Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Com volatilidade, Tesouro Direto suspende negociação de títulos públicos

Turbulência nos mercados derrubou o preço e elevou a rentabilidade dos papeis, levando à interrupção temporária das negociações; entenda por que os preços dos títulos flutuam

Jéssica Alves e Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 12h13

O estresse do mercado não afeta só o dólar e Bolsa, mas também as taxas dos títulos públicos. O Tesouro Direto, programa do governo federal de compra e venda de títulos, foi suspenso na manhã desta sexta-feira. De acordo com o comunicado, a suspensão, iniciada às 9h50, deve ir até as 15h30 e ocorre devido à volatilidade nas taxas de juros públicos. Incialmente, a negociação ficaria suspensa até as 12h. 

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A suspensão das operações do Tesouro Direto, de venda de títulos pela internet, visa garantir transações a taxas justas e alinhadas às praticadas no mercado secundário. De acordo com o Tesouro, o atraso na abertura das negociações protege o investidor da volatilidade.

O Tesouro informa que as taxas dos títulos oferecidos no Tesouro Direto são normalmente atualizadas três vezes ao dia, quando não há volatilidade do mercado. Essa frequência de atualização é suficiente para permitir o funcionamento estável do programa a preços condizentes aos de mercado.

Títulos públicos são ativos de renda fixa emitidos pelo Tesouro Nacional para financiar a dívida pública do País. Há diferentes tipos de título: os prefixados, os atrelados à inflação e os atrelados à taxa Selic. Ao comprar um título público, é como se o investidor estivesse emprestando dinheiro ao governo – e recebendo juros por isso. Com a tensão nos mercados, essas taxas flutuam, como ocorreu de maneira mais expressiva nesta quinta-feira.

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Oscilação. Em tempos de volatilidade, a renda fixa ganha um pouco da emoção já característica do mercado de ações ou de câmbio. Quem precisar vender o título antes do vencimento vai encontrar muita oscilação. 

Ontem, por exemplo, a surpresa do mercado com a manutenção da taxa de juros em 6,50% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) – quando se esperava mais um corte, para 6,25% ao ano –, derrubou os preços e elevou a rentabilidade desses papéis.

Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o IRF-M, índice que reflete os títulos prefixados, registrou queda de 0,33% em relação ao fechamento de quarta-feira. O IRF-M 1, que acompanha os prefixados em até um ano, recuou 0,12%. No caso dos títulos indexados à inflação, o IMA-B 5, índice que é composto por NTN-Bs de até cinco anos, recuou 0,44%. O IMA-B 5+, representativo dos papéis com prazos mais longos, teve queda de 0,75%.

'Marcação a mercado'. A mudança nos preços dos títulos públicos ocorre por conta da disparada dos juros futuros, que mexem com a chamada "marcação a mercado". 

A marcação a mercado é a atualização, normalmente diária, do preço de um ativo de renda fixa ou da cota de um fundo de investimento. Esse mecanismo permite que o investidor saiba quanto receberia hoje se vendesse aquele título ou aquela cota. Ou seja, com base na oferta e demanda por aquele papel, quanto o mercado está disposto a pagar por ele. 

"O que forma o preço de um papel é a expectativa de juros futuros. A decisão do Banco Central, ao surpreender o mercado, eleva essa expectativa", explica Sandro Baroni, gerente de Preços e Índices da Anbima. "Acreditava-se que os juros só iriam subir em 2019. Mas a decisão de quarta-feira reverteu essa percepção. Com isso, o preço dos papéis diminui e a taxa aumenta." Ele explica que, nesses casos, o investidor deve evitar resgatar o papel, pois irá perder dinheiro.

Os títulos prefixados e os atrelados à inflação são os que sofrem com a marcação a mercado. Já os títulos pós-fixados não, pois têm liquidez diária e seguem sempre a taxa básica de juros, a Selic.

Vale lembrar, no entanto, que o sobe e desce dos preços só é efetivado caso o investidor venda o título. Se ele se desvalorizar e o investidor seguir até o final do vencimento, não sofrerá com a oscilação e terá exata rentabilidade acordada no momento da compra do papel.

Especialistas, no entanto, destacam que a estratégia de resgatar antes do vencimento só vale para quem pensa em migrar para um investimento mais rentável, como alguns fundos que mesclam renda variável e renda fixa (os multimercado), ou para quem precisa do dinheiro para alguma emergência. Do contrário, ressaltam que especular com o Tesouro pode gerar perdas e prejudicar o funcionamento do mercado.

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