Trigo/Cenário: negócios com safra nova giram em torno de R$ 420/t

São Paulo, 27 - A medida que ganha ritmo no Paraná a colheita da safra nova de trigo, aumenta a disposição de venda e o mercado do cereal fica um pouco mais aquecido. Segundo a Correpar, a maioria dos compradores continua retraída, mas nesta semana cresceu o número de contratos fechados com trigo novo. A cotação é de R$ 420 a tonelada, R$ 10/t a menos que na semana anterior. Moinhos paranaenses também têm fechado negócio com trigo gaúcho da safra passada. Os preços hoje são de R$ 445 a tonelada posto Curitiba, o que, descontado o frete, indica R$ 395/400 a tonelada FOB. O trigo argentino é negociado nesta sexta-feira a US$ 125 a tonelada em Bahia Blanca, ou R$ 369 a tonelada FOB. Para um corretor do Paraná, a tendência para o mercado interno nos próximos dias é de preços próximos do mínimo de garantia, que na região Sul é de R$ 400 a tonelada. Quanto à qualidade do trigo da safra nova, a indústria ainda espera cereal com maior PH. Segundo Lawrence Pih, do Moinho Pacífico, os primeiros trigos colhidos no Paraná tinham PH fraco, de 72 e 73, e devem ser usados para ração. Nesta semana, começaram a ser oferecidos trigos com PH superior, de 77 e 78, mas a indústria ainda espera mais. O clima, a partir de agora, vai determinar essa condição. No Paraná, preocupa o fato de que em determinadas regiões não chove há mais de 30 dias. Nesta semana, o Departamento de Economia Rural reestimou a safra paranaense de trigo em 3,077 milhões de toneladas, 5,6% a menos que a previsão de julho, por causa do brusone, doença provocada por um fungo e que atacou lavouras do norte e oeste do Estado. Nos últimos dias, a chegada de uma frente fria mudou o tempo, e há possibilidade de chuva. (Jane Miklasevicius, segue) As chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul na semana passada foram bem distribuídas mas insuficientes para algumas áreas produtoras, diz a Emater. Mesmo assim, a empresa informa que as condições fitossanitárias da lavoura são muito boas e o trigo, que entra em fase de emborrachamento, se desenvolve bem. "O aspecto da lavoura deste ano é superior à do ano passado", diz o engenheiro agrônomo Claudio Doro, que prevê ganho de produtividade para algo em torno de 2.400 quilos por hectare. Segundo ele, algumas áreas necessitam de mais umidade, mas as temperaturas noturnas são amenas e a curto prazo não há nenhum fator que ameace a previsão de colheita de até 2,9 milhões de toneladas. Para o analista, a preocupação neste momento são os preços do trigo. "Se a safra for de qualidade, como se espera, e no tamanho previsto, haverá uma superoferta, o que já está deprimindo os preços", diz. Segundo ele, na última semana o preço pago ao produtor gaúcho caiu 4,34% para R$ 22,50 a saca de 60 quilos, o equivalente a R$ 375 a tonelada. Ele lembra que a dificuldade que o Rio Grande do Sul terá para exportar trigo este ano, tendo em vista a maior produção de trigo soft no mundo e a queda de preço no mercado internacional, apontam para uma comercialização da safra "bastante instável". Na safra 2003/04 o Rio Grande do Sul exportou 1,1 milhão de toneladas das 1,4 milhão de toneladas que o País vendeu para o exterior. O volume equivale a 30% da produção do Estado. (Jane Miklasevicius, segue) À frente do Moinho Pacífico, que responde por 30% do mercado de farinha de trigo de Paulo, Lawrence Pih critica a política do governo para o setor trigo. O primeiro erro, diz Pih, foi fixar os preços de garantia do trigo em R$ 400/t no Sul e R$ 450/t no Centro-Oeste quando já em fevereiro o mercado sinalizava para preços internacionais abaixo desse patamar no meio deste ano. Os contratos de opção lançados na safra passada também foram equivocados na sua opinião. "O governo já gastou R$ 15 milhões, entre custos de armazenagem e juros, com o trigo que comprou e não consegue revender", diz sobre as 144 mil toneladas ainda em estoque após três leilões da Conab que resultaram na venda de pouco mais de 5 mil toneladas. O executivo também criticou o pedido feito esta semana ao governo pela cadeia produtiva, que se reuniu na sede da Ocepar, em Curitiba, para discutir a comercialização da safra. "LEC (Linha Especial de Crédito) e EGF (Empréstimo do Governo Federal) pode ser, mas AGF (Aquisição do Governo Federal) é complicado. O governo não dispõe de recursos para isso. Muito menos para lançar contratos de opção para 35% da safra, ou dois milhões de toneladas, ao preço de R$ 450 a tonelada, como chegaram a pedir", diz. Pih reclama que o governo incentivou o plantio de trigo nos últimos anos, mas penaliza o consumo. Ele se refere ao fato de o trigo ter ficado de fora dos produtos da cesta básica - mandioca, arroz e feijão, entre outros - que obtiveram isenção de PIS/Cofins. "Os moinhos não têm como competir com a mandioca, pois pagam 9,25% de PIS/Cofins", diz. Ele lembra também que, ao contrário da farinha de mandioca, a farinha de trigo comercializada no Brasil, por força de lei, precisa ser acrescida de ferro e ácido fólico. "Faz sentido isso?", questiona. O moageiro diz que apesar da recuperação da economia, verificada nos últimos dois meses, e do aumento da renda do brasileiro, o consumo de derivados de farinha não mostra sinais de recuperação. A projeção feita por ele é de que a indústria fechará o ano com moagem de 9,3 milhões de toneladas, 5% abaixo de 2003. (Jane Miklasevicius, fim)

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