Varejo da 25 de Março sofre com ‘gargalos’ de infraestrutura urbana

Maior centro de comércio popular do País, que chega a receber mais de um milhão de pessoas por dia, enfrenta dificuldades de acesso, transporte e limpeza 

Bianca Pinto Lima, do Economia & Negócios,

22 de setembro de 2010 | 12h00

Com quase um século e meio de existência, a região comercial da Rua 25 de Março ostenta cifras impressionantes, como um faturamento anual de R$ 17,6 bilhões e um público que chega a ultrapassar um milhão de pessoas na época do Natal. Os números atestam o sucesso do maior centro de comércio popular do País, e um dos maiores da América Latina, mas também dão a dimensão dos desafios de infraestrutura que o local enfrenta. Falta de vagas de estacionamento, trânsito caótico, limpeza insuficiente e uma segurança que avançou nos últimos anos, mas que ainda não é a ideal, são alguns dos principais entraves para o seu desenvolvimento.

"A parte de transporte e estacionamento é o nosso calcanhar de Aquiles. Precisamos oferecer estrutura, conforto e logística ao consumidor, para que a vinda à 25 de Março não seja um fardo. Caso contrário, o futuro não será colorido para a região", diz o comerciante Miguel Giorgi Júnior, proprietário da loja A Gaivota e presidente da Federação de Turismo de Negócios de São Paulo.

Com a escassez de vagas, os estacionamentos nos arredores, segundo os lojistas, chegam a cobrar R$ 40 a primeira hora aos sábados, um dos dias de maior movimento. No início do ano, a Prefeitura de São Paulo contratou um estudo à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP para revitalizar a região central, o qual também prevê a implantação de estacionamentos públicos que atendam ao fluxo de carros da 25 de Março. O estudo, no entanto, ainda não foi concluído e o projeto não tem data para sair do papel. (Confira abaixo o especial multimídia com personagens, números e histórias que explicam o sucesso e os desafios da 25 de Março).

Arte: Cyntia Ueda / Ilustração: Pedro Bottino

O diretor da União dos Lojistas da 25 de Março (Univinco) Eduardo Ansarah aponta como prioridade o estabelecimento de uma sinalização alternativa, principalmente aos sábados, que direcione o trânsito da zona sul para a Praça da Sé, evitando a Avenida 23 de Maio. "Na Rua Dr. Bittencourt Rodrigues (que dá acesso à 25 de Março pela Praça da Sé) tem um parque de vagas muito grande, com uns dez estacionamentos, só que isso não é divulgado. Então a questão seria instruir melhor os consumidores, para que não venham todos pelo mesmo local, causando este estrangulamento", explica Ansarah.

Para o pesquisador de varejo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Edgard Barki, o pólo de comércio da 25 de Março atingiu um novo ciclo de desenvolvimento e precisa encontrar soluções criativas para se revitalizar novamente. "A região cresceu muito, o que é desejável, mas agora lojistas e poder público têm de pensar como vão fazer para este crescimento ser organizado", explica.

Para garantir a segurança, cerca de 150 policiais fazem a fiscalização da área, segundo estudo da consultoria TNS, realizado no início do ano. O policiamento ostensivo reduziu fortemente o comércio informal e a criminalidade, mas lojistas ainda apontam a falta de um monitoramento eficiente por câmeras, além da ausência de um trabalho de inteligência. "Seria necessária também a criação de mais supedâneos (cabine que abriga o policial) e de uma base fixa da Polícia Militar", acrescenta Ansarah.

Consumidor mais exigente. A 25 de Março é um fenômeno do varejo graças ao seu poder de metamorfose e ao surgimento de uma nova classe média, que agora também pressiona por maior estrutura. "A baixa renda acostumou-se a consumir e, com isso, o nível de exigência passou a ser outro. O pólo de rua precisa então se reinventar, para oferecer, além de uma boa proposta de valor, conforto e até serviço e lazer", diz Barki.

Democrática, a região tem sua clientela formada, em 56%, pelas classes A e B e, em 44%, C e D, segundo pesquisa da TNS. Para pagar as contas, ainda de acordo com o levantamento, a maioria dos consumidores (77%) utiliza dinheiro e o gasto médio é de R$ 193,45. Nos shoppings, por exemplo, este valor cai para R$ 140.

"A questão do acesso tem se degradado rapidamente nos últimos dois anos. É uma reclamação recorrente, séria e que tira clientes da 25 de Março. Outro problema é a limpeza. A rua chega a receber um milhão e trezentas mil pessoas, então fica inviável com vinte ou trinta garis", afirma Marcelo Mouawad, que toca ao lado do pai a rede de lojas Semaan, com dois pontos na 25 de Março.

Copa de 2014. Para Giorgi, os investimentos em infraestrutura urbana também são fundamentais para viabilizar um bom atendimento e garantir vendas fortes durante a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil. "Na Copa deste ano, recebemos turistas do País inteiro atrás de insumos para a comemoração, o que alavancou o comércio de forma impressionante. Então imagina o que um evento deste no território nacional não vai fomentar. Temos menos de 48 meses para nos estruturar", afirma.

 

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