UE/Mercosul: apoio ao setor agrícola complicou negociação, diz CNA

Brasília, 30 - A recusa da União Européia em discutir temas de apoio interno ao setor agrícola na negociação com o Mercosul não surpreendeu o agronegócio brasileiro, afirmou o chefe do Departamento de Comércio Exterior da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antônio Donizeti Beraldo. Ele contou que o assunto foi um dos fatores que "complicou" as discussões para formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Beraldo lembrou, no entanto, que a negociação para redução das medidas de apoio interno é um dos pontos do documento atual da negociação da Organização Mundial do Comércio (OMC). "O agronegócio não quer que o apoio interno faça parte das negociações, pois considera o assunto muito delicado", afirmou Beraldo. "O fim do apoio interno não é fundamental. O principal ponto defendido pelo agronegócio é o fim dos subsídios à exportação", completou. Os subsídios à exportação, argumenta, resultam em sobreoferta e queda dos preços Internacionais. Beraldo classificou como "decepcionante e muito ruim" a nova proposta da UE para o Mercosul. "Em linhas gerais, foi mantida a proposta inicial, apesar de os europeus terem sinalizado, há algumas semanas, com uma proposta melhorada para o Mercosul", disse. O representante avaliou que o maior recuo, no caso da agricultura, foi a questão das cotas e que a carne bovina e de frango foram os segmentos mais penalizados. Em conversas em Bruxelas, contou, os europeus chegaram a sinalizar com cota "melhorada" de 156 mil toneladas para compra de carne bovina dos países do Mercosul. No entanto, a proposta apresentada ontem manteve a cota anual de 116 mil toneladas, sendo que volume de 60 será "fatiado" nos dez primeiros anos do acordo comercial entre os dois blocos. O restante, disse Beraldo, só será ofertado após a conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para o frango, foi mantida a versão original de 75 mil toneladas. Os europeus chegaram a sinalizar, informalmente, com cota de 275 mil toneladas para o frango do Mercosul. Para a agricultura, a oferta da União Européia está baseada em três pontos: desgravação tarifária por um período de até 10 anos, cotas e tratamento diferenciado para produtos agrícolas processados (chamados de PAP). Estimativas do Ministério da Agricultura apresentadas pelo técnico da CNA mostram que os ganhos do bloco, considerando a oferta inicial que foi mantida, chegariam a US$ 2,5 bilhões ao ano. Desse total, US$ 1,8 bilhão viriam pela redução de tarifas, US$ 600 milhões das cotas e US$ 100 milhões via PAP. "Se confirmadas as cotas apresentadas verbalmente, só nesse item o ganho seria de US$ 1,2 bilhão", comentou. Apesar da decepção com a oferta européia, ele disse que "não é hora de jogar a toalha". "As duas propostas estão na mesa e é hora de partir para a negociação", afirmou Beraldo. Para discutir a proposta da União Européia, a CNA deve convocar representantes do agronegócio para uma reunião na próxima semana, provavelmente em Brasília.

Agencia Estado,

30 de setembro de 2004 | 12h17

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