'Todos os dias dou minha cara a tapa'

Marcelle Miguel, de 44 anos, sente na pele as dificuldades que um profissional transexual pode enfrentar

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2017 | 05h00

Marcelle não esconde sua condição de mulher trans. Pelo contrário: todos os dias, opera um caixa na movimentada loja do Carrefour no Shopping Eldorado, em São Paulo. Atende milhares de clientes por semana. Nos últimos dois anos, se expôs a julgamentos, palavras de apoio e alguns confrontos. Hoje, está preparada para qualquer reação: “Todos os dias eu dou a minha cara a tapa”.

Identificando-se como mulher trans há cerca de duas décadas, Marcelle Miguel, de 44 anos, sentiu na pele as dificuldades que um profissional transexual pode enfrentar. Antes técnica em eletrônica, Marcelle trabalhou em grandes empresas de tecnologia, mas acabou desempregada e sem dinheiro. 

Sem apoio da família, com a qual rompeu após a morte dos pais, acabou resgatando a autoestima ao voltar a estudar no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) para tentar uma recolocação na rede de varejo francesa. “Mudei a minha história. Eu sou uma filha de Deus, estou aqui me esforçando, tentando mostrar que pessoas são pessoas. Quero que o desconhecido se torne conhecido.”

Busca. O programa de contratação de transexuais existe no Carrefour há quase cinco anos. Coordenador do Fórum das Empresas e Direitos LGBT, Reinaldo Bulgarelli diz que a companhia busca ativamente trazer esse grupo marginalizado para o mercado de trabalho. Assim, pelo menos algumas dessas pessoas conseguem evitar ser empurradas para atividades como a prostituição.

De acordo com Paulo Pianez, diretor de responsabilidade social da varejista, a escolha do trabalho com o público trans se deu justamente por causa da carga maior de preconceito que ele enfrenta. Hoje, são cerca de 20 profissionais transexuais atuando na varejista, tanto em funções administrativas quanto no atendimento em loja.

A visibilidade, embora carregada de dificuldades, é vital, na visão de Marcelle. “Quero que essa minha atitude individual vire uma mudança coletiva sobre o transexual.”

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