Transgênicos: Monsanto elogia produtor gaúcho em anúncios

Porto Alegre, 3 - A Monsanto está veiculando campanha publicitária em que faz uma "homenagem ao pioneirismo do agricultor gaúcho", numa alusão ao início do plantio de soja transgênica no Rio Grande do Sul, que foi feito com sementes contrabandeadas da Argentina. "Com a soja transgênica, o agricultor gaúcho já mostrou como tornar a produção mais rentável, preservando o meio ambiente", diz o texto em destaque no anúncio impresso. "Agora, muita gente está seguindo o mesmo caminho", acrescenta. Além de anúncios impressos, a campanha, que começou no dia 28 de novembro, apresenta peças de rádio e televisão. Procurada, a Monsanto não fez comentários sobre a campanha. Na safra passada, os agricultores gaúchos fizeram um acordo para o pagamento de royalties à Monsanto - no valor de R$ 0,60 por saca - pelo uso da tecnologia de soja transgênica patenteada pela companhia. Ainda não foi divulgado o valor a ser pago pelos royalties na safra 2004/05. O anúncio da Monsanto afirma ainda que o produtor "vem batendo recordes de produção no Rio Grande do Sul, ajudando o País a gerar mais alimentos e de qualidade". O engenheiro agrônomo do Greenpeace Ventura Barbeiro contesta a afirmação da Monsanto. "O aumento de produção deve ser creditado ao aumento da área de plantio", afirma Barbeiro. "Na safra de 2002/03, foram 3,59 milhões de hectares e, na safra 2003/04, foram 3,97 milhões de hectares no Rio Grande do Sul com soja", acrescenta. Usando dados da Conab, Barbeiro cita que a produtividade da soja no Rio Grande do Sul na safra 2002/03 foi de 2,68 toneladas por hectare, enquanto no Paraná foi de 3 toneladas por hectare e no Mato Grosso, de 2,93. Ele ressalta que a safra 2003/04 foi bastante prejudicada pela estiagem em todo o Brasil, mas a quebra no Rio Grande do Sul "foi muito mais acentuada que nos outros Estados". O rendimento gaúcho, com uma safra 68% transgênica, foi de 1,4 tonelada por hectare, uma quebra de 47,8%, analisa Barbeiro. No Paraná, foi de 2,55 toneladas por hectare, uma quebra de 15,5%, e no Mato Grosso, que não foi tão afetado pelo clima, chegou a 2,9 toneladas por hectare, com quebra de 0,5%, compara ele. Sobre o "pioneirismo" citado pela Monsanto, Barbeiro observa que a soja é uma planta de clima temperado e sua adaptação no Brasil aconteceu no Rio Grande do Sul por causa da característica climática. O trabalho dos órgãos de pesquisa permitiu sua adaptação ao clima mais quente do Sudeste e do Centro-Oeste, diz Barbeiro. "Por essa mesma razão, a porta de entrada das variedades de soja transgênicas usadas nos EUA e Argentina foi o Rio Grande do Sul, pois para usar no clima de cerrado é necessário empregar os cultivares adequados", afirma. Conforme ele, a Medida Provisória 131/03 autorizou o registro e reprodução de sementes dessas variedades adaptadas a outras regiões do Brasil.

Agencia Estado,

03 de dezembro de 2004 | 18h26

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