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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Uma fábrica para chamar de sua

Depois de eliminar o intermediário em diversas atividades do setor de serviços, chegou a vez da tecnologia mudar o processo industrial

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2017 | 05h03

De acordo com dados compilados pela Organização das Nações Unidas, entre 1970 e 2010 a participação do setor manufatureiro no produto interno bruto global caiu de aproximadamente 26% para 16%. Conforme já discutimos, isso ocorreu em função da automação e do aumento de produtividade, a exemplo do que aconteceu anteriormente no setor agrícola (que também experimentou uma redução significativa em termos de quantidade de empregados e participação no PIB). A quantidade de empregos no setor de serviços aumentou significativamente, ocupando no Brasil dois em cada três empregados. Entretanto, com os avanços obtidos em técnicas de inteligência artificial aliadas ao maior poder de processamento e armazenamento dos computadores, uma série de atividades antes exclusivamente ao alcance de seres humanos já estão sendo executadas por máquinas. Isso pode ser parte do motivo pelo qual o movimento maker vem ganhando força no mundo todo, e é considerado uma importante tendência no mundo dos negócios.

Em janeiro de 2010, o escritor e empreendedor Chris Anderson publicou um artigo na revista Wired: "In the Next Industrial Revolution, Atoms Are the New Bits" - ou "Na Próxima Revolução Industrial, os Átomos são os Novos Bits". O argumento de Anderson é que, se durante a popularização da Internet tornou-se muito fácil compartilhar um programa de computador (bits) e desenvolvê-lo em conjunto com centenas ou milhares de colaboradores, agora o mesmo se aplica ao desenvolvimento de produtos "reais" (átomos). O impacto deste fenômeno promete ser significativo. Até pouco tempo atrás, manufaturar algo era intrinsicamente caro: linhas de montagem, equipamentos pesados, fornecedores, estoques, distribuição, logística, escalabilidade. Tudo tinha que ser planejado cuidadosamente, e a viabilidade econômica dependia da aceitação do produto por um grande número de consumidores.

O acesso a espaços maker, equipados com scanners 3D, impressoras 3D, sensores, microcontroladores e ferramentas de construção e modelagem permite que um amplo número de pessoas volte a trabalhar com um novo tipo de manufatura. O tempo para prototipar, desenvolver, implementar e testar uma nova idéia é medido em horas ou dias - é possível experimentar, aperfeiçoar e colaborar praticamente em tempo real, de vários lugares do mundo. A exemplo de tantas outras indústrias, agora a tecnologia retira o intermediário do processo produtivo de bens físicos - é a desintermediação da manufatura.

Universidades, centros de pesquisa e corporações já estão empenhados em integrar a cultura maker às suas respectivas culturas. A NASA, agência espacial norte-americana, possui um programa chamado NASA Solve no qual problemas reais que precisam ser resolvidos são compartilhados com o público - e as soluções vencedoras são remuneradas. Em 2009, por exemplo, um dos vencedores desenvolveu em seu maker space caseiro protótipos para novas luvas a serem utilizadas por astronautas, recebendo duzentos mil dólares pelo trabalho.

Empresas como GE, Intel, Microsoft e Google também estão criando espaços destinados para criação utilizando técnicas associadas não a modelos tradicionais mas sim ao estilo maker de abordagem de problemas. Conhecer a cultura maker é tipicamente o primeiro passo para ser capaz de incorporá-la ao processo produtivo, seguido do desenvolvimento ou o uso de espaços para permitir que atividades criativas e voltadas à resolução de problemas práticos possam ser experimentadas.

Mas a manufatura está longe de ser a única atividade que está em plena transformação devido ao uso de novas tecnologias e equipamentos pelos makers. Com as impressoras 3D, a expressão "fazer um sanduíche" passa a ter um significado completamente novo. É sobre o impacto dessa nova tecnologia na indústria de alimentos que iremos falar na semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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