Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Com eleição, ações podem reservar armadilhas para o pequeno investidor

Apesar de Bolsa estar em alta este ano, há risco embutido na indefinição da corrida presidencial

Jéssica Alves, O Estado de S.Paulo

26 Março 2018 | 05h00

A sete meses das eleições, o espectro político permanece indefinido para a disputa da Presidência da República. Diante da incerteza, as casas de investimentos começam a preparar seus clientes para um momento que pode ser de sobe e desce nos preços das aplicações. Com os juros mais baixos da história e a Bolsa em alta, o cenário, dizem, pode representar uma armadilha para o investidor.

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Para quem quer emoção e pretende aproveitar a trajetória ascendente da Bolsa – o Ibovespa, índice com as ações mais negociadas da B3, tem alta acumulada de 32,14% em 12 meses –, especialistas afirmam que empresas mais sensíveis à escolha do novo presidente, como estatais, podem ser boas para quem quer especular. 

Já quem não busca emoção, mas não quer ficar de fora do rali do mercado, ações pouco expostas ao governo e mais ao cenário externo prometem menos sustos.

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Dentro da Bolsa, o analista de investimentos da Modalmais Leandro Martins, recomenda ao investidor de pequeno porte optar por empresas que não sejam tão afetadas por decisões políticas ou possíveis canetadas do novo governo, como são as companhias estatais, de capital misto e os bancos. 

Na opinião de Martins, o investidor iniciante deve observar os papéis classificados pelo mercado como “defensivos”. São exemplos empresas em setores de bebidas e de mineração. Esse tipo de ação, segundo o analista, sofre menos impacto da conjuntura política.

Por outro lado, quem tem mais apetite ao risco, pode optar por ações mais expostas, como, por exemplo, as ações de empresas estatais. Para o especialista, o futuro dessas empresas depende diretamente da nova gestão. Ele explica que esses papéis tendem a reagir de imediato para cima ou para baixo conforme o noticiário das eleições avança.

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As ações ligadas ao consumo, como as varejistas, também podem ser boas opções, na opinião do professor de finanças da Fecap Joelson Sampaio. Isso porque a retomada econômica e a melhora nos índices de desemprego favorecem o setor. 

Mas, expectativas à parte, Sampaio indica algumas medidas de proteção para o investidor dentro da renda variável. Uma dica é estipular limites de perda e diversificação de papéis, ou seja, não colocar todas as fichas em uma única ação ou em um único setor.

Volatilidade. A diversificação, uma receita antiga e quase unânime para a composição de um bom portfólio de aplicações, faz-se ainda mais necessária em anos de incertezas. A tensão nos mercados é marca registrada dos anos eleitorais. Só que, diferentemente dos eventos anteriores, em 2018, os investidores estão no escuro quanto aos nomes dos presidenciáveis. “Quem for investir estará comprando um tíquete da montanha-russa, não de um carrossel”, diz Arnaldo Curvello, diretor da Ativa Investimentos.

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Na eleição passada, por exemplo, já estava definido no início de 2014 que a disputa se daria entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). No mercado, toda vez que a petista crescia nas intenções de voto, a Bolsa caía. Bastou a eleita colocar a faixa que o mau humor se espalhou e pôs o índice em queda.

Em 2010, quando Dilma Rousseff foi eleita pela primeira vez, o mercado não chegou a ver a decisão como uma surpresa. Mesmo assim, enquanto o jogo político se desdobrava, a curva da Bolsa se mostrou mais nervosa do que em 2009 e 2011 (ver gráfico). Outra prova da influência da política na Bolsa foi a volatilidade que o mercado financeiro viveu em 2002, ano em que Lula foi eleito presidente pela primeira vez. 

Em alta. No ano passado, a Bolsa também passou por alguns soluços. Entre os fatores de nervosismo figuraram a delação premiada assinada pelos donos da JBS – que incluiu a gravação de uma conversa entre Joesley Batista e o presidente Michel Temer, divulgada em maio. 

Apesar de momentos de instabilidade, o Ibovespa caminhou para máximas históricas. Especialistas acreditam que o índice Ibovespa ainda tem potencial de até dobrar os atuais 85 mil pontos. Se depender apenas de fatores de mercado, a visão de Marcio Appel, fundador da Adam Capital, é de que o valor justo para o índice seja de 160,6 mil pontos. 

O executivo, que é atualmente o maior gestor independente de fundos multimercado no Brasil, tem uma visão otimista para o mercado. Ele diz não acreditar na eleição de um candidato mais radical neste ano, o que favoreceria a estabilidade do mercado. Mas isso, admite, é apenas um palpite.

Rentabilidade maior exigirá apetite a risco

Diante da menor taxa de juros Selic da história, 6,5% ao ano, com espaço para ceder ainda mais, segundo sinalização do Banco Central (BC), o investidor mais conservador vai precisar se acostumar com uma pitada de risco em sua carteira.

A Selic no patamar atual faz com que o retorno real dos investimentos, quando descontados da inflação e Imposto de Renda (IR), possa ficar abaixo de 1% ao ano. Como comparação, a caderneta de poupança, que não paga IR, tem hoje retorno de 1,5% ao ano, já descontada a inflação prevista para o período.

Arnaldo Curvello, diretor da Ativa, aconselha os mais conservadores a buscar rentabilidade maior em ativos expostos a outros riscos, como investimentos em outros países ou produtos com mais risco de crédito. Como medida de proteção, o investidor pode optar pelos produtos garantidos pelo Fundo Garantidos de Crédito (FGC).

Opções. As recomendações dele para este perfil são debêntures, fundos com estratégias em crédito privado ou ativos ligados ao risco imobiliário, como fundos e letras de crédito imobiliário (LCI), e Letra de Crédito Agrícola (LCA). A grande vantagem desses últimos é a isenção de Imposto de Renda.

 

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