Bruno Ryfer
Bruno Ryfer

‘TIM Brasil não está à venda e será melhor tele em três anos’, diz novo CEO da empresa

Alberto Griselli diz que a marca da sua gestão será a da continuidade ao plano estratégico traçado na gestão anterior

Entrevista com

Alberto Griselli, CEO da TIM Brasil

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2022 | 10h00

A TIM Brasil está de cara nova. Desde o fim de janeiro, o executivo Alberto Griselli assumiu a presidência da operadora no lugar de Pietro Labriola, que foi chamado para comandar o Grupo TIM, na Itália.

Em sua primeira entrevista no cargo, Griselli diz que a marca da sua gestão será a da continuidade ao plano estratégico traçado na gestão anterior e que tem como objetivo nada menos do que tornar a TIM a melhor operadora do País.

"O objetivo é tornar a TIM Brasil a melhor operadora de telecomunicações ao longo do nosso plano de três anos", afirma Griselli, em entrevista ao Broadcast.

O executivo também é enfático em rebater especulações sobre uma possível venda das operações no mercado local - que surgiram após a matriz italiana receber uma proposta de aquisição de quase 11 bilhões de euros vinda do fundo norte-americano KKR.

"Não tem plano de venda da TIM Brasil", ressalta. "Na verdade, estamos na contramão, participando da consolidação do setor".

As operadoras TIM, Vivo e Claro receberam, neste mês, aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para selar a compra da Oi Móvel, um negócio de R$ 16,5 bilhões. A conclusão da transferência de ativos e pagamento deve ocorrer em maio, estima Griselli.

Em troca da aprovação que levará a um triopólio na telefonia móvel, o Cade exigiu que as teles compartilhem as redes com provedores regionais e coloquem à venda até 50% das estações rádio-base (ERBs) - termos considerados justos, na sua avaliação.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista de Alberto Griselli ao programa Olhar de Líder, série de encontros do Broadcast com executivos que estão no comando das principais empresas do País.

O que muda na TIM sob seu comando? Qual vai ser a marca da sua gestão?

Temos um plano robusto em andamento e já avançamos muito. O objetivo é tornar a TIM Brasil a melhor operadora de telecomunicações ao longo do nosso plano de três anos. Isso significa ganhar a liderança em alguns aspectos que consideramos muito importantes. Um deles é o serviço ao cliente, que envolve a qualidade da rede e atendimento. O segundo ponto é sermos reconhecidos como a marca preferida no setor para os brasileiros. E o terceiro é atingir a liderança na temática ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês). A empresa combina muito bem resultados financeiros e propósito. Temos um percurso de sucesso nos últimos anos e queremos consolidar a liderança no setor.

Na Itália, o Grupo TIM recebeu uma oferta de compra de quase 11 bilhões de euros pelo fundo norte-americano KKR, o que está sendo avaliado por acionistas. Dentro do contexto de reestruturação do grupo, surgiram notícias sobre uma possibilidade de venda da unidade daqui. Afinal, a TIM Brasil está à venda?

Não. Inclusive, o Pietro (Labriola) já deixou bem claro nas suas primeiras declarações como CEO do grupo que a TIM Brasil não está à venda. O tema da venda no Brasil está rolando há um tempão. Mas na verdade, estamos na contramão, participando da consolidação do setor. Então, confirmando: não tem plano de venda da TIM Brasil.

O último balanço da TIM mostrou um crescimento moderado da receita e do lucro operacional. O que faz a companhia crescer hoje e como acelerar para o futuro?

No ano, a receita e o Ebitda cresceram um dígito médio (na ordem de 5%, aproximadamente). E a margem Ebitda da TIM é a maior do setor e uma das melhores do mundo. O negócio principal é o serviço móvel. Aí o crescimento é moderado, de um dígito médio, porque se trata de um setor maduro. A nossa diferenciação é a mudança da estratégia de volume para valor. Ou seja, queremos entregar valor para os clientes, focando na qualidade do serviço e na rentabilização da base de consumidores. O segundo negócio é a banda larga, que está crescendo muito no Brasil e com potencial para muito mais. Para nós, ainda é uma componente pequena na receita, mas crescendo numa velocidade maior, de 15%. Acabamos de fechar parceria importante com a IHS, fazendo cisão da rede e criamos uma das primeiras empresas de redes abertas no País. Ela presta serviço para nós e para o restante do mercado. E com o suporte dessa parceria, estamos ampliando a cobertura do serviço além dos mercados onde já paramos hoje.

