UE admite recorrer ao FMI para superar crise

Ministros da zona do euro também já aceitam ideia de ter orçamentos fiscalizados

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo,

30 de novembro de 2011 | 23h05

Sem um plano nem dinheiro para superar a crise, a Europa terá de recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para impedir um contágio generalizado e aceitar as exigências da Alemanha - de controle sobre os orçamentos nacionais - na esperança de que Berlim considere, assim, a intervenção do Banco Central Europeu (BCE) para socorrer o bloco.

Nesta quinta-feira, ministros de Finanças da zona do euro admitiram que não terão como juntar o € 1 trilhão que esperavam para financiar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef), que garantiria a sobrevivência do euro. O único acordo atingido pelos ministros foi o de pedir que o FMI assuma um papel maior no financiamento do resgate do Velho Continente, além de garantir maior poder de fogo do BCE.

O envolvimento do FMI no resgate da Europa será decidido no dia 9 de dezembro, na cúpula da União Europeia, adiando até lá qualquer chance de acordo sobre um plano para superar a crise. Na agenda da cúpula, estarão as propostas de dar poderes à UE para fiscalizar os orçamentos nacionais, a busca de uma maior integração fiscal e a punição severa dos governos que acumularem déficits. Na prática, uma nova Constituição da UE estaria em debate.

Sem caixa

O Feef foi criado em meados do ano como a grande solução para frear a crise e dar um basta aos ataques do mercado. Mas a constatação agora é de que o valor pensado originalmente não está disponível nos cofres dos governos europeus. Hoje, o fundo tem apenas € 440 bilhões. A participação do FMI seria fundamental. O problema é que o próprio FMI tem hoje só US$ 390 bilhões para emprestar e já abriu os cofres nos resgates para Portugal, Irlanda e Grécia.

Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, também disse estar disposta a ajudar. Mas a dúvida é até que ponto conseguiria convencer os parceiros a aumentarem seu financiamento. Guido Mantega, ministro da Fazenda, chegou a dizer no G-20 que estaria disposto a contribuir. Mas limitou a contribuição brasileira a US$ 10 bilhões. China e Índia atrelam uma ajuda a mais poder dentro da instituição. Nos Estados Unidos, a dívida deve impedir um aumento substancial da contribuição de Washington.

Alemanha

Mas cresce a percepção de que, com menos da metade do valor desejado do fundo em mãos, outra parcela do socorro terá de vir do BCE, que já gastou, em vão, € 187 bilhões para frear a crise. Alemanha e Finlândia estão entre os que se negam a dar poderes ao banco, temendo a volta da inflação e o fim da independência do organismo.

Porém, o aprofundamento da crise pode estar aproximando as posições. "Teríamos mais credibilidade diante dos mercados se contássemos com o FMI e o BCE", admitiu o ministro de Finanças da Suécia, Anders Borg.

O ponto central para conseguir essa participação do BCE seria atender às exigências da Alemanha. Nesta quinta-feira, os ministros acataram o plano de Berlim de que a UE tenha mecanismos mais duros para controlar os orçamentos dos países da região no futuro e, assim, impedir déficits descomunais. Para o primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, a maior união fiscal criará melhores condições para que o FMI e o BCE possam ajudar.

Jean-Claude Juncker, presidente da zona do euro, acredita que há como evoluir para a emissão de eurobônus. "Se fortalecermos a disciplina orçamentária, se tivermos mais coordenação econômica e se cuidarmos das contas, as condições estarão dadas para uma maior integração e para a emissão de eurobônus."

 

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