Número de pessoas físicas no Tesouro  Direto cresce e se aproxima da Bolsa

Número de pessoas físicas no Tesouro Direto cresce e se aproxima da Bolsa

Diferença que era de mais de 180 mil investidores caiu para 80 mil em 2015; alta do juro pode fazer com que o total de acionistas seja ultrapassado

Yolanda Fordelone, O Estado de S. Paulo

11 Maio 2015 | 05h00

O tradicional rally por ações, visto sempre nos primeiros meses do ano, em 2015 ocorreu no mercado de títulos públicos e fez com que diminuísse a diferença entre o total de pessoas físicas do Tesouro Direto e da BM&FBovespa. Enquanto em 2014 a Bolsa contava com 186 mil investidores a mais que o Tesouro, neste ano a margem caiu para 81 mil. Com o aumento da demanda, alguns especialistas já apostam que a renda fixa pública passará a Bolsa ainda em 2015.

O Tesouro Direto ganhou pouco mais de 30 mil investidores no primeiro trimestre, mais que o dobro do verificado no mesmo período de 2014. Em contrapartida, a Bolsa se manteve praticamente estável no trimestre com o ingresso de 1.360 pessoas físicas. “O mercado teve crescimento da base de acionistas em períodos de altas consistentes. Se não houver uma reação substancial da Bolsa, o Tesouro vai deixá-la para trás”, diz o gerente de home broker da Socopa, Fabrício Tota, ao comentar que, embora em momentos de volatilidade seja possível ganhar dinheiro, a maioria dos investidores só compra ações quando o mercado está com boa performance. 

A renda fixa ganhou força em um cenário de juro elevado, inflação alta e mercado de crédito fraco, o que resfriou o lançamento de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e do Agronegócio (LCAs). A começar pela taxa básica de juros Selic, hoje em 13,25% ao ano, a maioria das ações perde no quesito rentabilidade. “A conta é muito simples. Se o juro é de 13,25%, para o investidor entrar na Bolsa, um mercado que envolve maior risco, o retorno das ações tem de ser muito maior, acima de 20% ou mesmo o dobro da Selic”, compara o diretor da Bradesco Corretora, Aníbal César Jesus dos Santos. O Tesouro tem verificado o ingresso tanto de novos aplicadores como de acionistas que querem diversificar a carteira.

Para Santos, o Tesouro Direto teria crescido muito mais se não fosse o crescimento da procura por LCIs e LCAs no ano passado, produtos nos quais a pessoa física é isenta de Imposto de Renda. “Era a coqueluche do mercado, todo mundo queria comprar. Quando começou o noticiário de que as letras poderiam ser tributadas, teve mais uma corrida intensa pelo investimento”, afirma. O momento atual, porém, é mais favorável aos títulos públicos. “Os bancos não estão mais lançando tantas letras porque diminuiu o crédito no setor imobiliário e de agronegócio”, explica a operadora de home broker da Coinvalores, Deborah Bloise.


Poupança

Além da diminuição da oferta de LCIs e LCAs no mercado, a caderneta de poupança ajudou o Tesouro. A baixa rentabilidade do produto – que tem perdido para a inflação há cinco meses – fez o investidor repensar a carteira. Parte migrou para títulos públicos. Em abril, o resgate foi tão intenso que a caderneta perdeu R$ 5,8 bilhões, o maior valor já registrado no mês em 20 anos. “Vejo dois movimentos de saída da poupança. O primeiro é para pagamento das contas e dívidas. O segundo é a migração para os títulos públicos, em busca de maior rentabilidade”, diz o analista da Rico, Roberto Indech.

Mesmo após o desconto das taxas operacionais e dos impostos, os títulos garantem atualmente um retorno acima de 10% ao ano, enquanto a poupança rende entre 6% e 7%. “Ainda que haja um benefício fiscal de não haver Imposto de Renda na poupança, a desvantagem é clara em relação a um título”, diz o economista-chefe da TOV Corretora, Pedro Paulo Silveira.

No passado, uma das desvantagens do Tesouro em relação a outras aplicações era a liquidez. Os detentores de títulos só podiam revendê-los ao governo às quartas-feiras. Desde o dia 30 de março, a recompra passou a ser diária. “A verdade é que não tem mais desculpa para o investidor que aplica em poupança e conhece o Tesouro não comprar títulos”, diz Indech. 

As corretoras afirmam que a simplificação dos nomes dos títulos também ajudou na divulgação do produto, uma vez que conhecimento ainda é uma das barreiras para que a aplicação se torne mais popular. Títulos atrelados à taxa Selic, por exemplo, antes chamados de Letras Financeira do Tesouro (LFT), passaram a ser apenas denominados de Tesouro Selic.

Para a TOV, porém, além de conhecimento, o maior empecilho para a popularização do investimento é a limitação do brasileiro em guardar dinheiro. “A quantidade de pessoas que tem condição de poupar é baixa em relação ao total da população porque temos uma renda muito baixa. A questão vai além da educação financeira”, diz Silveira.

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