Por fim, o terceiro elemento de crescimento é a plataforma de clientes. Entram aí acordos com empresas digitais com alto potencial de crescimento. Oferecemos nossa marca, base de clientes e canais comerciais para acelerar o crescimento dessas empresas. Em troca, nosso cliente ganha um portfólio mais rico, com oferta de serviços financeiros e educação, por exemplo, onde já fechamos parcerias. E temos uma remuneração na forma de comissão de vendas e equity (participação no capital da parceira). A receita com isso era zero uns anos atrás e já chegou a R$ 100 milhões.

Isso sem contar a integração dos ativos da unidade móvel da Oi, cuja venda para TIM, Vivo e Claro recebeu aprovação do Cade. Qual a expectativa de prazos para o fechamento dessa operação?

A nossa expectativa é que a operação se conclua no segundo trimestre. Agora faltam passos societários e operacionais que envolvem nós e os demais compradores. Acreditamos que em maio a transação será concluída. Tem passos a serem respeitados e não dependem só de nós. Somos quatro. Entre abril e maio o cliente da Oi será cliente da TIM.

Quais as sinergias esperadas com a incorporação das redes, clientes e licenças da Oi Móvel?

Vamos nos beneficiar de várias formas, sendo que as mais importantes são de natureza técnica. A TIM é quem tem menos banda por cliente no mercado brasileiro. Com a entrada do espectro da Oi, daremos um pulo grande na qualidade do serviço. A segunda vantagem é receber um pedaço dos clientes, o que gera uma contribuição nos resultados. Daí o nosso crescimento da receita, que era de um dígito médio e vai passar a ser de dois dígitos.

Qual o valor estimado para as sinergias?

Ainda estamos finalizando o processo e precisamos de um tempo a mais para divulgar o valor das sinergias. Mas se considerar as metas já divulgadas ao mercado, estamos dizendo que a inclusão da operação da Oi nos ajudará a crescer receita e o Ebitda em dois dígitos no próximo triênio em comparação com o cenário atual, sem a Oi, com crescimento de um dígito médio.

Quais suas considerações sobre o Acordo em Controle de Concentrações (ACC), fechado entre TIM, Vivo, Claro e o Cade? Foi justo? Quais serão os impactos?

Foi justo. A Anatel e o Cade colocaram algumas medidas iniciais, enquanto o conjunto de operadores também fez propostas para fomentar um acordo justo. E achamos que foi atingido um ponto de equilíbrio bom. O acordo permite aos pequenos provedores terem acesso a ativos que ajudam o negócio deles e, ao mesmo tempo, não impactam as sinergias que buscávamos na operação.

O valor do negócio não vai mudar mesmo com a determinação do Cade para se vender metade das estações rádio-base (ERBs) da Oi?

Já imaginávamos ganhar eficiência em infraestrutura pelo descomissionamento seletivo de ERBs, porque tem uma sobreposição de equipamentos da Oi com os da TIM. Agora, colocaremos no mercado um conjunto de ativos técnicos que pode encontrar um comprador. No final das contas, podemos ter até um upside (nas sinergias) porque, em vez de descomissionar, vamos vender.

Qual a quantidade de Erbs a serem vendidas? Já tem comprador?

Nós devemos vender 50%. Até agora não temos manifestação de interesse. Tem um prazo para isso acontecer, mas é tudo muito incipiente. Acho que vamos ter novidades nas próximas semanas.

É possível estimar um valor para as ERBs?

Como se trata de valor de mercado, depende muito do apetite e de quantos interessados aparecerem.

Como está o processo de instalação das redes 5G? A determinação da Anatel é de ativação do sinal nas capitais até julho. Isso pode ser antecipado?

Do nosso lado, o processo segue firme e forte. Estamos trabalhando com esse prazo da Anatel. O regulador foi firme em estabelecer um mecanismo de licitação que prioriza os investimentos e a popularização do serviço. Estamos trabalhando com esse timeline, que depende de liberação das frequências (faixa de 3,5 Ghz, que depende de limpeza para evitar interferências). Estamos trabalhando no desenvolvimento para lançar comercialmente de forma ampla de junho para frente.

Onde o 5G vai aparecer primeiro?

Estamos identificando a oportunidade de tangibilizar o 5G de todas as formas que foram combinadas com o regulador. Há parcerias comerciais em andamento que permitirão a digitalização de processos produtivos e novas soluções. Há parceria com Stellantis (montadora resultante da fusão entre Fiat Chrysler e o Grupo PSA) e Enel (distribuidora de energia). Tem outras chegando, como no setor de agronegócios. Vamos lançar novos cases até junho. E também queremos implementar o 5G em conjunto com eventos ligados ao consumidor, como Rock In Rio e Noites Cariocas (patrocinados pelas teles). Aí queremos mostrar ao público todas as potencialidades do 5G. Isso depende também do nível de penetração dos celulares no mercado brasileiro, que está em 2% no caso do 5G. 

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