Wesley Gonsalves
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Lojistas do Extra Hiper tentam resistir à espera da chegada do atacarejo Assaí

Comerciantes das galerias do hipermercado amargam prejuízos enquanto tentam manter portas abertas até inauguração do novo modelo; presidente do atacarejo prometeu inaugurar primeira leva de lojas até agosto deste ano

Wesley Gonsalves e Shagaly Ferreira, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2022 | 05h00

Faz dois meses que as gôndolas do Extra em Sorocaba (SP) foram esvaziadas. Mesmo sem a loja que trazia o movimento, alguns lojistas que tinham pequenos comércios na galeria anexa ao antigo hipermercado continuam ali – apesar da queda brusca de até 40% no faturamento. O presidente do Grupo Pão de Açúcar, Jorge Faiçal, disse que os hipermercados são “página virada” para a companhia; esses empresários, porém, não podem se dar ao luxo de dizer o mesmo.

Com contrato de locação vigente até 2024, a proprietária de uma loja de produtos naturais, Andréia Negrin, ainda não sabe se conseguirá manter seu negócio funcionando até a inauguração do atacarejo. Com o fechamento da loja, a empresária precisou reduzir as despesas ao ver seu faturamento cair 40%. “Antes de o Extra fechar, a praça de alimentação era lotada, hoje em dia dá até medo de ficar aqui”, diz. 

Segundo Andréia, para recuperar a clientela perdida, lojistas decidiram instalar faixas pelo bairro e carros de som informando que a galeria continua funcionando. 

Além dos que se seguram enquanto o GPA e o Assaí decidem o destino das lojas – parte delas vai virar atacarejo, outra será transformada em Pão de Açúcar, enquanto haverá também encerramentos –, alguns empreendedores tiveram de fechar as portas. É um efeito colateral da venda das 70 unidades do Extra Híper pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA) que pegou de surpresa os comerciantes que atuam dentro das galerias da rede de hipermercado. 

A compra feita pelo Assaí começa a aparecer na prática. Segundo o presidente do atacarejo, Belmiro Gomes, 40 lojas entram em reforma ainda no primeiro trimestre de 2022 e devem ser inauguradas entre julho e agosto deste ano. Os demais pontos devem passar a operar ao longo de 2023.

Prejuízos  

Há 14 anos com seu salão de cabeleireiro no Extra Sorocaba, o empresário Victor Amaral teve de mudar de endereço após a aquisição do Assaí. Ele foi informado de que precisaria deixar o espaço, mesmo com seu contrato em vigência. “O Extra e o Assaí tratam os lojistas sem um pingo de atenção. Nós acabamos ficando sem respaldo das empresas”, diz Amaral. 

A mudança de endereço resultou em queda de 30% da clientela e um prejuízo de R$ 100 mil gastos com as obras para se instalar no novo local de trabalho. Apesar dos problemas, o empresário está decidido a voltar para seu antigo ponto comercial após a inauguração da loja.

Para Roberto Kanter, especialista em empreendedorismo da FGV, a mudança para o atacarejo pode ser positiva para os lojistas. Em relação aos contratos, Kanter acredita que a negociação deve ser facilitada após a transição. “No caso de lojas com contrato comercial – mais de 60 meses –, não há alterações na regra após a muda de gestão, o novo proprietário é obrigado a continuar com o contrato”, afirma.

Lojas vazias

 A dúvida de quais unidades estão funcionando também assombra os pontos do Extra Hiper que serão transformados em Pão de Açúcar. Em São Paulo, quem passa pela loja do Itaim Bibi é recebido com placas de “estamos abertos” e anúncios de som explicando sobre a mudança. Mesmo funcionando, os serviços de galerias das unidades têm a maioria das lojas fechadas.

Conforme apurou o Estadão, o GPA aproveitou o fim das atividades do hipermercado para encerrar a parceria com “maus pagadores”. Enquanto alguns lojistas eram informados de que poderiam permanecer, outros inquilinos foram “convidados” a deixar os pontos. Em nota, o GPA informou que tem atendido todos os seus parceiros e que está apresentando propostas levando em consideração as características contratuais de cada lojista. “O objetivo é manter o máximo possível de lojistas nos estabelecimentos negociados com o Assaí”, diz a nota. 

Além dos pequenos, a mudança de marca atinge as franquias de grandes redes como O Boticário. A companhia possui 13 lojas próprias e 34 pontos de venda no modelo de franquia no Extra Hiper. Questionada, a companhia de beleza não informou se continuará com as operações após a transição para o Assaí.

Após o comunicado de encerramento das atividades, alguns lojistas de unidades do Extra Hiper de Salvador chegaram a protestar contra o fechamento. O temor principal entre os empresários com a transição era de que o encerramento fosse feito de forma definitiva nas galerias, já que, tradicionalmente, o modelo de negócio de “cash & carry” do Assaí não prevê esse tipo de serviço.

O fechamento de uma de suas quatro lojas não estava nos planos do empresário Jaime Gonçalves, dono da Livraria Evangélica Betânia, localizada na Bahia. A notificação para encerramento das atividades foi recebida conforme regulamento contratual, com 30 dias de antecedência, mas, ainda assim, surpreendeu o comerciante que atuava na galeria há 19 anos. 

Com o fechamento, o empresário percebeu uma queda de 20% do lucro, além de alta nas despesas com pessoal, para pagamento de rescisões. Para equilibrar as contas, a estratégia foi oferecer aos clientes o acervo das duas lojas físicas mais próximas, além de delivery. “Alguns poucos clientes têm aproveitado, mas não é uma representatividade que vá recuperar a perda. Até porque 80% das nossas vendas eram para clientes que iam no Extra, aproveitavam e passavam na galeria”, diz. 

Mesmo que tradicionalmente o serviços de atacarejos não possuam espaço para lojas, o Assaí segue de olho nesse tipo de serviço voltado à experiência de compras dentro das unidades adquiridas do Extra. “Entendemos que esses prestadores de serviço, que são os restaurantes, as lotéricas, as farmácias, entre outros, são um atendimento a mais para o cliente nessas operações”, diz o diretor de operações do Assaí, Anderson Castilho

Segundo informou o Grupo Pão de Açúcar, ao longo do período de transição das operações, todas as negociações contratuais serão realizadas diretamente pelo antigo proprietário junto aos lojistas. Após esse primeiro momento, a companhia fará a cessão dos contratos ao Assaí, que passará a gerenciar o serviço de galerias nas unidades. 

Transição

Para a rede de academias Selfit, a compra do Extra Hiper pelo Assaí não foi uma surpresa. O diretor financeiro da marca, Vinícius Mendonça, conta que precisou realocar alguns clientes em outras unidades por causa da mudança. “A academia é um negócio de conveniência, quando trocamos o ponto alguns clientes deixam de frequentar”, afirma. Ele garante que a marca tem planos para retomar as operações no modelo de atacarejo. Atualmente a rede possui 10% de lojas no antigo hipermercado

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