Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Vale corta produção de minério de ferro em 25 milhões de toneladas

Em tempos de recordes de baixa no preço do insumo, mineradora reduziu a compra de terceiros e está trocando minério de baixa qualidade por um de maior teor de ferro, capaz de garantir melhores margens; ações da companhia subiram mais de 8%

Fernanda Guimarães, Karin Sato, Mariana Durão, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2015 | 05h00

A Vale confirmou nesta segunda-feira que cortou neste mês 25 milhões de toneladas de minério de ferro de sua produção. Em tempos de recordes de baixa no preço do insumo, a estratégia da mineradora é reduzir a compra de terceiros e trocar minério de baixa qualidade e com custo de produção mais alto por um de maior teor de ferro, o que garantiria margens melhores para o produto. 

De acordo o diretor executivo de Ferrosos da empresa, Peter Poppinga, mesmo com o ajuste, a meta de produção de minério de ferro de 340 milhões de toneladas neste ano está mantida. A explicação é que a Vale está adicionando capacidades em minas como Serra Leste, em Carajás (PA), e o Projeto Itabiritos, nos sistemas Sul e Sudeste da empresa, em Minas Gerais.

“Nosso mantra é não a volumes a qualquer custo; é maximizar as margens e, por isso, essa equação das 25 milhões de toneladas”, disse o executivo. Segundo ele, o corte ocorreu nos sistema Sul e “um pouquinho” no sistema Sudeste, ambos em Minas Gerais. Em abril a Vale já havia dito em teleconferência que poderia desmobilizar até 30 milhões de toneladas de produção de menor qualidade. 

A reação do mercado foi imediata. A ação ordinária da mineradora, com direito a voto, subiu 8,12% nesta segunda-feira, a R$ 18,50, enquanto a PNA teve ganho de 6,59% (R$ 15,36) na Bolsa. No ano os papéis acumulam queda de 12,76% e 17,84%.

Poppinga lembrou que a estimativa para as compras de minério de terceiros no ano, em torno de 14 milhões de toneladas, deverá cair para menos da metade. O executivo destacou que a Vale realizou recentemente um pequeno ajuste em seu quadro de funcionários e que já está de volta a uma “fase de normalidade”. 

“Tivemos a feliz coincidência de minas expandindo e os funcionários foram oferecidos a pegar essas outras vagas, transferindo outros de unidades e tentamos minimizar todas as consequências”, disse. Segundo o Sindicato Metabase Itabira, a Vale já demitiu 300 pessoas em 2015 na cidade, ante uma média histórica anual de 120. Na semana passada a empresa pôs 170 funcionários em férias coletivas por um mês nas minas de Feijão e Jangada (MG).

Uma outra declaração de Poppinga que animou o mercado foi a análise de que os preços do minério parecem ter chegado ao piso e, assim, deverão se recuperar no médio prazo. A Vale estima que aproximadamente 50 milhões de toneladas de minério de ferro sejam retiradas de mercado na China neste ano. 

“Com o preço de US$ 60 a tonelada do minério de ferro, metade da produção chinesa estaria fora (se considerar a rentabilidade). Imagina agora com o preço em US$ 50 a tonelada. Fundamentalmente os preços têm de ser mais altos, mas há outros fatores financeiros e de mercado e o preço terá uma volatilidade grande para frente”, disse o diretor. 

O preço do minério de ferro passa por um ciclo de baixa desde o ano passado, com os preços caindo para os patamares mais baixos em uma década. Na semana passada, por exemplo, a cotação chegou a US$ 44 a tonelada e nesta segunda-feira fechou em US$ 49,9 a tonelada. Apesar disso, as grandes mineradoras continuam expandindo suas capacidades. “Não estamos olhando os nossos competidores, cada um tem a sua estratégia”, destacou Poppinga nesta segunda-feira em conversa com jornalistas, após participar do 26º Congresso Brasileiro do Aço. “A Vale sairá mais forte desse momento de transição”, disse, citando que a redução de custos da companhia já chegou a 50% neste ano.

Ações. Segundo o analista da Alpes/WinTrade, Bruno Gonçalves, os investidores têm reagido bem às indicações da Vale de busca por uma maior racionalidade no mercado, diante da deterioração do preço do minério. O analista da Planner Corretora, Luiz Caetano, diz que os papéis da Vale já foram muito penalizados, por isso reagem a qualquer notícia minimamente positiva.

Caetano frisa que Vale havia anunciado em abril que descontinuaria a produção de minas menos rentáveis. A declaração casou com o discurso feito na mesma época por suas maiores concorrentes, a BHP e a Rio Tinto, que sinalizavam uma certa desaceleração em suas expansões. Ele acredita que isso foi precificado e ajudou na recuperação do preço do minério naquele período para a casa dos US$ 65. Agora os preços voltaram à baixa, acumulando queda de quase 30% no ano. 

Pedro Galdi, analista do site WhatsCall, pontua que o ciclo dos metais como um todo continua a ser de baixa, mesmo após esse anúncio da Vale. “Pontualmente pode subir o preço sim, mas o ciclo ainda é de baixa. Além disso, a Vale reduziu a produção de um minério de qualidade mais baixa, porque não valia a pena manter em termos de retorno”, acrescenta.

CSN. O presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Benjamin Steinbruch, disse que a venda de ativos não relacionados à atividade principal da empresa pode acontecer ainda neste ano. “Tendo em vista os juros hoje no Brasil, temos de tomar cuidado com o nível de endividamento”, disse o empresário durante um evento em São Paulo. O Estado publicou na edição desta segunda-feira que Steinbruch já está negociando com bancos a venda de alguns ativos. Segundo ele, aqueles ativos que, “apesar de muito bons, não estão gerando Ebitda adequado”, podem ser objeto de desinvestimento no momento, sendo que um dos objetivos é o fortalecimento dos ativos estratégicos da companhia, que são mineração, siderurgia e cimento. “Dentro disso vamos estudar uma maneira de ‘devargazinho’, na medida que tem oportunidade, oferecer esses bons ativos que temos, que não são diretamente relacionados à atividade core, ao mercado”, afirmou. Entre os ativos que podem ser vendidos, ele citou a fatia na MRS e na Usiminas.

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