Neco Varella/AE
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Vulcabrás agora aposta no retorno da Azaleia

Após fechar fábricas, cortar equipes e mesmo assim não voltar ao lucro, calçadista busca agora ampliar seu negócio de calçados femininos, que voltou a ter estrutura própria e trocou executivos; desafio é retomar a combalida relação com o varejo

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2015 | 22h54

O processo de recuperação da Vulcabrás, marcado pelo fechamento de mais de 20 fábricas e por dezenas de milhares de demissões, inclui agora uma nova estratégia: resgatar a marca Azaleia. A divisão feminina, que ficou durante anos em segundo plano em relação à linha de calçados esportivos Olympikus, voltou a ter estrutura própria no fim do ano passado, segundo Pedro Bartelle, presidente da Vulcabrás/Azaleia e filho do controlador Pedro Grendene. Por trás do investimento está a ambição de que a fatia da Azaleia no faturamento da companhia suba de 15% para 50% nos próximos anos.

A marca Azaleia, que já foi referência em calçados femininos no País nas décadas de 80 e 90, acabou ficando perdida dentro da companhia, que havia decidido investir em sua linha de calçados esportivos. Percebendo que outras empresas conseguiram se estabelecer justamente no nicho que a Azaleia deixou vago – sapatos de preço competitivo para mulheres – e que era difícil competir com os tênis de marcas estrangeiras, a Vulcabrás decidiu reverter a estratégia de unir suas áreas de desenvolvimento de produto.

“A Olympikus e a Azaleia não se completavam, se atrapalhavam”, admitiu Bartelle em entrevista ao Estado. Por isso, desde o fim de 2014, as estruturas ganharam administrações distintas: a marca esportiva é desenvolvida em Jundiaí (SP), enquanto os sapatos femininos são criados em Parobé (RS). 

Essa aposta renovada no mercado feminino é mais uma tentativa da Vulcabrás de superar suas dificuldades financeiras. A empresa vive uma forte crise há pelo menos cinco anos. Nem a passagem de Claudio Galeazzi, executivo especializado no resgate de empresas com problemas de gestão, que ajudou na reestruturação de negócios como Lojas Americanas e BRF (dona da Sadia e da Perdigão), foi suficiente para fazer a companhia voltar ao azul.

Embora os balanços recentes tenham mostrado alguma reação, a operação ainda segue no vermelho. O prejuízo caiu de R$ 126,7 milhões, em 2013, para R$ 72,8 milhões, em 2014. No primeiro semestre deste ano, a perda acumulada ficou em R$ 29 milhões.

Reestruturação. Nos últimos anos, segundo o consultor em calçados Luciano Pires Cerveira, a opção da Vulcabrás foi priorizar a Olympikus, pois o segmento esportivo tem margens maiores. O problema, no entanto, é que a marca precisa brigar de igual para igual com Nike e Adidas, entre outras, que têm poder muito maior para investir em marketing.

Já a disputa do sapato feminino popular se dá na quantidade. Mas isso não significa que o produto não precise ser bem pensado. Durante muito tempo, afirmou Cerveira, o lojista passou a ver o sapato da Azaleia como fora de moda. Além disso, a periodicidade da entrega nos pontos de venda deixava a desejar. 

Bartelle diz que a Vulcabrás está atacando os dois problemas. “Não digo que somos exatamente ‘fast-fashion’, mas agora temos seis coleções por ano”, afirma o executivo. 

Para corrigir o problema comercial, a Azaleia foi buscar na concorrência um executivo que trabalhou durante 20 anos na empresa considerada atualmente a principal referência em sapatos femininos mais baratos no País: a Calçados Beira Rio, dona de marcas como Moleca e Vizzano. Empresa de capital fechado e avessa a entrevistas, a Beira Rio faturou em 2014 quase R$ 1,5 bilhão. 

Com uma estratégia de baixo custo e preço competitivo, a Beira Rio vem crescendo acima de 10% ao ano mesmo em um mercado em retração. Alexandre Grendene, irmão de Pedro Grendene, é sócio minoritário da Beira Rio e atualmente trava uma briga na Justiça com o principal acionista da empresa (ler mais abaixo). Procurada pelo Estado, a Beira Rio não quis dar entrevista.

Atender bem o lojista é um preceito básico, para o consultor Luciano Cerveira. No entanto, ele afirma que há um outro fator fundamental para conquistar a preferência do varejo: o prazo de pagamento. Nesse quesito, o presidente da Vulcabrás/Azaleia admite que a empresa ainda tem dificuldade para competir. Apesar de todas as mudanças, a fábrica manteve o prazo de pagamento entre 90 e 120 dias. A Beira Rio, bem mais capitalizada, chega a esperar até seis meses pelo pagamento – o que, em tempos de crise, acaba sendo um importante fator de decisão.

No entanto, alguns resultados das mudanças na Azaleia já começaram a aparecer. Na semana passada, a empresa acertou um contrato para fornecer sapatos para a rede de moda Riachuelo, uma das maiores revendedores de calçados femininos do País e tradicional cliente da Beira Rio. Apesar de ter o que comemorar, fontes de mercado afirmam que ainda é muito cedo para dizer se a marca um dia conseguirá recuperar a relevância que teve 20 ou 30 anos atrás.

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