Infográfico/Estadão
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Alta dos juros rege investimentos em 2015

Aplicações atreladas às variações da taxa Selic e dos índices de inflação tendem a trazer segurança em ano de ajuste fiscal e ameaças externas

GUSTAVO SANTOS FERREIRA, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2015 | 02h02

Em 2015, os juros vão reger os investimentos no Brasil com ainda mais protagonismo do que o usual. O movimento de alta da taxa Selic, iniciado em abril de 2013, deve seguir o seu curso, aumentando a atratividade da renda fixa. Enquanto isso, a piora macroeconômica acerta em cheio a renda variável e afasta investidores. Nessas condições, destacam analistas, aplicar em produtos atrelados à Selic tende a ser o modo mais indicado para assegurar ganhos no curto prazo.

Esse cenário, na prática, sugere poucas surpresas para o mercado. "O ano de 2015 deve repetir 2014, assim como 2014 já repetiu 2013", avalia Karina Sanches, analista da Concórdia. A diferença está na rigidez das medidas monetárias, devido à deterioração da economia brasileira, e na complexidade do cenário externo.

Desde o ciclo de alta dos juros, iniciado há quase dois anos, o principal objetivo do aperto monetário do Banco Central não foi conquistado: a inflação continua a incomodar, beirando o teto da meta perseguida pelo governo, de 6,5%. No período, a Selic saltou de 7,25% para 11,75% ao ano.

A nova equipe econômica, liderada na Fazenda pelo economista Joaquim Levy, tomou posse com a promessa de fazer o ajuste fiscal necessário para colocar a casa em ordem. De acordo com Roberto Kropp, diretor da Daycoval Asset Management, compromissos como a redução de gastos públicos, por si só, já recuperaram parte da confiança perdida pela economia brasileira. Mas ele pondera: promessas não bastam. A credibilidade só virá, de fato, após mudanças de rumo concretas.

Reajustar preços represados há tempos está nos planos. Combustíveis e tarifas de energia e transporte ficarão mais caros. Essa perspectiva, dada a ortodoxia esperada da nova equipe, indica mais pauladas nos juros para tentar conter o acesso ao consumo via crédito e, consequentemente, o ritmo médio de elevação dos preços. A estimativa da pesquisa Focus do dia 26 de dezembro, que leva em conta todas essas condições, indica juros de 12,25% ao ano até o final de dezembro.

E se os juros tendem a subir por causa da inflação, outra opção atraente para 2015 está justamente nos papéis atrelados aos índices medidores da variação dos preços, como IPCA e IGP-M. "Isso, no entanto, somente é indicado para quem procura preservar a sua renda no longo prazo", entende o analista de investimentos da corretora Concórdia, Mauro Mattes.

Câmbio. Embora o governo federal não admita claramente que a elevação dos juros esteja ligada também às tentativas de conter a alta do dólar comercial, causada pela fuga de capitais do Brasil, há relações nítidas entre a disparada da Selic e as pressões da cotação da divisa americana nos últimos meses.

No governo Lula, um dos motivos para a enxurrada de dólares na economia do Brasil - e da consequente valorização do real - foi a prosperidade da economia nacional e o fato de os juros internos estarem nas alturas. Os títulos brasileiros tiveram o risco de crédito (calote) diminuídos e pagavam aos investidores estrangeiros rendimentos bem superiores aos de seus países de origem, de juros rastejantes ou negativos.

No governo Dilma, esse jogo começou a mudar com o desmantelamento da estrutura econômica. E, em 2014, acabou de vez. Depois de despejar trilhões de dólares no mundo, desde 2008, para incentivar a sua atividade econômica, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) fechou a torneira. Por enquanto, os juros americanos continuam baixíssimos, girando em torno de 0,25% ao ano. Mas a recuperação do país e a elevação dos juros por lá, dada como certa pelos analistas em 2015, forçam o retorno de parte dos dólares que aqui aportaram nos últimos anos.

O tamanho da alta dos juros no Brasil neste ano, portanto, depende da necessidade de segurar a debandada do dólar e, por reflexo, a cotação interna da moeda americana. Em 2014, ficou 13% mais caro comprar dólares com reais. E não apenas assegurar investimentos no Brasil, mas, caso tenha poder de barrar o avanço do dólar, o BC impede desse modo o encarecimento dos produtos importados e o impacto inflacionário desse processo.

Para quem pretende diversificar seus investimentos, além de papéis atrelados aos juros e à inflação, existe, por fim, uma terceira alternativa: remunerações atreladas ao câmbio, como a de fundos cambiais oferecidos por bancos e corretoras, lembra Clemens Nunes, professor da Finanças da Fundação Getúlio Vargas.

Renda variável. A regra clássica sugere: é nos momentos de baixa que se entra na Bolsa. Mas dificilmente algum consultor daria esse conselho hoje para um investidor iniciante.

Aos conservadores e para quem busca retorno de curto e médio prazos, investimentos em renda fixa são, de longe, os mais indicados. Se 2013 foi um ano ruim para a Bolsa, quando o Ibovespa caiu 15%, 2014 amargou mais perdas, embora menores, de 3%. Em 2015, a instabilidade interna e fora do Brasil, deve ser refletida nos pregões, alerta Nunes.

O futuro da Petrobrás, um dos papéis mais líquidos do índice, é incerto. A estatal está no centro de escândalos de corrupção e ainda não divulgou o balanço do 3.º trimestre por esse motivo. Já as empresas brasileiras dependentes da China, como a Vale, tendem a passar por uma fase de estremecimento, devido à diminuição do crescimento de Pequim e da queda no preço das commodities.

Para analistas, no entanto, alguns setores estão mais blindados. Entre eles estão as empresas exportadoras, por lucrarem em dólares, e o segmento financeiro, com destaque para os bancos.

Crise na Rússia. A turbulência russa nos últimos dias do ano é mais um ingrediente preocupante para 2015. O ataque especulativo ao rublo, a moeda local, fez com que as divisas dos países emergentes - incluindo o real - se desvalorizassem. No dia de maior queda da cotação do rublo - cujo pico foi de 30% durante as negociações -, o dólar bateu em R$ 2,75 no Brasil, em alta de cerca de 2%. 

O medo a assolar o mercado é de que se repita o efeito contágio de 1998. Naquele ano, o rublo sofreu um colapso em questão de dias e forçou a Rússia a declarar o calote de sua dívida. Todos os países foram afetados de alguma forma na ocasião.

Se a crise piorar e os russos lançarem mão de medidas extremas, o pânico pode ser generalizado. Nessa hipótese, investidores podem correr para o refúgio do dólar, abandonando outras moedas, incluindo o real. Esse movimento faria com que as cotações internas decolassem. Caso seja assim, aumentam as pressões inflacionárias e de aumento dos juros básicos aqui no Brasil.

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