Hiroko Masuike/The New York Times
Hiroko Masuike/The New York Times

Vacinados, americanos voltam às lojas de roupas e aderem a modelo de aluguel

A pandemia atingiu duramente o mercado de vestuário; agora, empresas como a Rent the Runway, que trabalha com o modelo de assinatura, dizem que o mercado está bombando como nunca se viu antes

Elizabeth Paton e Sapna Maheshwari, The New York Times

27 de maio de 2021 | 15h00

Faz mais de um ano desde que o coronavírus levou os eventos e reuniões sociais a uma completa paralisia, com muita gente usando moletons dentro de casa por meses sem fim. Mas nas últimas semanas - e particularmente em partes dos Estados Unidos onde a vida volta lentamente à normalidade - observa-se uma ebulição pós-pandemia na maneira como os americanos estão se vestindo.

Lojas tradicionais como T.J.Maxx e Macy's reportaram um aumento nas vendas de roupas. E plataformas de aluguel de vestuário como Rent the Runway já vêm colhendo os benefícios de um ano extremamente instável com demissões e cortes de orçamentos.

A diretora executiva da Rent the Runway, Jennifer Hyman, disse este mês que os usuários retornaram em massa ao serviço. Desde um declínio observado da pandemia, em maio, a plataforma registrou um aumento de 92% no número de assinantes ativos, atraídos em parte pelos descontos recentes, e no final deste ano o número de clientes deve superar os níveis de 2019.

Polos tradicionais de aluguel de roupas, como Texas, Flórida e Geórgia, têm sido os primeiros a mostrar sinais de recuperação este ano, mas não chegaram ainda aos números de 2019. Cidades como Charleston, na Carolina do Sul, Nashville e Phoenix tiveram um grande aumento de novos inscritos e o crescimento veio também de cidades menores onde a empresa não realizava muitos negócios, como Chapel Hill, na Carolina do Norte, e Knoxville, Tennessee. Na área metropolitana de Nova York, a média diária de novos consumidores da Rent the Runway em maio foi quatro vezes e meia maior do que em fevereiro.

A ousadia em termos de novas tendências também começa a se fazer sentir, com as mulheres buscando estilos mais atrevidos e mais sexy do que antes. Algumas empresas estão chamando isso de ostentação ou hedonismo, ao passo que a Rent the Runway prefere dizer que se trata de uma nova “joie de vivre”.

“É o que vimos observando em todo o país e em todas as faixas de idade e é totalmente diferente do que observamos em nossos 13 anos de atividade”, disse Jennifer Hyman. Dados da companhia dão uma visão em tempo real do que as pessoas estão vestindo - ou não. Por exemplo, a demanda por crop tops (tops curtos) é quatro vezes maior em 2021 em comparação com 2019, e o triplo de pedidos no caso de mulheres de 35 anos ou mais, e houve um crescimento de 44% nas buscas por vestidos com recortes. Que não são apenas para clubes noturnos, e também estão aparecendo em chás de bebê.  

“É surpreendente o fato de mulheres com mais de 35 anos, ou já nos seus 40, estarem alugando tops do mesmo modo que nossas adolescentes”, disse Hyman.

E com as quarentenas suspensas, as barras das saias também foram levantadas. De costa a costa as encomendas de minissaias e vestidos mini dobraram este ano. Cores neon e estampas chamativas também estão em alta.

A psicologia do consumidor mudou de um modo irreversível nos últimos 15 meses. Junto com uma confiança crescente no e-commerce e nos serviços on-line, uma maior preocupação com a sustentabilidade tem levado milhões de consumidores a reavaliarem seu padrão de consumo anterior. E a economia compartilhada continua a reformular inúmeros aspectos da sociedade, como a priorização do acesso à propriedade. De acordo com Claudia D’Arpizo, sócia da Bain & Company, focada no setor de moda e artigos de luxo, a pandemia pode realmente tornar o segmento de locação de roupas - e o de revenda de moda - alguns dos maiores competidores numa nova era de consumo.

“Quando você pergunta às jovens em particular sobre moda de aluguel e segunda mão, é claro que elas dizem que esse é o futuro”, disse Claudia D’Arpizo. “Naturalmente, à medida que esse mercado cresce, a entrega, o retorno e a logística mais eficientes se tornam uma consideração mais complexa e cara. Mas o fato de você agora ter um número crescente de marcas e lojas da velha guarda entrando nesse espaço deixa claro que o setor percebe que é uma grande oportunidade que só tende a aumentar”.

As lojas de roupas foram golpeadas no ano passado e a Rent the Runway não foi exceção. Antes da covid-19, a empresa estabelecida em Nova York vinha se expandindo rapidamente, com as salas de correios de firmas de Wall Street cheias com pilhas de sacolas devolvidas nas segundas-feiras e uma rede em expansão de pontos de devolução dos artigos alugados em espaços da WeWork. A empresa firmou uma parceria com a West Elm e anunciou seu plano de “criar a Amazon Prime da locação”.

A propagação da covid-19 pôs fim ao entusiasmo, dando início a um período de paranoia com relação a compartilhar e tocar superfícies comuns. A empresa, que antes permitia que as clientes mantivessem suas assinaturas em suspenso por alguns meses, teve dificuldades para oferecer uma pausa indefinida para elas não abandonarem inteiramente a plataforma. Embora algumas tenham continuado a alugar suéteres e roupas de grife, muitas fizeram uma pausa ou deixaram totalmente o serviço.

A companhia fechou suas cinco lojas em grandes cidades, demitiu ou deu licença para metade dos funcionários e abandonou a opção de assinatura ilimitada. No último trimestre do ano passado, realizou uma nova rodada de financiamento com uma valorização de US$ 750 milhões, perdendo o cobiçado status de “unicórnio” conseguido em 2019. (A Rent Runway, que é respaldada por capital de risco, levantou US$ 400 milhões no total e provavelmente em algum momento fará uma IPO. Mas não revela o volume das vendas nem dos seus lucros).

Jennifer Hyman disse que a queda na valorização não significa nada. A companhia precisava de dinheiro para ficar preparada para qualquer cenário, disse, sublinhando que ninguém sabia quando a pandemia atingiria o país.

De todas as alterações que a empresa fez no ano passado, a maior foi a mudança da opção de oferta ilimitada, que permitia às clientes trocarem quantas peças desejassem pagando uma taxa mensal. Agora, ela oferece algumas opções diferentes - as usuárias podem alugar até quatro itens por mês, numa mesma remessa, por US$ 89, ou 16 itens e até quatro remessas por US$ 199. O novo modelo atraiu muitas clientes e é mais econômico e melhor para o meio ambiente, disse Hyman, uma vez que reduz as entregas nonstop e as lavagens a seco. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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