Pedro Kilos/Estadão
Pedro Kilos/Estadão

Tratamentos de saúde à base de cannabis, aos poucos, sobem o morro

Projeto oferece consultas, medicamentos e fomenta geração de renda para famílias com filhos atípicos, que podem ser tratados com o canabidiol, no Complexo do Alemão, no Rio

Anita Krepp, Especial para O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2022 | 14h21

Rafaela França já era mãe de duas crianças quando deu à luz Maria. Moradora do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, ela e o marido trabalhavam fora e davam conta de sustentar a família com o salário que recebiam – ela trabalhando como maquiadora, ele, como vigia noturno. Quando completou 1 ano e meio, Maria foi diagnosticada com autismo. A partir daquele momento, Rafaela precisou deixar o trabalho para focar sua atenção nos cuidados e tratamentos médicos de Maria.

O maior receio era submeter a filha a tratamentos com remédios tarja preta,  por causa dos efeitos colaterais. Preocupada com o desenvolvimento da filha, Rafaela se dedicou a estudar o autismo e as alternativas à alopatia, até encontrar na medicina integrativa um caminho. Mas havia um entrave: bancar o tratamento de R$ 7 mil não era uma opção. A solução foi mobilizar a comunidade em que vivem para, uma semana depois, por meio de uma vaquinha, arrecadar o valor.

Maria apresentou alguma melhora, mas a neurologista que atendia a menina sabia que ainda não era o suficiente. “A doutora me disse que não iríamos acumular atrasos e, então, me falou do canabidiol”, conta ela, que não titubeou em dar óleo de maconha para a filha, que hoje tem 3 anos. O vidrinho receitado pela médica custava R$ 1,7 mil e foi preciso outra vaquinha para importar o remédio. 

O valor foi arrecadado em apenas quatro horas, fazendo de Rafaela uma das primeiras moradoras da comunidade a levar óleo de cannabis medicinal importado para dentro da favela. Ela teve, porém, de pagar caro por um medicamento que, se a legislação permitisse, poderia ser extraído de seu próprio quintal.

“Não tem ninguém que faça por nós, então a gente tem que se ajudar.” Esse é o lema de Rafaela, que há pelo menos cinco anos é uma liderança na defesa dos direitos humanos dentro da comunidade. Ao compartilhar a melhora da filha, virou também referência −  no Alemão e em outras favelas do Rio de Janeiro − para outras mães de filhos atípicos que não vêm resultado nos tratamentos alopáticos para autismo, epilepsia e ansiedade. 

A partir daí, ela começou a organizar vaquinhas virtuais para que as famílias pudessem levar seus filhos a consultas com médicos prescritores de cannabis e também para a importação dos medicamentos. “A primeira criança que teve acesso foi a Ísis, que tinha cem crises convulsivas por dia e hoje não tem nenhuma”, conta.

Brasil x EUA 

Enquanto a indústria da cannabis se desenvolve rapidamente, cresce também o debate sobre a reparação social nas comunidades negras e de baixa renda,  historicamente mais afetadas pela guerra às drogas. 

Nos Estados Unidos, cannabis e equidade social são termos quase indissociáveis em qualquer roda de conversa. No fim de junho, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, anunciou a abertura de um fundo estatal de US$ 200 milhões para promover a inclusão de minorias no negócio da cannabis. E o Estado nem foi o primeiro. Em fevereiro, a Califórnia disponibilizou US$ 35 milhões aos negócios canábicos de minorias tradicionalmente perseguidas pelas políticas antidrogas.

As duas iniciativas não são ações isoladas no país em que mais da metade dos Estados legalizou o uso medicinal da erva – e, dentre os quais, 18 também regulamentaram seu uso recreativo.

No Brasil, a situação é diferente. À espera da regulamentação do Projeto de Lei 399/15 – que garantiria tanto o acesso ostensivo aos tratamentos com a substância quanto o avanço da indústria no país –, a inserção de minorias nos negócios canábicos está longe de ser uma realidade. Dezenas de farmacêuticas e importadoras atuam no mercado brasileiro há pelo menos três anos, mas sem chegar a se mobilizar pela questão. 

