Fabio Motta/Estadão
13,2 milhões de brasileiros têm investimentos em previdência privada, segundo a FenaPrevi. Fabio Motta/Estadão

Com crise econômica, previdência privada vive momento de estagnação

Discussões sobre regras mais duras para se aposentar pelo INSS não foram suficientes para mercado crescer

Renato Jakitas e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 04h00
Atualizado 22 de julho de 2019 | 15h43

Após uma longa tramitação e muito debate, a reforma da Previdência foi aprovada, em primeiro turno, na Câmara dos Deputados. Toda a discussão suscitada pela proposta, porém, não foi suficiente para mudar o cenário dos planos de previdência privada, cujos números estão praticamente estagnados há quatro anos.

Hoje, os planos privados congregam 6% dos brasileiros, ou 13,2 milhões de pessoas, segundo dados de maio, o último disponível na Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi), entidade que representa 67 seguradoras e entidades abertas de previdência complementar no País. O número é um pouco menor que os 13,5 milhões de pessoas do mesmo período do ano passado, exatamente o mesmo contingente de maio de 2017 e ligeiramente superior aos 12,5 milhões de igual mês de 2016.

Na opinião dos operadores do setor, o setor ainda enfrenta resistências entre os investidores. Henrique Diniz, superintendente de previdência da Icatu, diz, no entanto, que isso é natural. O principal motivo, afirma, é ainda reflexo da recessão que o País atravessou, com a diminuição da capacidade de poupança das pessoas.

Marcelo Wagner, diretor financeiro da Brasilprev, concorda. Para ele, o setor enfrentou um forte crescimento no início dos anos 2000 e, de lá para cá, a tendência é de avanço moderado. Mesmo assim, muito dependente do cenário macroeconômico. “A previdência privada tem três capítulos no País. O primeiro, nos anos 2000, quando investidores com riquezas previdenciárias migraram para o sistema, o que gerou um grande crescimento. Esse movimento mudou desde 2015 pelos efeitos da crise, quando ficamos sem excedente de poupança. Após a melhora, no terceiro movimento, o crescimento marginal deve continuar. Não esperamos mais crescimento de 20% ou 30%”, diz.

Dados do Banco Central apontam que, nos primeiros seis meses de 2019, a caderneta de poupança, principal veículo de investimento entre os brasileiros, registrou captação positiva apenas em março e junho. No mês passado, o saldo entre saques e depósitos ficou positivo em R$ 2,77 bilhões.

Complexidade

Além do pouco dinheiro, há também a percepção entre especialistas de que os fundos privados de previdência têm regras complexas. A principal queixa é com relação aos dois regimes tributários – o PGBL, que cobra imposto de renda sobre os depósitos anuais, e o VGBL, que só cobra sobre os rendimentos no saque. “O produto é pouco interessante. As pessoas não entendem as diferenças entre os dois regimes tributários e acabam comprando sem saber se estão fazendo o melhor para eles”, diz o professor Valdir Domeneghetti, coordenador de cursos da Faculdade Fipecafi.

Para o professor de finanças da FGV e colunista do Estado Fabio Gallo, a previdência ainda é um produto caro para o padrão brasileiro de investimento. “A taxa de administração é alta. Já caiu muito, mas tem gente cobrando 4%. Além disso, tem taxa de entrada, taxa de saída e até taxa de carregamento. Esses custos e práticas tendem a cair em desuso, mas ainda existem”, diz. “A previdência é muito fácil de comprar, mas para ser bem adequada a cada investidor em particular, ele tem de ser bem adaptado, e não se vê no mercado as pessoas preparadas para essa venda do produto”, afirma.

Modernização

Para o presidente da FenaPrevi, Jorge Nasser, os fundos e gestores estão já há algum tempo trabalhando para baratear e modernizar os produtos do ramo. Segundo ele, as taxas cobradas pelos fundos já não são mais diferentes das cobradas por fundos de investimentos tradicionais. “Hoje, existem taxas de 1,5%, a mesma da média de um fundo de multimercado. Mas essa discussão não deve ser a central. Um fundo com boa gestão compensa a cobrança da taxa com a lucratividade registrada”, destaca Nasser, que também diz ser cada vez mais difícil encontrar produto com taxa de carregamento e cobrança para entrada e saída. “Isso está mudando. Os fundos estão mais acessíveis”, diz.

Nasser também destaca que os analistas apostaram de forma errada na popularização dos fundos de previdência a partir dos debates sobre a reforma da Previdência. “A gente espera uma resposta dos investidores um pouco mais para a frente, com as definições das regras e a clareza do benefício no sistema público no bolso das pessoas. E, mesmo assim, não esperamos uma corrida pela previdência privada. Será muito mais uma caminhada”, diz.

Em valor de captação, os planos de previdência privada aberta fecharam o mês de maio com R$ 873,1 bilhões em reservas, volume 11% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. De janeiro a maio, as contribuições somaram R$ 45,7 bilhões, resultado 3,7% superior aos cinco primeiros meses de 2018, quando totalizaram R$ 44,0 bilhões. A captação líquida seguiu com saldo positivo de R$ 15,5 bilhões.

