NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Em ano de aperto, cresce preocupação de pais em dar lições sobre dinheiro

Pesquisa mostra que aumentou de 76% para 88% o porcentual de pais que consideram muito importante a educação financeira das crianças

Mariana Congo e Yolanda Fordelone/ Jamylle Mol e Thales Schmidt, especial para o Estado

12 de outubro de 2015 | 03h00

O número de pais que se preocupam em passar lições para os filhos sobre como lidar com dinheiro cresceu neste ano de aperto econômico: 88% consideram essa atividade muito importante. O resultado ficou acima dos 76% que falaram isso no ano passado, mostra pesquisa da Boa Vista SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito) divulgada este mês. 

As lições envolvem até mesmo o presente de Dia da Criança: o menino André, de 9 anos, vai dividir com os pais a compra de um jogo para tablet no valor de US$ 20 (em torno de R$ 80). Os pais, economistas, aproveitaram a ocasião para explicar ao menino como o câmbio afeta os preços dos produtos (leia mais histórias abaixo).

A recomendação aos pais é, se possível, não esperar a situação financeira da família apertar para, aí sim, começar a falar sobre dinheiro com os pequenos. “Nos momentos de crise todo mundo fica mais irritado, tenso. É ruim falar de dinheiro com a criança em um ambiente de desarmonia. O ideal é sempre tentar conversar quando a situação está melhor”, avalia a educadora financeira especializada em crianças Cássia D’Aquino.

De acordo com ela, há algumas dicas gerais para a família ensinar a criança a ganhar, poupar, gastar e doar dinheiro. Em primeiro lugar, vale muito o exemplo dos pais e familiares. Não adianta falar para a criança cuidar bem do dinheiro se a família gasta compulsivamente.

Para programar a mesada, não é indicado atrelar o ganho a bom comportamento ou desempenho escolar da criança. “Associar dinheiro a afeto é equivocado. Educação financeira não é adestramento”, diz Cássia.

No lugar da mesada, a semanada é mais indicada para filhos de até 11 anos. “Longo prazo para a criança é sete dias”, diz Rafael Seabra, especialista em finanças pessoais. Segundo ele, à medida que a criança cresce, responsabilidades financeiras podem ser atribuídas, como pagamento da própria conta de celular.

Menino faz planilha. Há três anos recebendo mesada, Pedro Henrique, hoje com 12 anos, diz gostar de administrar seu próprio dinheiro. “Gosto da mesada porque consigo comprar o que eu quero”, diz o garoto. Ele nunca perdeu o controle dos gastos, mas para isso teve a ajuda dos pais. “Fizemos uma planilha onde ele registra as receitas e despesas. É uma forma de ajudá-lo a administrar a mesada”, afirma a mãe, Denise Araújo. A família mora em São Paulo (SP). 

A alta recente de preços foi sentida pelo menino, principalmente na compra de jogos de videogame. “Ele já percebeu que tudo está mais caro e que está com menor poder de compra. Tem sido uma fase de muita conversa”, diz Denise. Economizar o dinheiro, porém, não é sacrifício. “Sempre consigo comprar o que eu quero. Às vezes pode demorar um pouco, mas eu consigo”, conta Pedro.

Bazar de brinquedos. Como toda criança, Enzo, de 8 anos, tem seus desejos de compra, mas aprendeu desde cedo a juntar dinheiro para realizá-los. Desde os cinco anos de idade o menino recebe uma mesada no valor de R$ 30. “Ele poupa quase tudo. Quando pede algo e dizemos que deverá comprar, normalmente desiste ou pega algo mais barato”, diz a mãe, Raquel Moreno Teixeira Oaida, de Curitiba (PR). Recentemente, queria uma chuteira de R$ 130. Após ganhar R$ 100 da avó, decidiu comprar outra de R$ 70 e poupar o troco. 

Para uma meta mais ambiciosa, de um tablet, houve planejamento. Enzo realizou um bazar com os brinquedos antigos. Com o dinheiro da venda, mais o que tinha ganhado de aniversário, o menino conseguiu comprar o aparelho. “Ele aprende a não ser tão consumista e, com a doação de brinquedos, vê a importância da caridade”, afirma Raquel.

Criança quer dividir a conta. Filho de economistas, André, 9 anos, recebeu a primeira mesada mês passado. Os pais planejaram que o ganho estará atrelado ao bom desempenho escolar. Com o teto de R$ 50, a mesada varia de acordo com as notas - que devem ficar acima de sete. Ele fica sem o dinheiro se tirar alguma nota abaixo do combinado. 

A criança, por iniciativa própria, quer dividir algumas contas com os pais. André se oferece, por exemplo, para pagar a sobremesa da família quando saem para comer fora, conta a mãe Mônica Kuwahara. Eles moram em São Paulo (SP). 

No Dia da Criança, o presente não será surpresa. André vai rachar com os pais a compra de um jogo para tablet de US$ 20 (em torno de R$ 80). “Ele negocia e conversa conosco. Já aprendeu como a cotação do dólar influenciou no preço do presente”, diz a mãe. 

Irmãos juntam toda a mesada. Em Belo Horizonte (MG), os irmãos Júlia e Vítor, de 11 e 7 anos, poupam todo o dinheiro da mesada. “Eu gosto de economizar para daqui a algum tempo conseguir comprar coisas boas. Na escola, aprendi que não pode gastar dinheiro à toa”, diz o menino. Na disciplina de educação financeira Vítor foi desafiado a poupar para comprar um objeto de desejo - no caso dele, um livro do seu time de futebol. 

Em casa, os pais optaram por dar mesada de mesmo valor para os dois filhos: R$ 30. “É bem simbólico. Há três anos começamos com R$ 10. Depois, R$20. E o avô paterno dá moedinhas. Tudo isso vai pra caixinha”, conta o pai, o comerciante Alexandre Teixeira. Ele e a mãe já tentaram explicar para os filhos que eles poderiam ter uma poupança no banco e mostraram o caixa eletrônico. “Nenhum gostou da ideia por enquanto. Para as crianças, dinheiro só vivo”, diz Cristiane.

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