Vivendi chega ao Brasil após história de sucesso na Europa

Grupo fundado em 1853 se concentra em tecnologias da comunicação e distribuição pela internet

Andrei Netto, de O Estado de S. Paulo,

15 de novembro de 2009 | 17h45

Um gigante das telecomunicações e do entretenimento está desembarcando em terras brasileiras. Case de sucesso dentre as companhias que se dedicam às tecnologias da comunicação na França, a Vivendi, agora proprietária de 57,5% das ações da GVT, é uma holding com 153 anos de experiência empresarial, que sobreviveu à bancarrota nesta década e agora demonstra fôlego de jovem adulto. Uma prova de seu dinamismo: a SFR, maior bandeira do grupo na área das telecomunicações, multiplicou seu volume de negócios em 30 vezes em oito anos.

 

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Vivendi é hoje um dos símbolos da França que investe em novíssimas tecnologias - e se dá bem. A companhia ostenta marcas fortes em todos os segmentos em que atua. É número 1 em TV paga na França, com o Canal+, distribuidora e produtora de conteúdo para televisão e cinema com 10,6 milhões de clientes na Europa; é número 1 em música, com o selo Universal Music Group; é número 1 em games, por meio da Activision, agora reforçada pela aquisição do grupo Blizzard; e, para distribuir seu conteúdo, é proprietário de duas telecoms fortes na França e na África: a SFR, segundo maior operador celular e fixo do país, e Maroc Telecom, primeira em quatro mercados africanos, como o Marrocos.

 

Esse holding, ainda em formação em razão das múltiplas aquisições e vendas realizadas na última década, registrou € 25,3 bilhões em volume de negócios em 2008, e € 4,9 bilhões em resultado operacional nos 77 países em que atua. Em meio à turbulência financeira de 2009, seus resultados foram 55% inferiores nos nove primeiros meses do ano, mas grande parte devido à aquisição da Blizzard. Ainda assim, alguns dos mais importantes indicadores do grupo continuam no azul: aumento de 9,8% no volume de negócios - chegando a € 19,5 bilhões no período -, com resultado líquido 1,6% maior, ou € 2,1 bilhões. "O modelo da Vivendi, baseado nos planos de assinatura mensal, continua a demonstrar sua resistência no ambiente atual", afirmou ao Le Figaro, Philippe Capron, diretor financeiro do grupo.

 

Se a Universal, abalada como todo o setor fonográfico, é o peso morto do conglomerado, a ponto de fomentar rumores de venda à General Electric (GE), duas outras empresas do grupo, Canal+ e SFR, demonstram maior dinamismo frente à crise econômica. Das duas, Société Française du Radiotéléphone (SFR), criada em 1987, é que a servirá de exemplo à estratégia da companhia no Brasil. Detida pela Vivendi em 56% - os demais 44% pertencem à britânica Vodafone -, a empresa enfrenta concorrência voraz em Paris, tanto em telefonia celular, quanto em internet banda larga: Orange, marca do operador histórico France Telecom, Bouygues e Free. Em um cenário competitivo, em 20 anos a SFR deixou de ser filial de um grupo, o Cegetel, para adquiri-lo, e multiplicou seu volume de negócios por 30 em oito anos.

 

É essa companhia, a fusão da SFR com os grupos Neuf e Cegetel - especializados em fornecimento de conteúdo pela internet -, que chega ao Brasil. E, a partir da rede de fibra ótica da GVT, deve chegar também um coquetel que revolucionou as comunicações na Europa: o triple play. Diferente do modelo praticado no Brasil, o triple europeu traz internet de alta velocidade, telefone fixo por IP (Internet Protocol) e televisão HD (alta definição), também por internet.

 

Na França, o pacote se traduz por internet sem fio de até 20 mega de velocidade, ligações gratuitas para telefones fixos de 90 países, TV alta definição com 140 canais incluídos e com disco rígido - que permite a gravação de programas e interage com o computador -, além de vídeo sob encomenda com mais de 5 mil títulos. Resta saber se a companhia também planeja manter no Brasil o preço arrasador que pratica na Europa, assim como toda sua concorrência: € 29 por mês.

 

Emergentes são estratégia

 

Alain Argile, engenheiro de consultoria do banco Crédit Agricole, acredita que a aterrissagem no Brasil era uma oportunidade de expansão imperdível para o grupo. Para o engenheiro, um fator acentuou o apetite do grupo francês: a falta de outras opções tão atraentes como a GVT, uma empresa valorizada pelo crescimento anual de 31,1% de sua base de assinantes e de 40,2% da receita, considerada a melhor oportunidade em um país emergente cada vez mais cobiçado. "O Brasil é uma economia aberta, com uma cultura próxima dos grupos europeus. Isso torna o país mais atraente do que a China, a Rússia e a Índia", estimou Argile ao Estado.

 

No Brasil, banda larga, TV por internet, vídeos sob demanda e até a telefonia fixa ou são incipientes, ou têm mais espaço para crescimento, diz Argile. "Nos países desenvolvidos, o crescimento é fraco e todos se voltam para os emergentes", pondera. Além de tudo, a atração da Vivendi pela GVT pode ser apenas a ponta do iceberg. O país pode, em médio e longo prazos, tornar-se objeto de investimentos em telefonia celular, entende Argile. Enquanto o mercado do bloco, já saturado, registrou crescimento anual de 5,3% no segundo trimestre, no Brasil o segmento de celulares subiu 22,3%. A taxa de penetração - o número de chips de celular por habitante - no país, de 81%, também revela onde estão as oportunidades. Na Europa, a penetração alcança 128%.

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