às vésperas da quebra do Lehman Brothers. Hoje, se discute uma possível alta da Selic e apareceu essa crise na Europa. Isso pode alterar a estratégia de política monetária?

 

Não predefinimos uma estratégia. A cada reunião do Copom, tomamos a decisão com base nas informações existentes.

 

Mas o cenário mudou em relação à última ata do Copom.

 

Vamos aguardar a próxima ata. Não fazemos avaliações intermediárias.

 

Os srs. sempre dizem que o BC age preventivamente. Significa que o BC vai sempre mirar o centro da meta?

 

O fato de se dizer que o BC age preventivamente não é novidade. É a essência do regime de metas de inflação.

 

Essa alta da inflação no início do ano já era prevista pelo BC ou é circunstancial, como diz a Fazenda?

 

Vamos aguardar. Temos duas importantes maneiras de atuar. Primeiro, não tomamos decisão com base em um fator ou outro. Levamos em conta uma séries de coisas. Segundo, não tomamos decisão previamente. Na data da reunião, analisamos as informações disponíveis e tomamos a decisão.

 

Então não se pode dizer que é uma tendência.

 

Não dizemos que é nem que não é. De novo, não fazemos uma avaliação intermediária.

 

O Ministério da Fazenda está tomando uma série de medidas para tentar evitar uma elevação dos juros. Isso é suficiente para alterar alguma decisão do Banco Central?

 

Levamos em conta todos os fatores nas datas das reuniões, inclusive a questão fiscal. Nossa hipótese de trabalho é o cumprimento das metas tal qual colocado pelo governo.

 

É mais difícil elevar os juros em ano eleitoral?

 

Do meu ponto de vista, não. O grande ativo da economia brasileira hoje, e do BC em particular, é a estabilidade. Em relação a quando fazer algum ajuste, caso haja, o momento correto é sempre o momento adequado. Como sempre, o BC não age com base em psicologia. Age com base nos seus modelos macroeconométricos e nas projeções e tem se mantido rigorosamente dentro desse arcabouço decisório desde o início dessa administração e vai continuar assim.

 

A Fazenda tem defendido que o BC pode usar os compulsórios como alternativa a uma alta do juro. Como vê o compulsório como instrumento de combate à inflação?

 

O compulsório é um mecanismo de liquidez do sistema financeiro. A experiência do Brasil e de outros países na crise nos levou a concluir que o melhor colchão de liquidez para o sistema financeiro brasileiro são os depósitos compulsórios. Isso pode ter algum efeito contracionista ou expansionista no crédito. Mas a finalidade principal do compulsório é a liquidez do sistema.

 

O BC decidiu regulamentar a remuneração dos executivos do setor financeiro. O objetivo é seguir uma orientação do G-20 ou há uma preocupação específica com a gestão dos bancos brasileiros?

 

Fundamentalmente, para seguir uma recomendação do G-20. Em segundo lugar, porque regras prudenciais são sempre tomadas olhando à frente, não o espelho retrovisor. O fato de não ter havido problemas no sistema financeiro do Brasil não significa que não possa haver no futuro. A boa regra prudencial diz que se deve tomar medidas antes que o problema ocorra.

 

Não é muito intervencionista?

 

Não. A responsabilidade básica da autoridade reguladora é evitar que ocorra um desequilíbrio do sistema. Existem alguns BCs que não têm claramente definida sua responsabilidade pela estabilidade do sistema. No Brasil, o BC tem. Portanto, o sistema institucional está pronto para agir.

 

Uma eventual piora da conjuntura seria um fator que o impediria de deixar o Banco Central?

 

Não trabalho com hipóteses.

 

Especula-se o seu nome como candidato a vice na chapa da provável candidata governista a presidente, Dilma Rousseff. Como o ‘Estado’ antecipou, o plano da ministra é de mais intervenção estatal na economia. O sr. fez carreira no setor privado. Qual sua visão sobre o papel do Estado na economia?

 

Não conheço o programa dos dois candidatos e não fui consultado até agora. Não posso, portanto, especular. Se for consultado, vou opinar sobre o que acho que é o segredo do sucesso do País. Pode-se tomar como modelo o sistema financeiro. De um lado, o BC adotou regras prudenciais que são consideradas modelo no mundo. De outro, não adotamos modelos intervencionistas.

 

O imposto sobre aplicações de estrangeiros em ações e renda fixa não é uma intervenção?

 

Tributação, por definição, tem um certo caráter intervencionista. Mas é inerente à existência do Estado.

 

O senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, disse recentemente que um eventual governo do PSDB mudaria alguns pontos da política econômica, como as metas de inflação. Como o sr. vê essa ideia?

 

O sistema de metas de inflação com câmbio flutuante e responsabilidade fiscal é um modelo bem sucedido. Realmente produziu resultados extraordinários para o Brasil. Acredito que é um modelo que deva ser mantido. Em relação à entrevista que concedeu (à revista Veja), não sei exatamente o que o senador tem em mente. Então, não vou comentar o que não foi detalhado.

 

O BC inclui em seus cálculos para este ano o risco eleitoral, algo como ocorreu em 2002?

 

Não acredito que haja nada parecido com aquela situação. Em primeiro lugar, porque temos a estabilidade consolidada. Em segundo, temos um regime que funciona com sucesso e já mostrou sua força. Em terceiro, temos US$ 240 bilhões de reservas, além de uma inflação ancorada com a meta nos próximos anos e um BC comprometido com o regime.

 

Não existe um risco Serra ou um risco Dilma?

 

Há pouca margem de manobra para mudanças dramáticas na política econômica pelos ganhos enormes que a sociedade tem tido com essa política nos últimos anos. Não vejo margem que permita a futuros governantes mudar radicalmente esse modelo econômico tão bem sucedido.

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