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‘Porta de entrada’ para investidor, fundo simples perde rentabilidade com taxas

BB e Caixa já computam, juntos, 260 mil investidores na aplicação; para especialistas, investir diretamente no Tesouro é mais indicado

Hugo Passarelli, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2016 | 05h00

SÃO PAULO - Com menos de um ano no mercado, os fundos de investimentos simples conquistaram, só em bancos públicos, 260 mil brasileiros. O apelo é investir no Tesouro Direto sem a preocupação de ter de escolher o título mais adequado. A comodidade é válida para quem está dando os primeiros passos no universo dos investimentos, mas tem um preço: as taxas de administração podem superar 2% e corroem parte da rentabilidade.

O produto foi lançado em outubro do ano passado, quando a instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mudou a classificação dos fundos de investimentos e criou uma categoria específica para os iniciantes. “A mudança dos nomes veio para facilitar o entendimento dos investidores”, afirma Carlos Ambrósio, vice-presidente da Anbima.

A partir da instrução da CVM, alguns bancos e gestoras procuraram readequar os produtos já existentes, enquanto Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal lançaram novos fundos para aproveitar a mudança de regulamentação. A Caixa ainda adaptou outro fundo ao guarda-chuva do simples. 

O BB atingiu na semana passada a marca de 100 mil cotistas. A Caixa possui, em seus dois fundos simples, o total de 160 mil aplicadores. Para efeito de comparação, o número de investidores nos dois bancos públicos atingiu em apenas nove meses o equivalente a pouco mais de 30% do total de pessoas hoje cadastradas no Tesouro Direto, que está em funcionamento desde 2002. 

O acesso é simplificado: é possível comprar uma cota pelo internet banking ou aplicativo de celular. O investimento inicial é baixo e parte de R$ 50. As duas características, no entanto, são acompanhadas de elevado conservadorismo na escolha dos títulos e pouca chance de ir além da remuneração da Selic, a taxa básica de juros.

Isso porque o fundo simples é obrigado a investir, no mínimo, 95% do capital em títulos do Tesouro. O restante pode ser aplicado livremente em produtos privados que tenham nível de risco semelhante, como os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs).

“No fim das contas, esses fundos acabam mantendo uma rentabilidade bastante próxima à da poupança”, afirma o professor da faculdade Fipecafi, George Willrich Sales. 

A proximidade com a poupança é lembrada pelos próprios bancos, que apresentam o produto como um primeiro passo dentro da educação financeira para quem pretende sair da caderneta. No primeiro semestre, a poupança registrou saques de R$ 42,6 bilhões, segundo dados do Banco Central. 

Para Jorge Augustowski, diretor executivo de economia da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), esses produtos podem ser uma alternativa aos investidores menos experientes, mas é preciso ter em mente que não há como esperar retornos extraordinários. “Vale sempre o alerta: com baixo risco e baixa volatilidade, normalmente a rentabilidade também é baixa”, afirma.

Os custos dos fundos simples incluem a taxa de administração. O BB cobra 1,95% ao ano para gerir os recursos e a Caixa, 1,5% para o fundo mais novo e 2% para o “migrado”.

Também há cobrança de Imposto de Renda. As alíquotas vão de 15% a 22,5% e são regressivas. Ou seja, o investidor paga menos imposto se demorar mais para resgatar o dinheiro.

Com todas as contas feitas, Augustowski destaca que aplicar sem a intermediação de fundos no Tesouro Direto acaba sendo mais vantajoso. “É preciso, contudo, um pouco mais de informação e entendimento sobre como funcionam os títulos públicos”, destaca. 

Vale a ressalva que, mesmo assim, será preciso abrir uma conta em uma instituição financeira para ter acesso ao título. No site do Tesouro Direto é possível comparar as taxas cobradas pelos chamados agentes de custódia. Atualmente, quatro fazem o serviço sem onerar o consumidor.

Os outros três grandes bancos privados de varejo – Itaú, Bradesco e Santander – também têm fundos simples na prateleira, assim como gestoras de investimento. 

A participação de investidores nessas instituições, no entanto, é bem mais discreta. O Santander, por exemplo, contabiliza hoje pouco mais de 500 cotistas com recursos no fundo simples. 

Procurado, o Itaú não retornou os pedidos de entrevista. O Bradesco não informou o número de cotistas em seus dois fundos. 

 Ao todo, são apenas 11 fundos “genuinamente” simples à venda, de acordo com dados da Anbima.

Desde a mudança na classificação dos fundos, a entidade trabalha para sanear o cadastro dessas aplicações. Na migração, muitos bancos e gestores classificaram seus produtos erroneamente e agora há um trabalho de checagem para enquadrá-los nas categorias corretas.

Mesmo com a elevada aposta no conservadorismo dos fundos de investimento simples, alguns deles são destinados à alta renda. No BNP Paribas, a aplicação inicial para este produto é de R$ 25 mil. Em contrapartida, a taxa de administração é inferior à praticada pelos bancos de varejo: 0,22% ao ano.

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