Infográficos|Estadão
Infográficos|Estadão

Para quem investe na Bolsa, está cada vez mais difícil superar a renda fixa

Apenas 26 ações de companhias listadas em Bolsa tiveram valorização superior à alta do CDI em 2015, mesmo desempenho do ano de 2011

Hugo Passarelli, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2015 | 03h00

Superar a renda fixa investindo em ações de empresas brasileiras vem se tornando uma tarefa cada vez mais difícil. Em 2015, o cenário de recessão econômica, inflação alta e instabilidade política prejudicou o desempenho das companhias nacionais e trouxe forte volatilidade ao mercado acionário. As aplicações conservadoras, por outro lado, ficaram ainda mais vantajosas com o aumento da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,25% ao ano – o maior patamar desde 2006.

Como consequência, apenas 26 papéis conseguiram retorno superior ao CDI (Certificado de Depósitos Interfinanceiros), balizador da rentabilidade da renda fixa. É a mesma quantidade verificada em 2011 e longe do pico em 2012, quando 77 ações conseguiram o feito, segundo estudo da provedora de informações financeiras Economática.

O levantamento considerou ações com giro diário de mais de R$ 5 milhões, integrantes ou não do Ibovespa – principal índice da Bolsa.

A liderança ficou com a Braskem que, apesar do envolvimento na Operação Lava Jato, valorizou 74,18% no acumulado do ano.

“É uma empresa com fundamentos muitos positivos e que se beneficia com a alta do dólar”, diz Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da TOV Corretora.

Em meio à recessão mais severa desde 1990, quase nenhum setor escapou do desaquecimento econômico e dos reflexos sobre o valor de mercado das companhias. “As empresas que se alavancaram (aumentaram o endividamento) fortemente para crescer se prepararam para um cenário que não se realizou e agora estão com uma dívida que não cai com a economia”, diz Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper.

Uma das exceções ficou por conta das empresas do setor de papel e celulose, beneficiado pela desvalorização do real em relação ao dólar e pelo aumento do preço da commodity no mercado internacional.

Não por acaso, a Fibria ocupa a vice-liderança do ranking, com valorização de 71,28% até 23 de dezembro, e é seguida de perto por Suzano e Klabin. Desempenho bem diferente do principal índice da Bolsa, que deve fechar o ano com queda de mais de 10%.

“Além do fator cambial, a dinâmica de preços e a demanda para o setor de papel e celulose têm avançado de maneira sustentada, mesmo com a desaceleração da China”, afirma Nicolas Takeo, analista da corretora Socopa.

Na avaliação de Viriato, do Insper, o grosso do impacto cambial sobre essas companhias já ocorreu, mas ainda é possível colher frutos. “O dólar subiu mais de 50% neste ano e pode ser que continue se valorizando no curto prazo, o que vai, adicionalmente, favorecer esses papéis.”

Fora do setor de papel e celulose, um emaranhado de ações de companhias de diversos segmentos também apresentou boa rentabilidade. Em comum, elas mesclam boa gestão ou estão em áreas que sofrem menos com a retração do consumo. São as ações conhecidas como defensivas, grupo que inclui Raia Drogasil, Cetip, Santander e BM&FBovespa. 

“Os segmentos mais conservadores, como o financeiro e o de alimentos e bebidas, acabam se saindo melhor quando o mercado enfrenta forte volatilidade. De maneira oposta, eles não se beneficiam tanto quando há forte expansão econômica”, afirma Viriato.

Para os investidores que estão de olho em 2016, Viriato lembra a máxima das aplicações em renda variável: “Não necessariamente as ‘empresas vencedoras’ do passado serão as do futuro”.

Cenário.

Apesar do 2015 bastante desafiador para o mercado acionário, há quem veja espaço para um otimismo moderado. Na avaliação de Gesley Florentino, analista da Gradual, o lado positivo da atual conjuntura é que, ao menos, já há um consenso de que a retração econômica vai se repetir em 2016.

“Pelo menos os ativos estão começando a ficar mais precificados, depois de eventos como o rebaixamento da nota de crédito do Brasil e a elevação da taxa de juros nos Estados Unidos. Acredito que pode ser um ano melhor para a Bolsa”, afirma.

Para Viriato, a recomendação é dosar a mão na hora de aplicar em ações. “Faz sentido diversificar alguma parte da carteira, mesmo em um cenário de juros altos. Se optar por isso, o investidor deve procurar papéis de companhias mais conservadoras.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.