Uma questão de sobrevivência

Sem o uso contínuo de novas tecnologias, o desafio de alimentar o planeta é insuperável

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2017 | 05h07

Em outubro de 2009, a Organização para Alimentação e Agricultura da ONU (FAO - Food and Agriculture Organization) publicou um relatório indicando que, considerando-se as projeções de crescimento da população mundial, será necessário que a produção global de alimentos aumente em cerca de 70% nas próximas décadas. Até 2050, ainda segundo a FAO, o espaço arável em países em desenvolvimento deve aumentar em 12%, mas será reduzido em cerca de 8% nos países desenvolvidos. Isso quer dizer que o aumento na produtividade não será o resultado da expansão da fronteira rural, mas sim de melhorias nos processos ligados às atividades agrícolas e pecuárias.

De acordo com a empresa de pesquisa Euromonitor International, as vendas de alimentos industrializados atingiram US$ 2,4 trilhões em 2014, e segundo a consultoria Research and Markets 2020 esse mercado irá superar os US$ 3 trilhões em 2020. Considerando-se que o PIB global nominal (que não leva em consideração a inflação) atualmente está entre US$ 75 e US$ 80 trilhões, e que a agricultura responde por cerca de 6% desse valor, é razoável estimar que o setor de alimentos - considerando produção e vendas - represente algo como US$ 7 trilhões.

A atividade agrícola possui uma longa história de avanços e inovação, com a implantação consistente de novos processos e tecnologias. A mecanização do campo, o desenvolvimento de fertilizantes, técnicas de irrigação e mais recentemente a engenharia genética são alguns exemplos daquilo que permitiu, apenas nos últimos 50 anos, que a produtividade de diversos tipos de plantações tenha mais que triplicado. De acordo com dados do Banco Mundial, a quantidade de quilogramas de cereal por hectare produzida no Brasil saiu de 1.346 em 1961 para 4.640 em 2014. Nos EUA, o salto foi de 2.522 para 7.638 durante o mesmo período.

Esses avanços precisam continuar ocorrendo para que o mundo não passe por um problema estrutural de falta de alimentos, e a IoT (Internet of Things, a Internet das Coisas) já está desempenhando um papel relevante nesse cenário. A chamada “agricultura de precisão” faz uso de sensores que permitem um mapeamento preciso da topologia do terreno, bem como informações relativas ao solo, temperatura e umidade. Rebanhos podem ser monitorados de forma precisa, com informações que vão desde a alimentação até o estado de saúde de cada animal. Imagens capturadas por drones ou por satélites (que há muito tempo deixou de ser um negócio restrito a governos) fornecem informações relevantes para o fazendeiro, que pode integrar esses dados ao seu processo de tomada de decisão. Os próprios tratores, que em um futuro próximo também serão autônomos, já são capazes de coletar dados sobre a produtividade de cada hectare - aumentando a eficiência e reduzindo o desperdício.

O grupo Gartner estima que até 2020 - ou seja, em apenas três anos - mais da metade dos novos processos e sistemas encontrados no mundo corporativo irão possuir algum elemento de IoT. De acordo com o serviço de pesquisa da Business Insider, nesse mesmo período a quantidade de dispositivos IoT no campo irá atingir 75 milhões de unidades (contra 30 milhões existentes em 2015). E as evidências indicam que quanto mais conectada for uma fazenda, não apenas maior sua produtividade, mas também maior será sua eficiência, com quedas nos gastos com energia e irrigação, por exemplo.

Mas não são apenas indústrias, cidades e fazendas que estão buscando implementar um ambiente conectado e mais eficiente. A tendência de monitorar e integrar vários aspectos do dia-a-dia através de equipamentos digitais também começa a se popularizar entre as pessoas, através de dispositivos que “vestimos”. Pois serão desses dispositivos - os “wearables” - que iremos falar na semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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