Unesp desenvolve sementes isentas de vírus

Tecnologia permite mais produtividade, padronização e qualidade

Fernanda Yoneya - O Estado de S.Paulo ,

15 de agosto de 2008 | 17h40

Além da boa produtividade da lavoura e da qualidade do produto - sabor picante e tamanho bem aceito pelo mercado -, o alho nobre brasileiro tem tudo para manter a sanidade em dia, com o desenvolvimento de sementes livres de vírus. "Pesquisas oficiais estão sendo reativadas, por novos convênios", diz o presidente da Anapa, Rafael Corsino. "Estão sendo retomados principalmente estudos sobre o desenvolvimento de sementes livres de vírus."Segundo o coordenador da pesquisa Obtenção de alho nobre isento de vírus, Marcelo Agenor Pavan, do Departamento de Defesa Fitossanitária da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), da Unesp de Botucatu (SP), os estudos com alho na universidade começaram em 1985. "O objetivo era estudar causas da baixa produtividade, que não passava de 5 a 7 toneladas/hectare. Acertamos o manejo, como adubação e espaçamento, mas a questão da presença de vírus mostrou-se um desafio."Pavan explica que o alho, por ser exclusivamente de propagação vegetativa, não tem semente "verdadeira", o que o torna um "acumulador" de vírus. "Na cebola, por exemplo, a semente botânica filtra o vírus. No alho, o vírus não pode matar o hospedeiro - sem o hospedeiro, ele morre -, então ele convive e se mantém no bulbilho. E isso é o que pode provocar queda de até 40% na produtividade."Em 1991, conta o professor Júlio Nakagawa, da Unesp, um convênio entre a FCA-Unesp e o Agricultural Research Center, de Yamanashi-ken, no Japão, trouxe ao País um especialista em cultura de tecidos, Satoru Takayama, para repassar a tecnologia aos pesquisadores brasileiros. A técnica da cultura de tecidos consiste no cultivo in vitro de qualquer parte de uma planta e permite obter um grande número de plantas partindo-se de um único indivíduo. É uma técnica usada para obter plantas isentas de doenças e vírus. "Este foi o começo. Depois, a técnica foi sendo aperfeiçoada na Unesp", diz Nakagawa.O projeto envolve as seguintes etapas: primeiro, isenta os bulbilhos de vírus por termoterapia e, depois, os materiais da segunda geração são enviados para Guarapuava (PR), para a climatização. "Lá, ficam em cultivo protegido e, por causa do clima, a reinfestação do vírus é menor nas plantas." De Guarapuava, a terceira geração de plantas vai para Santa Juliana, onde é feita a reprodução, e a quinta geração é destinada ao plantio comercial", explica Nakagawa.Hoje, a Unesp e um grupo de produtores mantêm, em Santa Juliana, 50 hectares com o alho livre de vírus. "A produtividade deve atingir até 20 toneladas/hectare", prevê Nakagawa. Desta área, há 20 hectares na 3ª geração, 2 hectares na 2ª geração e 2 mil metros quadrados na 1ª geração. "A partir do quinto ano consecutivo de cultivo, as plantas ficam reinfestadas pelo vírus, razão pela qual a produção de bulbilhos livres de vírus deve ser ininterrupta", diz Pavan. A semente livre de vírus, além de aumentar a produtividade, padroniza a safra. "Ficou comprovado que de 80% a 90% dos bulbos são classificados entre 5 e 7." A disponibilidade de sementes ainda é pequena para o produtor, pois são necessários, para 1 hectare, 2 mil quilos de sementes. Mas os produtores Satoshi Kitajima e Milton Osamu Kamitsuji, que com outros sete sócios formam a empresa Genove Agronegócios, pretendem, em 2009, iniciar a venda em escala comercial de sementes isentas de vírus para outros produtores.Além das pesquisas na Unesp de Botucatu, há estudos sendo feitos na Embrapa Hortaliças, na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e no Instituto Agronômico (IAC-Apta), de Campinas (SP).

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