Charles Platiau/Reuters - 20/8/2020
Charles Platiau/Reuters - 20/8/2020

Vinícolas sofrem com clima atípico, e produção de vinho deve cair 30% na França

Chuvas mais intensas e calor acima do normal na Europa prejudicam as plantações na França e na Itália; produção anual francesa deve ser a menor desde 1970

Sammy Westfall, The Washington Post

12 de agosto de 2021 | 10h00

Uma confluência de problemas climáticos está prejudicando a colheita nas vinícolas da França. Primeiro, houve a geada severa na primavera, o que lançou as bases para a desgraça, prejudicando 30% da produção. Depois, chuvas de verão torrenciais atingiram o oeste da Europa em julho, inundando partes da Alemanha e da Bélgica e ocasionando ataques de fungos em uvas e folhas das vinhas francesas.

Tudo isso deixou a França diante de uma queda na produção vinícola de 24% a 30% este ano — o resultado mais baixo desde 1970, afirmou o Ministério da Agricultura do país, segundo informado pela agência Reuters.

Na produção de champanhe, o potencial de colheita foi cortado pela metade, alertaram alguns produtores.

Na Itália, temperaturas altas no sul anteciparam a colheita, enquanto pesadas chuvas no norte postergaram a colheita, de acordo com a associação de agricultores Coldiretti, a maior produtora de vinho do mundo. Estima-se que a produção cairá de 5% a 10%.

Citando aumento do nível dos mares italianos, infiltração de água salgada nas terras, incêndios em campos de cultivo e secas devastadoras, a Coldiretti declarou em um comunicado que está anunciando uma “situação de alarme”, com base no emblemático relatório publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), na segunda-feira. O documento declarou que não resta nenhuma dúvida à ciência de que a humanidade está alimentando as mudanças climáticas.

A agricultura, afirmou o comunicado da Coldiretti, é a atividade econômica que sofre mais intensamente as consequências das mudanças climáticas no cotidiano, mas é também o setor mais comprometido em combatê-las.

Produtores de vinho já haviam alertado para essa queda. Vinícolas tomaram medidas drásticas para proteger suas vinhas no início do ano: alugando helicópteros para empurrar ar quente para baixo ou acendendo velas nos vinhedos.

Mas os esforços não conseguiram evitar os efeitos dos padrões climáticos extremos, que pioram à medida que as mudanças climáticas avançam.

Essas dores de cabeça ocasionadas pela intempérie prejudicam ainda mais uma indústria que já luta contra os efeitos negativos da pandemia e as tarifas dos EUA.

Publicado na sexta-feira, o primeiro panorama nacional sobre a produção de vinho na França projetou que a produção de 2021 ficará entre 32,6 e 35,6 milhões de hectolitros. Uma queda de 24% a 30% em relação ao ano passado — com 1 hectolitro equivalente a cerca de 133 garrafas-padrão de vinho, de 750 ml.

“A previsão para a produção de vinho em 2021 é uma queda histórica, abaixo dos níveis de 1991 e 2017, quando os vinhedos também foram afetados por graves geadas na primavera”, declarou o Ministério de Agricultura da França no relatório citado pela Reuters.

Jerome Despey, vitivinicultor e diretor do comitê para vinho da agência agrícola FranceAgriMer, afirmou à Reuters que ainda há tempo para uma leve recuperação, já que as uvas estão atrasadas de 10 dias a duas semanas em relação ao ritmo de amadurecimento do ano passado.

Em relação aos preços, produtores de champanhe afirmam que ajustar a oferta com estoques de temporadas anteriores evitará uma alta, informou a Reuters. Normalmente, produtores de champanhe mantêm reservas de colheitas anteriores para usar em casos de queda na oferta ou aumento na demanda.

“Produtores de vinho enfrentam grandes dificuldades este ano”, afirmou Despey. “A produção perdida nunca será compensada pelos preços do mercado.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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