Na temporada de liquidações, atenção às armadilhas do varejo

No jogo entre vendedor e comprador vale tudo: anunciar descontos sem diminuir o preço, vender produtos com defeito ou próximos do prazo de validade ou mudar as ofertas a cada novo acesso ao site da loja

Yolanda Fordelone, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2014 | 07h53

A atividade econômica fraca levou muitas lojas a entrar na onda das promoções. O que parece ser uma grande oportunidade, no entanto, pode se revelar uma armadilha. No jogo entre vendedor e comprador vale tudo: anunciar descontos sem diminuir o preço, vender produtos com defeito ou próximos do prazo de validade ou mudar as ofertas a cada novo acesso ao site da varejista. O Código de Defesa do Consumidor protege os compradores em alguns casos, mas, para isso, a população precisa conhecer os seus direitos.

"Na área de vestuários temos percebido muitas promoções porque, além da atividade fraca, as vendas do estoque de inverno foram frustrantes", diz o diretor executivo do Reclame Aqui, Edu Neves. Segundo o site, o número de reclamações por não cumprimento da oferta aumentou 20% entre o primeiro semestre de 2013 e o mesmo período de 2014. Neves conta que no ranking das 10 empresas mais reclamadas do ano passado figuravam muitos sites de compras coletivas, posição agora ocupada pelas lojas do varejo.

Se o consumidor se sentir lesado, o importante é fazer uma reclamação - seja em redes sociais, sites específicos, como o Reclame Aqui, ou órgãos de defesa do consumidor, como o Procon. Antes de adquirir algo, muitos já recorrem à internet para pesquisar a reputação da empresa. No Reclame Aqui, que recebe 420 mil visitas por dia, 5% dos usuários entram para registrar uma reclamação e os outros 95% para buscar alguma informação do lojista. Para separar o joio do trigo no mar de liquidações, fique atento às principais "falsas promoções" que rolam no comércio.

1. Falsa promoção

Uma das reclamações mais comuns refere-se a uma armadilha já conhecida pela maioria dos consumidores. Em épocas de promoções em massa, como o evento anual da Black Friday, algumas lojas costumam oferecer altos descontos nos produtos, mas, na verdade, elevam o preço poucos dias antes. Neste caso, a sugestão é não se empolgar nas liquidações, comprar apenas o que já estava planejando, algo que realmente precise. Dessa forma, por já estar acompanhando o preço do item há algum tempo, o consumidor saberá qual é o valor justo e se realmente está havendo uma promoção.

2. Mercadorias novas no meio da promoção

"Na vitrine a loja anuncia uma promoção, mas não especifica qual setor tem liquidação e mistura peças que estão com o preço normal e outras com descontos", afirma a coordenadora institucional da Associação Proteste, Maria Inês Dolci. A atitude é claramente uma tática para atrair o consumidor para dentro do estabelecimento. Uma vez lá, muitos acabam desistindo da compra, mas se um a cada dez resolver comprar algo a ação já terá sido lucrativa para a loja.

3. Quantidade limitada

Se a liquidação tem um número limitado de produtos, isso precisa ser informado na propaganda. Assim, o consumidor não correrá o risco de ir até a loja e só descobrir lá que o estoque acabou, porque, na verdade, só haviam dez geladeiras em promoção. "A propaganda é apenas o chamariz para trazer o consumidor para o site ou, pior ainda, fazer ele se deslocar até a loja para descobrir que o estoque da promoção acabou e que agora o produto está R$ 200 mais caro", diz Neves. Especialistas questionam até que ponto vale à pena atrair o comprador a todo custo, já que hoje difundir reclamações na rede social tornou-se muito fácil e eficaz.

4. Frete grátis

Outra isca utilizada é anunciar o frete grátis quando, na verdade, ele só não tem custo para algumas regiões ou cidades. Depois que o consumidor já escolheu o produto e passou por todos os passos da compra, dificilmente desistirá da aquisição por ter de pagar o frete na região onde mora. O indicado é sempre verificar se o frete grátis vale para o local onde a pessoa reside.

5. Pequenos defeitos

"Se o produto tiver pequenos defeitos, como uma costura errada, isto deve constar na nota da compra", afirma Maria Inês. Isso tudo para se precaver, caso o defeito comprometa o funcionamento do produto, como em eletrodomésticos, por exemplo. A loja é obrigada a trocar o item em situações como esta. Se não houver comprometimento do funcionamento, a regra de troca vai depender da política do estabelecimento. 

6. Desconto na prateleira diferente do caixa

Em supermercados, é importante ficar atento na hora de passar as compras no caixa, afirmam especialistas. Isto porque, algumas vezes, o desconto anunciado na prateleira é diferente do preço que é cobrado no caixa. Nesses casos, vale o menor valor.

7. Mudança de preço

Na internet, ocorre um problema semelhante ao mencionado acima. O consumidor vê o anúncio em algum site ou recebe por e-mail e, quando entra no endereço da loja, o preço já mudou. "Há falta de sincronismo dos mecanismos de anúncio. O consumidor deve tirar um 'print screen' do preço com desconto e avisar a loja", afirma Neves. Segundo ele, o vendedor é obrigado a praticar o menor preço e, geralmente, não insisti em agir contra a lei. "Ele sabe que perderá em todas as instâncias. Só não perderá se houver um erro crasso, como um problema de digitação em que um carro foi anunciado por R$ 300. A Justiça entende que o consumidor sabe que o preço de um carro é muito mais elevado", explica.

8. Produto perto do prazo de validade

Em supermercados, o segundo cuidado é com a validade dos produtos. Quando o desconto é muito elevado, desconfie: o produto pode estar perto do prazo de vencimento. A compra até é válida, mas não se deve fazer grandes estoques, pois a chance de o alimento estragar é grande.

9. Lojas diferentes, ofertas diferentes

Em grandes redes varejistas, a armadilha está em achar que o desconto é válido em todas as lojas. Segundo especialistas, a pessoa vê o desconto pela TV, vai à loja mais próxima e acaba comprando sem nem perceber que pagou mais caro.

10. Vender o mostruário

Se o vendedor estiver negociando o mostruário, isso deve ser informado na nota fiscal, diz a coordenadora da Proteste. Mostruários costumam apresentar mais vícios e defeitos do que peças que foram melhor estocadas. O Código de Defesa do Consumidor garante um prazo de troca de 30 dias para produtos não duráveis, como roupas, e de 90 dias para bens duráveis, como eletrodomésticos, quando é detectado um vício do item.

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