Por outro lado, a USA Hemp, empresa de brasileiros estabelecida nos EUA, resolveu inaugurar por aqui uma prática que já promove lá fora: por meio da Redwood Foundation, a família de expatriados doa medicamentos para ex-veteranos de guerra assombrados pelo estresse pós-traumático nos Estados Unidos. A empresa agora sobe o morro para apoiar o trabalho iniciado por Rafaela França.

“Eu sempre marcava a USA Hemp nos posts do Instagram, tentando chamar a atenção deles e, graças a Deus, a Manu notou o trabalho desempenhado por nós”, diz Rafa, referindo-se a Manu Melo Franco, diretora de marketing da importadora e porta-voz da fundação no Brasil. 

Mutirões de atendimento

O plano da fundação para potencializar o trabalho iniciado por Rafaela na favela reúne esforços de vários profissionais que doam tempo, produtos ou dinheiro e se concentra em várias frentes. A primeira delas é a parceria com médicos prescritores que desejam oferecer consultas gratuitamente. 

Se, por exemplo, cada um dos 150 médicos cadastrados na base de dados da empresa, disponibilizar duas consultas gratuitas por mês, 300 famílias serão atendidas a custo zero.  Na semana passada, os médicos Amanda Medeiros, Renan Abdalla e Leopoldo Pires fizeram mutirões de atendimento, doando, em média, 15 consultas cada. Em seguida, ocorre a doação de medicamentos de cannabis para as famílias com receita. 

Mas e o frete, que gira em torno dos R$ 300? Para que as famílias tenham condições de arcar não apenas com isso, mas também uma nova opção de renda, a Redwood vai financiar o treinamento e a capacitação das mães que foram empurradas para fora do mercado de trabalho para cuidar dos filhos atípicos. A ideia é desenvolver oficinas de maquiagem, corte e costura e gastronomia para essas mulheres.

Manu, da Reedwood Foundation, diz que o projeto está aberto a novos colaboradores e voluntários. Até agora, a fundação entrou com caixa próprio e conseguiu reunir doações de dois empresários norte-americanos, além de uma celebridade brasileira com milhões de seguidores nas redes sociais, que prefere não ter seu nome divulgado. 

Com o dinheiro, vão custear todas as contas do projeto, incluindo os honorários do advogado Ricardo Nemer, do coletivo Rede Reforma, que informou que abrirá mão dos honorários e fará o trabalho "pro bono" pelo escritório Figueiredo Nemer & Sanches. Ex-morador do Alemão, Nemer é parte fundamental da ponte que une o empresarial ao social e se comprometeu a garantir os interesses, o protagonismo e a autonomia da favela. 

“Tem que ter um compromisso a longo prazo. Não adianta funcionar uns meses e parar do nada, deixando as famílias na mão”, defende o advogado, que prepara um contrato em que a Redwood se comprometa a manter o projeto por um prazo mínimo, que pode ser prolongado por até cinco anos.

Envolvimento da Educap

O advogado sugeriu à fundação realizar as doações em nome da ONG Educap, fundada em 2008 por Lucia Cabral, e onde Rafaela é voluntária desde 2019, já que as mães ainda não possuem personalidade jurídica. A ideia é agilizar a parceria e ao mesmo tempo fortalecer o trabalho já consolidado pela ONG que realiza serviços sociais na favela.

Lucia já está acostumada com parcerias grandiosas, como a doação da sede da organização, feita pelo príncipe Harry em 2012, e os apoios pontuais de empresas, como Kibon e Lego, que ajudaram a consolidar a Educap como uma das instituições de maior atuação no Alemão e redondezas.

“Precisamos brigar por essas famílias, não só pelo direito à cannabis, mas também pela educação e saúde. E eu acredito que todo mundo tem que ter o direito ao acesso ao óleo, não só o filho do rico”, afirma Lucia. Ela afirma que só resolveu embarcar no projeto depois de se certificar que se trata de algo sustentável, e não apenas uma jogada de marketing.

A indústria da cannabis, assim como qualquer outra, precisa do marketing para expandir. Reinventar estratégias incluindo o social foi o caminho escolhido pela USA Hemp na criação de um projeto que se baseia pela ética e se pretende autossustentável. Afinal, vale mais a pena patrocinar influenciadores ricos ou doar medicamentos àqueles que não têm condições de comprar, enquanto o autocultivo continuar ilegal? A resposta vai depender do objetivo de cada marca, mas a segunda opção soa bem mais humana.

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