Todas as fichas nos velhinhos

Enquanto falham em atrair os jovens, cassinos veem suas receitas caírem enquanto população dos EUA envelhece

The Economist

13 de outubro de 2016 | 05h00

Pouco depois de assumir o comando da Caesars Entertainment, no ano passado, Mark Frissora percorreu alguns dos cassinos da rede e, ao ver fileiras de caça-níqueis desocupados, se deu conta do tamanho da ameaça que paira sobre esse segmento da indústria do jogo. A clientela que costuma frequentar os cassinos está envelhecendo, e os jovens não parecem interessados em ocupar seu lugar. Frissora incumbiu seus funcionários de criar um “cassino dentro do cassino”, a fim de atrair pessoas na casa dos 20 ou 30 anos, que cresceram jogando videogames em consoles, computadores ou smartphones.

Um dos concorrentes de Frissora em Las Vegas, Jim Murren, presidente da MGM Resorts International, maior operadora de cassinos da cidade, fez coisa parecida: reuniu um grupo de funcionários jovens e os encarregou de elaborar ideias para que os cassinos da operadora continuem atraentes. Em breve, ambas as empresas inaugurarão áreas experimentais para jovens, em que haverá, entre outras atrações, novos tipos de caça-níqueis, que põem em jogo não só o bolso, mas também certas habilidades do jogador.

Se a ideia vingar, os cassinos do futuro serão bem diferentes dos atuais, oferecendo ambientes de gravidade zero, onde as pessoas poderão literalmente subir pelas paredes, telas de LED que dotarão o ambiente de cenários mutantes e máquinas que combinarão jogos de azar com games de realidade virtual, permitindo que o jogador aposte no número de monstros que conseguirá matar. Em vez de caça-níqueis individuais, grupos de jogadores poderão competir uns contra os outros. Além disso, em vez de shows de mágica e de artistas decadentes, os clientes poderão ver espetáculos com músicos da atualidade e disputar torneios de game.

Cassinos cheios de estilo, movidos a alta tecnologia, provavelmente proporcionariam muita diversão. Mas não é certo que se tornem realidade. Sua construção e manutenção seria dispendiosa e nada garante que eles realmente atrairiam a clientela mais jovem. Além disso, os executivos que comandam as operadoras de cassinos talvez não tenham fôlego para implementar projetos dessa natureza. Falta à maioria deles duas condições básicas: bolsos fornidos e, acima de tudo, disposição para apostar alto.

“O setor não dispõe de muitos gênios criativos”, diz Frissora, que antes de se transferir para a Caesars, era presidente da locadora de veículos Hertz. Até algum tempo atrás, os cassinos eram verdadeiras máquinas de fazer dinheiro e não precisavam inovar. Agora a coisa mudou. Perto dos smartphones e consoles de videogame, os caça-níqueis e jogos de mesa parecem relíquias. E há inúmeros outros concorrentes disputando a atenção de quem gosta de fazer uma “fezinha”: torneios a dinheiro de “fantasy sports” (em que os usuários competem com equipes virtuais, baseadas na performance estatística de esportistas reais), jogos de apostas legais e ilegais pela internet e terminais de videoloteria. Alguns temem que as operadoras de cassinos tenham destino semelhante ao da Blockbuster.

Alex Bumazhny, da agência Fitch, acha que os cassinos podem acabar como as máquinas Xerox: utilizados com menos frequência, mas não inteiramente obsoletos.

Os sinais de estagnação são evidentes. O faturamento dos cassinos de Las Vegas bateu seu recorde em 2007, quando chegou a US$ 6,5 bilhões, recuando para US$ 5,2 bilhões em 2010 e depois se recuperando um pouco. Em Atlantic City, de 2006 para cá, as receitas caíram pela metade. Nos EUA, a despeito do forte aumento no número de estabelecimentos, o faturamento dos cassinos cresceu apenas 7% entre 2007 e 2015, quando alcançou US$ 40 bilhões. Os Estados de Pensilvânia e Maryland, onde até dez anos atrás não havia cassinos, agora têm receita de mais de US$ 4 bilhões com esses estabelecimentos (em parte porque atraíram clientes de Atlantic City). 

