Cadastro Positivo quadruplica em dois anos, mas ainda enfrenta dificuldades

Apesar do aumento de participantes, conhecimento é barreira para o cadastro; usuários ainda não colhem benefícios, dizem especialistas

Yolanda Fordelone, O Estado de S. Paulo

20 de julho de 2015 | 07h41

Às vésperas de completar dois anos do ingresso das instituições financeiras no Cadastro Positivo, o banco de dados que reúne informações de crédito dos consumidores atrai interessados, mas ainda não dá retorno expressivo em termos de diminuição do juro e de melhora nas condições de financiamento. O número de cadastrados, que em 2013 era de 500 mil, hoje está em 2 milhões, segundo a Serasa Experian. Os benefícios só virão com mais participantes, dizem especialistas.

“A captação de cadastros está evoluindo, mas com certeza está abaixo do que se previa inicialmente. É preciso uma base maior de usuários para que se torne algo substancial”, diz o superintendente do SPC Brasil, Nival Martins. Em 1º de agosto de 2013, as instituições financeiras passaram a ser obrigadas a enviar aos bancos de dados do Cadastro Positivo o histórico de crédito de clientes que autorizaram a operação. Na época, o SPC Brasil, um dos players deste mercado, estimava que o número chegaria a 40 milhões no fim de 2014, o que não se concretizou. 

A empresa não divulga o número de participantes, mas Martins afirma que o resultado ficou muito abaixo da projeção inicial. “Estamos revendo as estimativas, mas pode-se dizer que o Cadastro Positivo hoje ainda não é uma realidade do mercado de crédito”, avalia.

Uma das barreiras é o desconhecimento de grande parte dos brasileiros. No Brasil, o ingresso no Cadastro Positivo não é automático. Muitos não sabem que é preciso dar uma autorização de divulgação de suas informações para um dos administradores dos bancos de dados, como Serasa Experian, SPC Brasil e Boa Vista. 

A maioria dos participantes fica sabendo do sistema e se cadastra nos postos destes administradores. Apesar dos benefícios que o Cadastro Positivo pode trazer ao usuário e ao mercado de crédito, para parte dos especialistas ainda não são todos os bancos que fazem uma ampla divulgação do sistema.

Além disso, por funcionar de forma diferente de outros países, o Cadastro Positivo nasceu com uma base de usuários menor. Em países como EUA, o cadastro é feito pelo modelo “opt-out” - todos os consumidores que possuem crédito são automaticamente cadastrados e quem não quiser participar pode solicitar a exclusão. No Brasil, vale a forma “opt-in”: os consumidores precisam autorizar a utilização dos dados, o que exige esforço dos agentes para divulgar o sistema e os benefícios. 

Vantagens. Entre os benefícios, os especialistas citam o maior poder de barganha que o consumidor ganha na hora de negociar o crédito, conseguindo assim um juro menor, prazos mais adequados ou mais recursos, vantagens interessantes em época de taxa de juro alta e crédito restrito. Para a gerente de Cadastro Positivo da Serasa Experian, Fernanda Monnerat, os dados vão funcionar para melhorar as ferramentas de análise de crédito existentes, inclusive para quem atualmente está com o nome negativado. 

“Às vezes a pessoa possui diversos créditos que honra em dia, mas tem um problema específico em um deles. Pelo modelo atual, só vemos o que ela deixou de pagar e não a situação financeira como um todo”, diz Fernanda. “Não é que um dado positivo anula o ‘nome sujo’, mas a informação negativa passa a ter menos peso. A avaliação do risco é diferente”, compara. 

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O Cadastro Positivo pode ser a ferramenta para conseguirmos combater o superendividamento. Só assim, é possível ver se o consumidor já possui muito crédito na praça. O cadastro traz luz a esta situação - Fernanda Monnerat, gerente de Cadastro Positivo da Serasa Experian
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Para o mercado, o benefício seria o desenvolvimento do crédito. Segundo dados do Banco Mundial, divulgados pela Serasa na época do começo do Cadastro Positivo, países que já adotaram o modelo no passado tiveram redução dos índices de inadimplência em até 43% e aumento da concessão de crédito em cerca de 90%. 

A questão da privacidade dos dados é tema principal do embate entre defensores e críticos. A Proteste diz que o cadastro ainda não atingiu objetivo de reduzir os juros. “Tem também o problema da privacidade. Temos queixas de pessoas cadastradas que passaram a receber inúmeras ofertas de financeiras e bancos”, diz a coordenadora institucional da Proteste, Maria Inês Dolci.

Para os estudos internacionais que mostram os benefícios do cadastro se concretizarem no Brasil é preciso tempo e mais usuários, dizem os defensores. Alguns falam em cinco anos de histórico de crédito. Martins, do SPC Brasil, é mais otimista e acredita que a partir de 2016 já será possível colher os frutos da divulgação dos dados.

Entenda o Cadastro Positivo. Criado em 2013, o Cadastro Positivo é um banco de dados com informações dos consumidores sobre todo o crédito que ele possui. É um histórico onde constam dados como o tipo de dívida, se ela foi paga em dia e se há atrasos. Em teoria, ajuda as instituições a identificar os bons pagadores e, assim, fornecer crédito mais barato. Para se cadastrar é preciso preencher uma ficha em bancos e financeiras ou nos postos dos administradores dos cadastros. A pessoa deve escolher qual empresa de banco de dados - como Serasa, Boa Vista e SPC Brasil - terá as informações. A qualquer momento o consumidor pode consultar as informações, corrigi-las ou, se voltar atrás, sair do cadastro. Em até sete dias, a empresa deve fazer a mudança ou excluí-lo do cadastro.

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