Consumo cai e calotes avançam no microcrédito

Consumo cai e calotes avançam no microcrédito

Considerado mais resiliente do que outras formas de empréstimo, segmento sofre os efeitos da queda da renda e do consumo no País

Malena Oliveira, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2016 | 05h00

A inadimplência no segmento de microcrédito – voltado para o empreendedorismo – avançou 1,8 ponto porcentual em um ano. O índice passou de 5,7%, em 2015, para 7,5%, em 2016, segundo os últimos dados divulgados pelo Banco Central, referentes ao mês de maio.

O patamar é maior do que o observado em outros segmentos, como no crédito consignado (2,3%), no financiamento de veículos (4,7%) e nos empréstimos para a compra de imóveis pelo Sistema Financeiro da Habitação (2,3%).

A retração do consumo, causada pelo aumento do desemprego e a queda da renda no último ano, são fatores que influenciam o aumento dos calotes, segundo Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV.

“A particularidade do microcrédito é que houve uma expansão forte desde 2011 e isso pode ter afetado a qualidade das carteiras, principalmente dos bancos públicos”, analisa.

O professor acrescenta ainda que, mundialmente, a inadimplência no microcrédito costuma ter níveis mais baixos do que nos segmentos tradicionais de crédito. 

Apesar do avanço dos calotes, o perfil de quem toma crédito nessa modalidade faz com que a dívida não seja impagável, defende Amadeu Trentini, presidente da Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças (Abcred). “O trabalhador sempre busca ter o nome limpo.”

“Muitos têm pedido para aumentar os prazos de pagamento”, afirma Stelio Gama Lyra Junior, superintendente de microfinanças e agricultura familiar do Banco do Nordeste. Na instituição, que possui 2,1 milhões de clientes no segmento e realiza 16 mil operações por dia, a inadimplência encerrou o mês de maio em 1,5%. A marca, segundo o executivo, está acima da média histórica de 1% da instituição.

O Banco do Brasil não revela dados, mas afirma observar o inverso do que ocorre no mercado. “Não houve elevação da inadimplência ao longo do primeiro semestre de 2016”, diz Asclepius Ramatiz Soares, gerente geral de negócios sociais e desenvolvimento sustentável do banco. Hoje, a carteira do BB no segmento totaliza cerca de R$ 578 milhões. 

Já o Santander afirma que a inadimplência média nos quatro primeiros meses do ano ficou estável em relação ao ano passado, em 4,5%. Segundo o gerente de microcrédito do banco, Jerônimo Ramos, esse comportamento se deve ao acompanhamento dos tomadores de crédito feito pelos agentes da instituição: “Não é só dar crédito, é preciso dar orientação financeira para o empreendedor.”

Procurados pela reportagem, Bradesco, Caixa e Itaú não se pronunciaram.

 

COMO FUNCIONA O MICROCRÉDITO

1. A quem se destina?

A modalidade de empréstimo é voltada para o microempreendedor ou empresa com faturamento de até R$ 120 mil por ano. O crédito geralmente é concedido para capital de giro e investimentos.

2. Quem fornece?

Bancos públicos têm atuação mais forte no segmento. Por resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), as instituições podem destinar até 2% dos recursos que ficariam retidos no Banco Central (compulsório) para operações de microcrédito.

3.Quais as taxas?

Cerca de 4% ao mês. 

4. Quais os prazos?

As principais instituições que oferecem o serviço trabalham com prazos entre 4 e 24 meses.

5. Existem limites máximos ou mínimos?

No Brasil, a média é de R$ 1,2 mil por operação, segundo a Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças (Abcred). Porém, as quantias concedidas podem variar entre R$ 100 e R$ 15 mil.

6.  O que difere essa modalidade das demais?

Os bancos geralmente atuam com agentes que criam grupos solidários (de 3 a 20 pessoas) com o objetivo de oferecer orientação financeira e avaliar o perfil de risco desses clientes.

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