Entenda o plano

O que é. A previdência privada é um plano de aposentadoria independente do INSS. É oferecido por bancos e corretoras.

PGBL. Existem dois tipos de plano. O Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) é recomendado a trabalhadores de alta renda, que fazem a declaração completa de IR. Ele possibilita desconto de até 12% na renda bruta anual tributável para quem faz a declaração completa do IR e tem tributação sobre o valor total. Pode ser vantajoso para quem ultrapassa o limite do desconto padrão do IR.

VGBL. Outro é o Vida Gerador de Benefício Livre, este tem tributação apenas sobre os rendimentos e não sobre o valor total. É indicado para quem faz a declaração simples do Imposto de Renda e não permite abater do Imposto os investimentos feitos.

 

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Com opção de aporte menor, seguradoras buscam clientes

Planos de previdência têm contribuição mínima a partir de R$ 50; ideia é que investidor aumente aportes no futuro

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 04h00
Atualizado 22 de julho de 2019 | 13h47

Enquanto o mercado de previdência privada demonstra estagnação em número de contribuintes e os montantes acumulados nos fundos já não crescem como no passado, seguradoras apostam em novos produtos para conquistar clientes. A estratégia agora está em aportes mensais menores e opções de fundos que tomam maior risco para o investimento, tanto em renda fixa quanto variável.

A busca por investidores com aporte menor foi o que motivou a Brasilprev, empresa do Banco do Brasil líder do mercado de previdência complementar, a lançar em setembro o Brasil Prev Fácil, no qual é possível investir mensalmente R$ 100 – aporte que até era possível antes, mas que agora tem taxas reduzidas e condições simplificadas. Já foram fechados 175 mil novos planos nessa modalidade para 160 mil novos clientes.

“Os planos de previdência, em geral, são difíceis de entender. O investidor tem de fazer escolhas entre tipos diferentes de tributação, se converterá em renda ou não, se deve tomar mais ou menos risco, são muitas variáveis. Os clientes pensam em investir para aposentadoria, mas a complexidade do assunto dificulta. Vimos que essa opção simplificada atraiu mais pessoas”, explica Marcelo Wagner, diretor financeiro da Brasilprev.

Nesse produto, o cliente é direcionado para um plano VGBL, no qual a tributação é aplicada sobre o ganho de capital, e que é indicado para quem faz a declaração simplificada do Imposto de Renda.

“É muito difícil alguém se arrepender da opção VGBL. Para contratar um PGBL (opção indicada para quem faz declaração completa do IR e que possibilita desconto na tributação), a pessoa tem de estar mais convicta. O VGBL possibilita também que, no caso de resgate do dinheiro, a carga tributária não seja tão alta”, explica Wagner. O investimento do plano é em um fundo de renda fixa que pode adquirir títulos mais longos do Tesouro, além de opções pós-fixadas.

Na mesma linha, a Bradesco Seguros lançou em março um plano com aporte mínimo mensal de R$ 50, que também investe em renda fixa.

Para Joelson Sampaio, coordenador do curso de Economia da Fundação Getulio Vargas em São Paulo (EESP/FGV), dos investimentos de longo prazo, a previdência privada ainda é a mais simples para o investidor iniciante se educar para poupar. Ele acredita que a queda de popularidade do investimento tem mais a ver com a crise financeira do País, que reduziu a capacidade de poupança, do que especificamente com a qualidade dos produtos.

Risco

Por outro lado, focadas em maior rentabilidade, algumas seguradoras têm apostado em fundos para clientes que tomam mais risco, em virtude da tendência global de juros mais baixos. “Temos visto um interesse crescente em fundos multimercados e maior apetite por risco. Por isso, temos orçado produtos mais agressivos”, diz Cal Constantino, gestor de fundos de previdência da Santander Asset Management.

Em dezembro, a seguradora do Santander lançou um produto de renda fixa com gestão ativa, no qual a carteira pode ser turbinada com mais risco, de acordo com o momento do mercado. “Vivemos um período de otimismo, com inflação controlada, tendência de corte de juros e avanço das reformas. Por isso, trabalhamos com risco mais elevado e rendimento de 135% do CDI”, explica Constantino.

A Caixa Seguros lançou no fim do ano a opção de previdência com fundos multimercado de estratégia livre para grandes investidores. Uma carteira que permite alocações em título públicos e privados, moedas estrangeiras e renda variável. A estratégia está em aproveitar o longo prazo para que os ganhos superem as perdas que produtos mais arriscados podem trazer.

Diversificação

A Icatu, que, diz ter aumentado em 132% suas captações líquidas de janeiro a maio em relação ao mesmo período de 2018, aposta na democratização dos planos de previdência e na educação financeira para a melhor compreensão de risco e renda variável. “Os planos deveriam se adequar a todos os tipos de renda e perfis de investidores. Temos a possibilidade de aportes mensais de R$ 100 há dois ou três anos”, afirma Henrique Diniz, superintendente de Previdência da Icatu. Joelson Sampaio, da FGV, acredita que o avanço da reforma da Previdência deve aumentar a busca por esse investimento. “Ligou a luz amarela de que temos de nos preocupar com isso.”

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