André Lessa/AE
André Lessa/AE

Negociação de ações em alta velocidade já está ao alcance das pessoas físicas

Computadores mandam ordens de compra e venda em milissegundos - um segundo dividido por mil -, conforme a estratégia definida pelo investidor  

Yolanda Fordelone, de O Estado de S. Paulo,

23 de maio de 2011 | 08h46

Há alguns anos já disponíveis nas telas dos computadores de investidores institucionais, uma nova ferramenta que promete dar rapidez às compras e vendas de ações agora chega à pessoa física. As operações com algoritmos ou de alta frequência emitem ordens programadas pelo investidor segundo um cenário traçado por ele. No momento em que o cenário se concretiza (a queda da Bolsa atinge o porcentual estipulado, por exemplo), um robô dispara a ordem.

O robô, indicado para investidores sofisticados que têm como principal fonte de renda se não a única o lucro vindo de ações, está sendo oferecido pela corretora Interfloat. "Para quem compra uma ação para o longo prazo, pouco importa a mínima diferença de ganhar alguns centavos a mais em cada operação", afirma o superintendente de negócios da corretora, Marcelo Cavalcante Cunha. "A maioria dos nossos clientes precisa ter a melhor plataforma, conseguir operar no melhor preço", diz, ao contar que boa parte da carteira da corretora investe diariamente, para "viver da Bolsa" na linguagem do mercado. Cerca de 600 são clientes internos, que vão às unidades da Interfloat em horário regular do pregão para operar da própria corretora.

Alguns segundos fazem a diferença de centavos no mercado e rapidez é o principal atrativo da ferramenta que tem velocidade abaixo de um milissegundo. "A distância entre o investidor institucional e a pessoa física estava ficando muito grande. Fica cada vez mais difícil concorrer com os grandes", diz o diretor de Capital Market da Progress Software, Luis Gustavo Penteado. A empresa forneceu a tecnologia do algoritmo para a corretora, que a adaptou para a pessoa física em uma parceria com a InvestFlex.

O algoritmo mapeia o mercado e aponta ao investidor as operações mais propensas a acontecerem, a perspectiva de ganho e a possibilidade de perda. O investidor também pode deixar programado algum parâmetro, como volatilidade e variação do Ibovespa ou de outro índice acionário, e no momento em que o mercado atingi-lo as ordens são disparadas. Até hoje, segundo Cunha, os robôs disponíveis no mercado faziam apenas uma parte da operação: tiravam uma fotografia do mercado, avisavam o investidor quando o parâmetro fosse atingido ou somente programavam ordens. Dentro Shark Broker, do BanifInvest, por exemplo, há um rastreador de tendências do mercado.

"Sem dúvida a alta frequência é uma tendência", afirma superintendente do BanifInvest, Bruno Di Giorgio. Nos EUA, estima-se que pelo menos 80% das operações sejam por robôs. No Brasil, o porcentual no segmento Bovespa não chega a 6% .

"Temos planos para oferecer à pessoa física, mas nada no curto prazo. Ainda falta um amadurecimento do conhecimento do investidor", diz. Penteado, da Progress, diz que a parte tecnológica está pronta para ser colocada em home brokers e há até uma corretora interessada. "O problema ainda está na questão do risco, de como controlar as margens para que quando o robô executar uma ordem a pessoa não fique descoberta", diz, ao lembrar que o robô trabalha não só no mercado acionário, mas também no mercado futuro e de opções.

O robô que usa os recursos do Apama está disponível na Interfloat por meio de uma plataforma que pode ser usada na própria corretora ou instalada na casa do cliente. O preço é mais um motivo para que investidores sofisticados a utilizem: R$ 1500 por mês.

Cuidados

A velocidade dos negócios, das oscilações e principalmente da queda da Bolsa tende a se tornar maior com os algoritmos, diz o professor e especialista em mercado financeiro da Fipecafi, Eduardo Paiva. "O problema está em saber se o investidor comum sabe dirigir nesta velocidade."

Um dos principais problemas apontados por ele e por outros especialistas está em confiar demais no algoritmo. "Quando a pessoa confia no procedimento da tecnologia, ela pára de prestar atenção, relaxa, esquece de checar se as operações foram realizadas corretamente, não traça um plano B caso o mercado não se comporte como ela espera", explica.

Além de conhecimento de mercado e das diversas opções de estratégia que podem ser feitas, é importante sempre estar atento às mudanças de cenário. "É preciso ter esse ‘feeling’ para saber calibrar a ferramenta conforme o momento", diz Di Giorgio.

‘Sai do emprego e vivo das operações da Bolsa’

Há dois anos Renato Sá começou a investir na Bolsa e há um, após fazer um curso para formar trades na Interfloat (leia mais no blog No Azul), saiu de seu emprego em informática para viver das operações com ações. "No começo, quando eu utilizava o home broker, tudo o que eu comprava subia. Passei a sentir uma necessidade de traçar estratégias", conta, ao dizer que utiliza o algoritmo há cerca de seis meses, desde quando a corretora passou a oferecer. O investidor diz ter saído do emprego para ter mais liberdade de tempo na sua rotina.

Para ele a principal vantagem está em programar melhor suas ordens. "Tira o emocional da jogada. Você não opera sobre a pressão de ter de tomar uma decisão rapidamente", diz. Renato, que está na corretora de segunda-feira a sexta-feira, em dias mais movimentados chega a emitir 40 ordens. "Agora estou estudando o mercado de opções para começar a utilizá-lo também." Segundo ele, o preparo e estudo são fundamentais, mas a ferramenta não é arriscada. "É para quem gosta de ser calculista, traçar a possibilidade de ganho e limitar a perda."

 

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