Roda da fortuna. As maiores operadoras de cassinos do mundo, que têm ações listadas em bolsa, estariam hoje em situação pior, se não tivessem sido beneficiadas por dois fatores. O primeiro foi a transformação pela qual passou Las Vegas no fim da década de 80. As mudanças, lideradas pelos magnatas Sheldon Adelson e Steve Wynn, fizeram da “cidade do pecado” um polo de convenções e entretenimento. Adelson construiu o Sands Expo and Convention Centre, primeiro centro de convenções privado da cidade. Em 1989, Wynn ergueu o Mirage, misto de cassino e resort, com 3 mil quartos e um pequeno zoológico. De lá para cá, todos os novos cassinos construídos em Las Vegas tentam reproduzir esse modelo. 

O segundo fator que ajudou as operadoras a aguentar as pontas foi Macau, que se tornou o destino preferido dos jogadores chineses. Entre 2003, um ano antes de Adelson inaugurar seu Sands Macao, primeiro grande cassino financiado com recursos estrangeiros no território, e 2013, o faturamento dos cassinos de Macau cresceu 12 vezes, chegando a US$ 45 bilhões, ou o equivalente a oito Las Vegas.

Acontece que, nos últimos anos, com a campanha anticorrupção promovida pelo presidente da China, Xi Jinping, e o aumento do controle governamental sobre entradas e saídas de capital. Em 2015, as receitas caíram 34%, para US$ 29 bilhões. Apesar disso, Macau ainda pode se beneficiar da expansão da classe média alta chinesa. E é no território que as perspectivas das operadoras de cassinos parecem menos desfavoráveis.

Em agosto, Wynn inaugurou o suntuoso Wynn Palace, de US$ 4,2 bilhões. No mesmo mês, Macau registrou sua primeira (ainda que modesta) alta em receitas do jogo em mais de dois anos: 1%. Em 13 de setembro, foi a vez de Adelson inaugurar o Parisian Macao, de US$ 2,9 bilhões. O MGM Cotai, de US$ 3,1 bilhões, chegará em 2017.

Jovens. A ascensão de Macau permitiu que o setor se esquivasse de enfrentar o problema do envelhecimento nos EUA, mas conseguiu resolvê-lo. O setor não está bem posicionado para atrair os jovens. Por causa da crise financeira de 2008, e de uma série de projetos financiados com empréstimos, as operadoras de cassinos estão excessivamente endividadas. A Wynn Resorts, por exemplo, contraiu dívida de US$ 9,5 bilhões para construir seu Wynn Palace, em Macau. A Caesars só agora está conseguindo sair de seu estado falimentar. Os pesados pagamentos de juros fizeram com que as operadoras de Las Vegas passassem a maior parte da última década no vermelho.

Mesmo assim, ainda haveria margem para investir numa mudança de rumo. A estratégia de deixar de lado os caça-níqueis e as mesas de jogos tradicionais, que os clientes mais idosos tanto apreciam, não parece ter muitos adeptos. Ainda que Frissora e Murren, entre outros, tenham deixado claro que estão atrás de novos tipos de jogos para atrair clientes mais jovens, os fabricantes de caça-níqueis, que também estão bastante endividados, demonstram pouco interesse em abrir mão de uma atividade estabelecida para investir grandes somas na produção de jogos novos e experimentais.

Frissora, por exemplo, quer abrir suas plataformas para que clientes jovens possam escolher seus jogos e disputar partidas uns contra os outros no interior dos cassinos. Mas os fabricantes de caça-níqueis preferem recauchutar seus produtos. Passaram a acoplar os caça-níqueis tradicionais a estruturas de design arrojado, recobertas com películas que estampam temas de programas de TV, como Games of Thrones. Mas de inovadoras não têm nada.

Algumas startups, porém, se mostram mais dispostas a criar coisas novas. Na exposição Global Gaming, em setembro, o estande da startup californiana Gamblit Gaming ficou lotado com pessoas que queriam experimentar uma versão em realidade virtual, baseada em apostas, de um jogo de tiro em primeira pessoa. O produto deve ficar pronto em 2017. Neste mês, quando a Caesars instalar um pequeno número de “Danger Arenas”, em três cassinos de Atlantic City, elas serão abastecidas com um jogo de tiro semelhante, ainda que sem recursos de realidade virtual, produzido pela startup GameCo, de Nova York.

Alguns executivos duvidam que as mudanças venham a dar resultado. Jogos que lembram máquinas de fliperama talvez despertem o interesse dos jovens, mas não o suficiente para resgatar o faturamento dos cassinos. Um dos argumentos a que os tradicionalistas recorrem é que, daqui a alguns anos, quando estiverem mais bem estabelecidos na vida, os jovens de hoje não vão querer arriscar seu dinheiro nos cassinos que seus pais frequentavam. 

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