Consórcio para compra de automóvel usado cresce 18% no semestre

Modalidade tem taxas mais baixas que a média dos financiamentos para veículos, mas tempo de espera pelo produto pode ser uma desvantagem

Hugo Passarelli, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2014 | 21h04

O esfriamento da economia trouxe uma série de indicadores negativos de vendas e produção no setor de veículos. Contra essa maré baixa, os carros usados estão em alta, ajudados por uma invenção brasileiríssima: o consórcio. No primeiro semestre, o número de carros usados financiados por essa modalidade cresceu 18% em relação ao mesmo período de 2013, para 103 mil unidades, segundo dados da Cetip. A proporção do aumento é maior do que as vendas em geral de usados, que fecharam o semestre com alta de 4,6%.

“O consórcio é um modelo de autofinanciamento em que todos os participantes se ajudam até que todas as partes adquiram o bem desejado”, resume Paulo Rossi, presidente da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac). Nessa lista entram carros, imóveis, eletrodomésticos e, mais recentemente, até serviços, como viagens, procedimentos médicos e casamentos.

Para participar de um consórcio, os consumidores devem procurar uma administradora cadastrada pelo Banco Central e entrar num grupo com o valor da carta de crédito do bem desejado. A vantagem em relação às linhas tradicionais de financiamento está no custo menor.

A partir daí, o comprador começa a pagar parcelas mensais e só terá direito ao crédito para aquisição do bem quando for contemplado, seja por sorteio, lance, ou quando chegar o prazo final para que todos sejam beneficiados.

Atualmente, 21% de todo o crédito do sistema financeiro para compra de veículos é proveniente do sistema de consórcios, segundo os dados mais recentes do Banco Central.

Educação financeira. Mas, apesar de a opção estar em alta para quem busca o veículo próprio, especialistas alertam que o consórcio pode não ser vantajoso em todos os casos.

A falta de educação financeira do brasileiro é o que explica em boa parte a popularidade perene dos consórcios, na opinião do professor de finanças do Ibmec/RJ, Nelson de Sousa. Ao mesmo tempo em que força uma poupança, o consórcio pode significar perda de poder de compra, alerta o professor. “O consórcio acaba sendo uma boa opção só para quem é sorteado logo no início”, diz.

Isso não elimina, lembra Sousa, as vantagens comparativas em relação a outras linhas de financiamento, como o Crédito Direto ao Consumidor (CDC). Isso acontece porque os juros para aquisição de veículos e outros bens via CDC costumam ser maiores do que o total de taxas cobradas para quem participa de um consórcio.

“O consórcio é um crédito mais fácil”, afirma Hélio Dias, diretor da Bradesco Consórcio. Segundo o executivo, um atrativo é a parcela mensal, que no Bradesco sai a partir de R$ 291.

O problema é que, se o cotista não for contemplado de imediato, o dinheiro pago mês a mês poderia ser utilizado de maneira mais rentável. “Se o investidor pegar esse dinheiro e usar em uma aplicação qualquer, ou até na poupança, ele pode chegar lá na frente, no final do consórcio, com um valor até maior do que o registrado na carta de crédito obtida pelo consórcio”, afirma Sousa.

Planejamento. De todo modo, o consórcio não deixa de ser uma opção interessante para quem não tem o hábito de poupar e se planejar para adquirir um bem. “A grande vantagem é disciplinar as pessoas para realizar uma poupança mensal. Esse é um problema do Brasil, não há muita disciplina em relação ao dinheiro”, afirma Sousa.

Uma saída para driblar essa desvantagem, em caso de demora na contemplação, é ter dinheiro reservado para efetuar lances mensais e não depender da sorte. Os lances devem obedecer a um porcentual do valor do consórcio. Se ultrapassar as demais ofertas, o consumidor recebe a carta de crédito.

Copa do Mundo influencia. Apesar do crescimento nas vendas de consórcios de veículos usados no acumulado do primeiro semestre, o setor não passou ileso pela atividade fraca que ronda a economia brasileira.

Em junho, com a diminuição do número de dias úteis em função da Copa do Mundo, houve queda no número de financiamentos e de cotas de consórcio vendidas. Segundo a Cetip, a média diária dos financiamentos de veículos caiu 36% nos feriados em dia de jogo do Brasil na primeira fase do Mundial em comparação aos demais dias úteis do mês.

“Foi um semestre de atividade econômica fraca, principalmente se comparado a períodos anteriores. Isso teve efeito sobre os financiamentos de veículos”, afirma Marcus Lavorato, gerente de relações institucionais da Cetip. O número de novos consorciados para veículos caiu 10,3% em relação ao primeiro semestre de 2013, para 1,04 milhão. Com isso, os créditos comercializados pelos consórcios recuaram, passando de R$ 40,8 bilhões nos primeiros seis meses de 2013 para R$ 36,8 bilhões em igual intervalo neste ano - queda de 9,8%.

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