Oswaldo Corneti
Oswaldo Corneti

Para jovens, investir em risco é chance de ter renda maior na aposentadoria

Especialistas são unânimes: para manter padrão de vida, é preciso planejar renda complementar à Previdência Social; mercado tem várias opções de investimento

Mariana Congo e Natália Cacioli, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 05h00

Um conselho recorrente dos consultores financeiros é: prepare uma renda complementar para quando chegar a hora de pendurar as chuteiras. Com as mudanças recentes nas regras da Previdência Social, ficou ainda mais importante se planejar desde a juventude. E quanto maior o tempo para se formar patrimônio, maior a margem para se correr riscos com o objetivo de engordar as reservas. 

Não dá para contar com a sorte. O teto do benefício da Previdência Social é hoje de R$ 4.663,75, mas 62,5% dos pagamentos urbanos são de valores entre um e dois salários mínimos (R$ 788 a R$ 1.576). Somente 4,5% recebem acima de cinco salários, ou seja, perto do teto.

São diversos os produtos financeiros que podem ser acionados com foco na renda complementar à aposentadoria (compare exemplos na tabela no fim da página). A tradicional previdência privada, apesar de conveniente, tem custo considerável: as taxas de administração podem atingir 3% e algumas seguradoras ainda cobram taxa de carregamento a cada novo depósito. E no caso dos planos mais conservadores, os retornos podem deixar a desejar.

“Rentabilidade maior significa risco maior. O investidor tem de escolher o perfil compatível com a sua idade: quanto mais jovem, melhor para se arriscar, pois há tempo para recuperar perdas”, afirma o presidente da Fenaprevi, federação da previdência privada, Osvaldo Nascimento.

O Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL) são as opções de previdência privada aberta. Para o perfil conservador, a estratégia mais comum dos planos é aplicar tudo em renda fixa. 

Mas esses produtos permitem que até 49% do fundo vá para a renda variável. Aí moram boas oportunidades para os mais jovens. Segundo dados da Anbima, associação das instituições do mercado de capitais, a rentabilidade média dos fundos de previdência privada de renda fixa está em 5,92% no ano. Já os fundos com mais de 30% em renda variável renderam 6,25% no mesmo período.

Como o horizonte de PGBL e VGBL é o longo prazo, resgates precoces são punidos pelo Imposto de Renda (IR) maior, que chega a 35% para saques antes de dois anos no regime regressivo. Por outro lado, tais planos não têm come-cotas – a cobrança semestral de IR que atinge outros fundos de investimento. “Um ponto interessante é tentar iniciar o plano com um aporte maior e negociar com a seguradora uma taxa menor de administração”, indica o professor de finanças Alexandre Cabral.

Também em previdência, os fundos de pensão (mantidos por empresas) e os fundos instituídos (ligados a categorias profissionais) são opções que, geralmente, têm custos menores. 

Por conta e risco. Tesouro Direto ou carteiras diversificadas com ações de dividendos e debêntures, por exemplo, são opções para quem quer acompanhar a vida do seu dinheiro mais de perto. Mas, para isso, é preciso organização, disciplina e até mesmo ajuda profissional. “Eu vejo a previdência privada igual a qualquer outro investimento. Ela acumula um dinheiro que lá na frente você vai sacar da maneira que quiser”, diz Syllas dos Passos Ramos, planejador certificado pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF). 

Pelo site do Tesouro Direto é possível comprar e vender títulos do governo com facilidade (basta ter conta em uma corretora). Para a aposentadoria, o professor Cabral indica títulos com vencimento longo. Um deles é o Tesouro IPCA 2035 (antiga NTN-B Principal), que acumula rentabilidade bruta de 14,14% em 2015 até maio. 

E os mais jovens têm mostrado apetite: investidores entre 26 e 35 anos são a maior fatia no Tesouro Direto (33%). Em maio, a plataforma ultrapassou 500 mil pessoas cadastradas e atingiu o recorde de R$ 2,4 bilhões em vendas, sendo R$ 1,3 bilhão do título indexado à inflação.

 

Segundo José Roberto Savoia, professor de finanças da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), as pessoas estão pensando no futuro cada vez mais cedo. “Hoje, observamos que a partir dos 30 anos de idade já se começa a pensar em aposentadoria”, diz. Mas, segundo ele, por falta de conhecimento, indisciplina ou por entenderem que estão protegidas pelo teto previdenciário, muitos ainda não se planejam. 

