Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

‘Ciclo econômico afeta a Bolsa bem mais que a política’

Com alto desempenho no ano, gestor opta por análise fundamentalista e vê cenário positivo para a Bolsa em 2019

Entrevista com

Henrique Bredda, sócio da gestora Alaska

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2018 | 05h00

Em um ano de muita volatilidade, no qual os fundos de ações abertos ao varejo tiveram desempenho médio não muito acima do CDI, os fundos da Alaska Asset Management se destacaram no mercado. O Alaska Black, carro-chefe da gestora, teve alta de quase 27% no ano, 12 pontos porcentuais acima do Ibovespa. “Nossa estratégia é a mesma desde o fim de 2015 – é até um pouco sem graça”, brinca o gestor e sócio Henrique Bredda.

Entusiasta da análise fundamentalista, que preza pelas informações da empresa e foca no longo prazo, ele afirma que mais vale identificar as fases do ciclo econômico do que se pautar por eventos pontuais, como as eleições. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a receita para o bom desempenho num ano tão difícil?

A estratégia tem sido a mesma desde o fim de 2015 – é até um pouco sem graça (risos). A gente tenta olhar o mercado de forma geral e identificar em que ponto do ciclo a Bolsa está. Além da volatilidade diária dependendo das notícias, como uma pesquisa eleitoral ou um tuíte do presidente americano, Donald Trump, há um pano de fundo mais forte, que são os ciclos de alta e de baixa. Da crise de 2008 até o fim de 2015, a Bolsa teve queda de 80% em dólar – o que marcou, para nós, o último ciclo de baixa. Portanto, do fim de 2015 até não sabemos quando – normalmente, dura uns sete, oito anos –, estamos num ciclo de alta. É claro que no meio do caminho vamos ter meses negativos, anos difíceis. Porém, os fundos da Alaska estão com a mesma estrutura: os nomes mudam, mas estamos 100% comprados em ações no Brasil. Poderíamos ter ações americanas, mas a gente entende que a tendência é de um momento muito bom para as empresas brasileiras. E aí, dentro dessa piscina de ações, tentamos escolher as que têm o melhor risco retorno.

Como a escolha das empresas mudou de 2015 para cá?

O que há de comum nos ativos que temos na carteira agora são empresas muito grandes, muito líquidas e nas quais a geração de caixa é muito visível, o que é bem diferente do cenário em 2015, quando tivemos de apostar em empresas que estavam baratas, mas não tinham lucro. Uma escolha foi o Magazine Luiza, que na época era visto como quebrado (a ação chegou a custar R$ 0,97 em 2015 e hoje está em R$ 181). Agora está mais fácil, porque você não precisa ter a coragem de investir em empresas sem geração de caixa. Para 2019, estamos de olho em empresas ligadas ao mercado doméstico.

Quais as principais posições da carteira no momento?

Magazine Luiza, Suzano, Petrobrás, Ambev, Braskem, Vale, Rumo – só aí já tem quase 70% do fundo. As duas recentes em que investimos, depois da derrocada dos preços, foram Kroton e Ambev. Sempre gostamos delas, mas achávamos caras. Este ano houve a oportunidade.

Vocês fizeram algum movimento mais focado no curto prazo por conta das eleições?

Seguimos na nossa análise mais fundamentalista. O que importa é quanto a empresa vale versus quanto ela custa. Olhamos para o que está acontecendo no campo político para tentar ver impactos pontuais numa empresa ou outra. Mas, de longe, muito mais importante que a política é o ciclo econômico do País e o impacto nas empresas.

Quais as perspectivas para a Bolsa em 2019?

Um cenário base é um governo que vai endereçar algumas reformas, mas não vai emplacar tudo. É possível que venha uma reforma da Previdência um pouco “aguada” e alguma coisinha tributária. Mas, com isso, já deve ocorrer uma migração natural para o mercado acionário, tanto de investidor de fora como o local, que está frustrado com a renda fixa.

Qual a fatia dos investidores de varejo na gestora?

Cerca de 18% dos R$ 8 bilhões sob gestão, umas 70 mil pessoas. Acreditamos que, aos poucos, esse número vai aumentar pois a Selic não vai voltar para dois dígitos tão cedo. Por isso, nossos fundos têm investimento inicial baixo: de R$ 1 mil a R$ 5 mil para estimular pessoas físicas com poucos recursos a entrar em fundos.

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