Imagem Fábio Gallo
Colunista
Fábio Gallo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Consórcio só é útil para quem não consegue poupar

Vou precisar sair do apartamento porque o proprietário tem intenção de vendê-lo. Cansada do aluguel, decidi comprar o meu apartamento. Como não tenho dinheiro para dar de entrada em um financiamento, optei por fazer um consórcio de R$ 400 mil por 12 anos. Fui informada que posso ser contemplada em até dez meses, mas não deram uma porcentagem dessa chance. O valor da parcela é R$ 2,6 mil. Foi uma decisão acertada? Sou funcionária pública e ganho cerca de R$ 7 mil.

Fábio Gallo, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2017 | 05h00

Se você está determinada a pagar uma prestação mensal para o consórcio equivalente a quase 40% de seu salário, eu acho que seria melhor e mais correto aplicar esse dinheiro mensalmente, que em certo tempo você teria um saldo suficiente para dar entrada no imóvel. Fazendo uma simulação simples: com 12% de juros ao ano e aplicando R$ 2,6 mil por mês, em 28 meses você teria R$ 80 mil, o equivalente a 20% dos R$ 400 mil.

Obviamente, temos de considerar que as taxas de juros estão caindo, além de outros itens. Algo é certo: o vendedor do consórcio não poderia ter dito nada sobre prazo, pois você pode ser contemplada no primeiro ou no último mês. O fato é que nem sempre fica claro que você está pagando uma taxa para uma empresa “guardar” o seu dinheiro. Isso porque ela tem de juntar diversos cotistas de maneira a, uma vez por mês, entregar uma carta de crédito no valor do bem para um deles.

A administradora do consórcio, porém, tem de cobrir os custos administrativos, pagar impostos e gerar lucro suficiente para manter o negócio, além de manter parte do dinheiro em reservas técnicas. Em outros termos, somente parte de sua prestação vai para obtenção do bem ou serviço. Consórcio é útil somente para aquelas pessoas que não conseguem poupar de jeito algum. Assim, comprar cotas funciona como uma poupança forçada – mas que tem custos. Caso você possa esperar, acho mais fácil aplicar o dinheiro e apropriar-se de toda a rentabilidade do investimento, até gerar um saldo suficiente para comprar ou dar de entrada. 

Fui demitida de uma empresa (mas já estou recolocada) e, com o valor recebido de rescisão e FGTS, tenho hoje o equivalente a 12% da dívida do financiamento imobiliário. Minha dúvida é se vale a pena amortizar ou investir esse valor, já que, se utilizá-lo, fico sem reservas.

Em tese, as dívidas devem ser quitadas, porque os juros pagos costumam ser maiores que a rentabilidade das aplicações. Mas, como se você usar o dinheiro, não sobrará reserva alguma, acredito que se sentirá melhor em deixar o dinheiro investido. Na perspectiva racional, não há sentido em manter aplicações financeiras e, ao mesmo tempo, estar devendo. Mas, na prática, as coisas não funcionam bem assim. Há um comportamento estudado em finanças que se chama “contabilidade mental”: as pessoas separam na cabeça as dívidas da poupança feita.

Assim, muitos se sentem mais confortáveis em manter dinheiro guardado, mesmo quando têm compromissos financeiros, como a prestação do carro ou da casa própria. Ficar sem reserva alguma pode gerar muita insegurança em alguns, mesmo sabendo que estão recebendo uma remuneração do investimento mais baixa do que a que estão pagando para o banco.

Obviamente, há casos exagerados, como os que estão no cheque especial, pagando 13% ao mês de juros, enquanto têm o seu dinheiro aplicado na poupança, que rende 0,5% + TR ao mês. A minha recomendação é que você seja rígida no controle do seu orçamento para gerar poupança e, quando tiver um volume maior de recursos, constituir uma reserva para emergências e usar a outra parte para amortizar a dívida.

Mais conteúdo sobre:
finanças pessoaisDesemprego

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.