Para investir com foco na aposentadoria

PGBL

O QUE É

Plano Gerador de Benefício Livre é parte da previdência privada aberta, direcionado para quem foca no longo prazo, faz declaração completa do Imposto de Renda (IR) e contribui com o INSS

VANTAGENS

Benefício fiscal permite deduzir o investimento de até 12% da renda bruta anual tributável na declaração do IR. Não há imposto enquanto o dinheiro estiver aplicado, daí a reserva rende mais

DESVANTAGENS E RISCOS

Os custos devem ser analisados com cautela. Nos planos mais conservadores, a rentabilidade pode ficar pouco atrativa. Em caso de resgate antecipado, a alíquota do Imposto de Renda é alta

CUSTOS

Taxas de carregamento e de administração. IR incide sobre o montante total. No progressivo, a alíquota varia em função do valor de resgate, já no regressivo o imposto varia em função do tempo

VGBL

O QUE É

Vida Gerador de Benefício Livre é um seguro de longo prazo. Esse plano de previdência privada é para quem faz declaração simplificada ou é isento de IR, além de autônomo ou pessoa jurídica

VANTAGENS

Facilita a transmissão de patrimônio para herdeiros. O Imposto de Renda é cobrado sobre a rentabilidade e não sobre o montante total investido. Assim como o PGBL, não tem come-cotas

DESVANTAGENS E RISCOS

Não permite deduzir os aportes na declaração de IR. Imposto é maior em saques antecipados. Custos devem ser analisados. Em planos mais conservadores, a rentabilidade pode ser pouco atrativa

CUSTOS

Taxas de carregamento, que são aquelas cobradas a cada novo aporte, e de administração. O Imposto de Renda (regressivo ou progressivo) é cobrado sobre os rendimentos

Tesouro Direto

O QUE É

Plataforma online de negociação de títulos do governo. A rentabilidade pode ser prefixada ou pós-fixada, com base na taxa básica de juros (Selic) ou com uma parte prefixada mais taxa de inflação

VANTAGENS

Baixo risco, pois o credor é o governo. É possível investir a partir de R$ 30. O IR é cobrado sobre os rendimentos, no resgate ou nas parcelas semestrais de juros. Custo de administração pequeno

DESVANTAGENS E RISCOS

Rentabilidade total só é garantida se o investidor segurar o papel até o vencimento. Se vender antes, poderá perder dinheiro. Títulos de prazo curto devem ser reaplicados no momento do resgate

CUSTOS

Taxa de custódia (0,30% ao ano sobre o valor dos títulos). Imposto de Renda segue a tabela de renda fixa e incide sobre os rendimentos

Fundos de Pensão ou Instituídos

O QUE É

Previdência fechada: o acesso aos fundos de pensão é restrito a funcionários de uma empresa ou grupo que o mantém. Nos fundos instituídos, a ligação é com uma categoria profissional

VANTAGENS

Custo geralmente menor que o da previdência aberta. Funcionário pode abater do IR aportes em até 12% da renda bruta. No fundo de pensão, empresa deposita em benefício do empregado

DESVANTAGENS E RISCOS

É preciso buscar informações sobre quem administra o dinheiro do fundo, pois um desempenho ruim prejudica o benefício. Investidor só acessa valores ao se aposentar ou se sai da empresa

CUSTOS

Taxas de administração e de carregamento. Imposto de Renda é cobrado no resgate ou durante o recebimento de benefício

Carteira própria de ações e debêntures

O QUE É

Opção para proativos que buscam maior retorno. Carteiras podem ser compostas de ações de dividendos (ou fundos com esse perfil), índices de setores (ETF) e debêntures (títulos de empresas)

VANTAGENS

A diversificação da carteira anula parte do risco, pois a perda em um dos investimentos pode ser compensada por ganhos acima do esperado em outros

DESVANTAGENS E RISCOS

Necessário acompanhar de perto mudanças na economia e a situação das empresas para alterar a estratégia. Há maior risco de calote. É indicado consultar um analista financeiro

CUSTOS

Taxas de corretagem e de custódia. Imposto de Renda sobre ações (15%) para venda mensal acima de R$ 20 mil. Dividendos são isentos. Debêntures seguem tabela do IR da renda fixa

Fundo de Investimento Imobiliário (FII)/Renda Regular

O QUE É

FIIs investem em imóveis. Aqueles com foco em renda regular ganham a partir de aluguéis e títulos de crédito. Cotas são adquiridas no mercado secundário (BM&FBovespa) ou em oferta pública

VANTAGENS

Cotas a partir de R$ 1 mil. Sem dor de cabeça com inquilinos e reformas. Receitas são distribuídas periodicamente. Há isenção de IR para rendimentos mensais de quem tem menos de 10% das cotas

DESVANTAGENS E RISCOS

Riscos de mercado: inquilinos podem ficar inadimplentes, procura pelos imóveis pode ser menor, assim como a valorização dos aluguéis. Mas risco é diluído pela diversificação do fundo

CUSTOS

A corretora cobra uma taxa mensal de custódia. E, ao negociar as cotas do fundo, existem as taxas de corretagem (da corretora) e emolumentos (taxa fixa da BM&FBovespa)

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