Amanda Perobell/ Reuters - 11/10/2019
Amanda Perobell/ Reuters - 11/10/2019

'Viagem aérea pode virar luxo se não atacarmos custos', diz presidente da Azul

Combustível de aviação teve alta de 71% no acumulado de 2022, segundo a Abear, associação que reúne as companhias aéreas; executivo afirma que empresas estão aumentando os preços "para sobreviver"

Juliana Estigarríbia, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2022 | 17h13

Enquanto a deterioração do cenário econômico sinaliza que o brasileiro terá cada vez mais dificuldades pela frente, os preços das passagens aéreas continuam aumentando – sem um horizonte de mudança. Segundo o CEO da Azul, John Rodgerson, as tarifas vão continuar subindo em meio à escalada contínua do petróleo. Em sua visão, os elevados custos estruturais do Brasil precisam ser resolvidos para que o modal não fique ainda mais restrito no País.

De acordo com levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o preço do querosene de aviação acumulou alta de 71% até 1.º de julho. No consolidado de 2021, o aumento acumulado foi de 92%. "Se o combustível está subindo e o dólar valorizando, a passagem vai ter que subir para a receita das aéreas cobrir os custos. Mas não acredito que essa situação vai continuar assim, não vejo a guerra (na Ucrânia) durando para sempre", diz Rodgerson, que também citou de custos locais, como o ICMS sobre os combustíveis e o PIS/Cofins.

Ele destaca que as companhias aéreas estão elevando os preços para "sobreviver". "Ficamos praticamente oito meses sem receita por causa da pandemia. Hoje, há um caos aéreo nos Estados Unidos e na Europa, onde as empresas receberam dinheiro do governo. Nós, no Brasil, não tivemos auxílio, mas fizemos nossa lição de casa, tivemos que nos reestruturar e estamos saindo da pandemia mais fortes do que em outros lugares."

Atualmente, a ocupação média das aeronaves da Azul é de 80%, relata Rodgerson. "Hoje, temos 30% mais oferta de voos do que no pré-pandemia e mesmo assim as tarifas estão mais caras. Imagine se não tivéssemos colocado mais voos no mercado, os preços seriam absurdos." O preço médio da passagem doméstica está em tendência de alta e já acumula avanço de 21% nos quatro primeiros meses deste ano, em relação ao patamar de 2019, segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Para ele, o Brasil precisa se alinhar às práticas internacionais do setor aéreo, como no caso da discussão sobre cobrança de franquia de bagagem. "Quando a franquia é obrigatória, isso demanda um enorme contingente de funcionários para receber e transportar as bagagens, gerando custos adicionais, o que vai acabar encarecendo as tarifas para todos os passageiros", esclarece. "Além disso, cada mala desviada é um processo judicial em potencial. O impacto é muito grande."

Potencial de crescimento

O CEO da Azul enxerga o Brasil com grande potencial para desenvolver a aviação. "O nosso diferencial é a malha. Estamos em mais de 150 cidades, enquanto concorrentes estão em 50. Também temos uma frota diversificada, com aeronaves de todos os tamanhos, o que nos permite voar para muitas localidades."

O executivo pontua que a nova distribuição de slots (horários de pouso e decolagem) esperada para o Aeroporto de Congonhas – responsabilidade da Anac – deve beneficiar a companhia, embora esse número ainda não tenha sido divulgado pela autarquia. Em relatório no fim de junho, o BTG estimou que a Azul deve atingir cerca de 80 slots no terminal, após aprovação de novas regras de cálculo pela agência reguladora. Hoje, a aérea tem 26 slots permanentes e 15 temporários, herdados da Avianca.

Apesar do otimismo, Rodgerson admite que a oferta de voos da Azul em rotas sem sobreposição com concorrentes demanda avaliação constante de fluxo. "Não temos intenção de sair das cidades onde estamos presentes, talvez precisemos mudar as frequências, mas isso é natural, não podemos ter voos que não cobrem custos."

Ano de eleições

Em ano de eleições, que acabam tornando o mercado ainda mais volátil, Rodgerson destaca que a companhia continuará investindo para se manter competitiva. "Não controlo o que acontece em Brasília. O que podemos controlar está dentro da empresa, investimos em novas tecnologias e renovação da frota, que será muito mais econômica. Temos que ser mais eficientes, todo mundo está focado nisso."

Rodgerson diz ainda que o custo do capital está mais caro para todo mundo. "Esta é a nova realidade do País. Temos que ser melhores do que os outros que estão na mesma corrida que nós e nos preparar para dias de sol e de chuva. Mas a demanda existe."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.