"Antes de mudar as empresas, líderes precisam mudar a si próprios", diz especialista

São Paulo (SP)--(DINO - 09 mar, 2017) - Acostumado há mais de 18 anos a apoiar empresas a transformarem seus sistemas de gestão, o consultor paulista Robson Gouveia diz ter aprendido uma lição importante: na maioria das vezes o que impede uma companhia de melhorar não são coisas como falta de recursos ou tecnologia. O que atrasa uma organização é a atitude ruim, o comportamento retrógrado dos líderes corporativos. "Antes de quererem transformar suas empresas, os líderes precisam transformar a si mesmos. Do contrário, nada muda, nada melhora", resumiu o consultor, que é especialista em liderança corporativa e gerente de Projetos do Lean Institute Brasil, entidade sem fins lucrativos de São Paulo que há mais de 18 anos dissemina pelas empresas o sistema lean, filosofia de gestão inspirada no modelo Toyota. Na entrevista a seguir, Robson explica quais os problemas dos "líderes tradicionais" que, para ele, estão por aí causando desastres cotidianos nas companhias.

Por DINO DIVULGADOR DE NOTÍCIAS

09 de março de 2017 | 17h10

Qual a principal atitude que um líder deve ter para melhorar uma empresa?

Na grande maioria das vezes, um líder empresarial antes de querer mudar sua companhia para melhor, ele precisa mudar a si mesmo para melhor. Se isso não ocorrer, se não houver uma profunda mudança pessoal no líder, dificilmente ele conseguirá mudar a organização.

Que tipo de mudança pessoal é essa?

O grande problema dos líderes são eles mesmos. Eles têm mentalidade de liderança calcada na gestão tradicional, historicamente desenvolvida pelo pensamento de Taylor, que no final do século 19 criou os princípios da administração científica. É uma liderança extremamente hierárquica, impositiva, que acredita que liderar é comandar, controlar, dar ordens, oferecer soluções prontas e cobrar execuções. Chamamos isso de liderança baseada no "comando e controle". Foi historicamente importante, mas também sempre foi um problema. E já não consegue resolver os desafios das organizações contemporâneas.

E como deve ser a atitude de um líder?

O primeiro passo é reconhecer que o problema começa com ele.

Precisa pensar que um líder é o que vai ao local onde ocorre a criação de valor na empresa e vê pessoalmente os problemas, juntamente com seus liderados. Dialoga com as pessoas que estão na linha de frente, seja na produção ou nos escritórios, questionando-as e estimulando-as para que, elas próprias, encontrem as causas raízes dos problemas e busquem as soluções.

Então, antes de mudar a gestão é preciso mudar as pessoas?

Esse ponto é fundamental. Há a necessidade de um tipo de líder que a maior parte das organizações não tem. O verdadeiro líder é aquele que investe seu tempo em discussões com seus subordinados, lá no local de produção, para fazê-los melhorar seus processos de trabalho.

A maior parte dos líderes não consegue fazer isso?

Não consegue. Eles lideram "à distância", dos escritórios ou das salas de reuniões, baseados em documentos escritos, como planilhas e apresentações. Raramente vão ao local onde ocorre a criação de valor, o trabalho real. E quando vão, fazem isso para encontrar culpados, colocar suas ideias de forma impositiva, com práticas e atitudes de desrespeito para com os colaboradores. Muitos dos problemas encontrados em uma minuciosa e correta observação no "gemba", palavra de origem japonesa que significa local onde as coisas acontecem numa empresa, jamais estariam contidos em relatórios ou nas exaustivas e pouco efetivas reuniões nas salas fechadas dos escritórios.

Você falou em "desrespeito". O que é liderar "com respeito"?

O desrespeito a que me refiro ocorre, na maioria das vezes, de forma inconsciente. Os líderes não percebem que quando atuam de forma impositiva, privando as pessoas de pensarem e de resolverem os problemas, isso é uma prática desrespeitosa. Liderar com respeito é um conjunto de práticas que visa estimular a iniciativa e a responsabilidade dos colaboradores para que resolvam seus problemas e proponham melhorias diariamente em seus ambientes de trabalho. O líder que acha que sabe tudo está perdendo espaço nas organizações.

Você é contra líderes que dão ordens ou determinam tarefas?

A questão não é essa. É que ao dar ordens ou determinar tarefas, os líderes estão geralmente fornecendo a "solução pronta" aos seus subordinados. Soluções essas que, na maioria das vezes, foram pensados longe dos problemas reais. E que, na verdade, não são soluções. Os líderes devem ir ao gemba e fazer perguntas em vez de se concentrarem em dar respostas. Precisam desafiar seus subordinados para que, eles próprios, busquem as respostas. Dar a resposta tira das pessoas a oportunidade de refletirem sobre a questão.

Que outras atitudes um líder deve ter?

Devem mais ouvir do que falar. Isso significa escutar, de verdade, o que o colaborador tem a dizer sobre os obstáculos que enfrenta no trabalho. Se não forem devidamente escutados, forem interrompidos ou sentirem desinteresse por parte da liderança, as pessoas não se encorajarão em dizer o que as impede de ter sucesso. Escutar, sensibilizar-se e entender o que estão falando não significa concordar, mas reconhecer o obstáculo, o ponto de vista de quem executa o trabalho. Isso é bem diferente de ir direto às conclusões. É pedir às pessoas que reflitam mais profundamente sobre os problemas e pensem em formas de ultrapassá-los.

Por que os líderes têm dificuldade em fazer isso?

Porque na gestão tradicional sobrepõe-se a ideia de que os líderes são os únicos responsáveis em resolver problemas e ter todas as respostas. Aí está o porquê de tantos líderes que conheço ficarem mais de 12 horas diárias "apagando incêndios", que sempre acabam voltando. Não se dedicam nada ou quase nada para fazer o mais importante: desenvolver as pessoas. Se você gasta o seu tempo ensinado às pessoas a como resolverem os seus próprios problemas, você estará, invariavelmente, desenvolvendo novos líderes, que farão o mesmo com outros, criando um efeito transformador na empresa. Pelo contrário, se você passar seu dia apenas dando ordens, determinando tarefas, analisando relatórios frios e distante da realidade e não ensinar aos outros sobre como resolver seus próprios problemas, eles, os problemas, vão se acumular. E se voltarão contra você.

Website: http://www.lean.org.br/workshop/85/lideranca-lean-para-supervisores.aspx

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