Imagem Guy Perelmuter
Colunista
Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Traduzindo a complexidade

Sistemas artificiais já podem ser controlados através de comandos de voz, potencialmente ampliando de forma relevante o número de usuários

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2017 | 06h00

O risco do “desemprego tecnológico” - o desemprego causado pelos avanços na automação e substituição de tarefas tradicionalmente realizadas por seres humanos por máquinas - vem sendo motivo de discussão e preocupação. E com razão: não são apenas empregos repetitivos e manuais que correm o risco de desaparecer. Tarefas que exigem capacidade cognitiva agora estão ao alcance das máquinas graças aos avanços em técnicas de inteligência artificial, poder de processamento e armazenamento.

Semana passada falamos sobre a capacidade de uma máquina não apenas “ler” ou “ouvir” você, mas como ela já pode “entender” o que você quer. A chegada em larga escala de dispositivos comandados por voz às moradias é apenas uma questão de tempo - afinal, o uso da voz é a forma mais intuitiva de interação. E as grandes empresas de tecnologia já estabeleceram as identidades de suas assistentes digitais: a Amazon, por exemplo, lançou há cerca de dois anos atrás o Echo - dispositivo conectado à assistente pessoal Alexa. A Apple embarcou em seus celulares a Siri, enquanto a Microsoft criou a Cortana para o ambiente Windows e a Google desenvolveu o Google Assistant para o sistema Android. Além da facilidade, as possibilidades de uso através da voz acabam por se expandir, permitindo que crianças ainda não alfabetizadas, idosos e pessoas portadoras de deficiências consigam interagir com os equipamentos.

Mas entender comandos simples é uma coisa - “acenda as luzes” ou “toque uma música”, por exemplo. Em geral, quanto mais restrito for o vocabulário, mais simples é a tarefa para o computador. A mesma lógica se aplica à tradução, uma das tarefas que, para surpresa de muitos, será progressivamente endereçada com o auxílio de sistemas inteligentes. Já existem aplicativos para traduzir instantaneamente textos curtos através do seu celular: aponte a câmera para o texto que você quer traduzir, e receba a resposta na língua de sua escolha através do Google Translate. Os resultados nem sempre são precisos, mas na maior parte dos casos é possível ao menos obter o contexto daquela mensagem.

O ramo da chamada machine translation (algo como “tradução automática”) une a Informática e as Letras no desafio de traduzir conteúdo oral ou escrito de um idioma para outro. Muito mais que simplesmente substituir cada palavra do texto no idioma “A” pela mesma palavra do idioma “B”, o objetivo é fazer com que os sistemas empregados sejam capazes de interpretar corretamente o significado do texto original - algo muito mais complexo e sofisticado.

Foi justamente através do uso dessas técnicas que a Microsoft, que adquiriu o software de chamadas de voz e vídeo Skype em 2011 por US$ 8,5 bilhões, desenvolveu um módulo de tradução - tanto para texto quanto para vídeo e voz. Isso quer dizer que você pode ligar para alguém que não fale seu idioma, e mesmo assim se comunicar sem precisar de um tradutor - o software realiza o trabalho em tempo real. Atualmente, o serviço funciona para oito idiomas em modo de voz/vídeo e para cinquenta idiomas em modo de chat. Ainda há um longo caminho para melhorias, mas o aperfeiçoamento ocorre consistentemente.

Assim como os equipamentos domésticos que atendem comandos de voz, quanto mais limitado for o universo linguístico, melhores os resultados. Textos técnicos, por exemplo, já são traduzidos de forma bastante satisfatória. O mesmo não pode ser dito a respeito de textos literários de forma geral - e há quem ache que não será possível automatizar completamente a tradução não-técnica: ainda deve levar algum tempo para que máquinas sejam capazes de avançar no terreno da interpretação da imensa variedade de emoções humanas.

Semana que vem falaremos de mais uma carreira que, apesar de lidar com temas não-repetitivos e que exigem capacidade analítica, também deve ser significativamente impactada na próxima década. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.