Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

‘Renda fixa permanece porto seguro’, diz executivo do BNP Paribas

Para executivo de banco francês, títulos de longo prazo ainda podem ser lucrativos, apesar dos juros baixos

Entrevista com

Luiz Sorge, presidente do braço de investimentos do BNP Paribas

Renato Jakitas, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2019 | 05h00

Ao renovar seu patamar máximo histórico por três vezes, a Bolsa retomou o protagonismo dos investimentos na semana passada, que também ficou marcada pela aprovação final da reforma da Previdência – um dos motivos do otimismo dos gestores. Mas, para o presidente do braço de investimentos do BNP Paribas, Luiz Sorge, o momento ainda é de cautela. Apesar de dizer que o Brasil está no caminho de um “círculo virtuoso na economia”, o executivo do banco enxerga riscos internos e externos no horizonte da renda variável e, por isso, evita projeções de curto prazo.

“O investidor estrangeiro está em compasso de espera”, diz ele, que tem R$ 60 bilhões sob gestão. Como outra prova de moderação, destaca a prudência dos fundos de pensão, que ainda não viraram a chave da renda fixa. “Os institucionais estão com 10% a 20% na Bolsa”, destaca. “A renda fixa continuará sendo o porto seguro do investidor.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Ibovespa renovou níveis recordes. A aprovação da reforma da Previdência abriu alguma porta nova para os investidores?

Sem dúvida, e a tendência é de alta. Mas temos aí dois vetores: o do investidor local e o do global. No ano, a gente teve R$ 31 bilhões de saídas no mercado secundário e R$ 26 bilhões de entradas nos lançamentos, dois IPOs (sigla em inglês para oferta inicial de ações), o que dá um déficit líquido de R$ 5 bilhões. Isso significa que o investidor global está em compasso de espera. Sim, há uma redução na aversão a risco por parte do investidor local. Mas não dá para pensar que, somente com a animação do investidor local, a gente vá puxar de maneira mais consistente a Bolsa. 

E como atrair esse investidor estrangeiro?

O Brasil precisa mostrar crescimento sustentável com controle de gastos (públicos). Além das reformas da Previdência e trabalhista, tem de ter um complemento com reformas micro, que já se iniciaram, com a Lei de Liberdade Econômica. Mas mesmo essa lei depende de regulamentações para ser implementada. Estava conversando sobre o Brasil com o pessoal das agências de risco. Para rebaixar ou promover a nota de um país, eles olham se o crescimento é sustentável, se a tendência de gastos do país versus o Produto Interno Bruto (PIB) está favorável. Isso tudo faz entrar em um círculo virtuoso e gera confiança nos investidores. O Brasil está tomando medidas para criar esse círculo virtuoso, mas ainda não começou a rodar, seja por inércia do crescimento, seja pela falta de confiança, seja por aspectos técnicos efetivos. Só o fato de dizer que o Brasil vai economizar R$ 800 bilhões com a reforma da Previdência não significa que vai mesmo economizar ou que o País entrou em uma tendência de queda da relação dívida/PIB.

Quando voltaremos a ver mais fluxo externo na Bolsa?

Infelizmente, o investidor deve voltar com a mesma velocidade do crescimento do Brasil, com uma inércia ainda pesada e olhando no detalhe o que está acontecendo no País. Espero uma volta para o médio prazo. Uma consistência maior em dois a três anos, mas com algum fluxo em 2020. Há dez anos, os fundos internacionais de países emergentes alocavam 16% do capital no Brasil. Hoje essa alocação é de 8%. China era 15%, hoje é 27%. O Brasil também foi ultrapassados pela Coreia do Sul, que hoje recebe 9% dos fundos, e por Taiwan, que tem 10%.

Nesta quarta, o Copom vai definir a taxa básica de juros, a Selic. O mercado espera um corte de 0,5 ponto porcentual. Qual a chance de o BC surpreender o mercado?

Chance sempre tem, mas não acredito. Todos os indicadores sugerem essa queda dos juros. O nível de atividade econômica está baixo, a inflação está baixa, tudo demanda ainda queda de juros, em linha com o que está acontecendo no mundo. Há espaço para queda e nossa visão é que (a Selic) chegue, até o fim do ano, a 4,5%.

Uma Selic a 5% ao ano coloca a caderneta de poupança e boa parte dos investimentos de renda fixa no zero a zero, quando descontada a inflação. O que vai acontecer com a renda fixa?

A renda fixa continuará sendo o porto seguro do investidor, mas talvez com a visão sofisticada, quer seja na poupança ou nos fundos, de um local para os recursos de curto prazo. Para o investidor ter uma rentabilidade destacada, vai ter de pensar em fundos de investimentos e outros elementos em um prazo um pouco mais alargado. Quanto mais novo o investidor e quanto mais de longo prazo for o seu objetivo, maior é o risco que ele vai ter de tomar.

E como ganhar mais na renda fixa?

Na renda fixa, há formas de gerar algum prêmio para o investidor com juros base baixos. As duas mais conhecidas são alongar a carteira (comprar títulos de longo prazo) e ficar mais suscetível a uma oscilação maior do valor dos títulos. Outra é alocar em fundos que investem em crédito corporativo, como as debêntures de empresas, ou as letras, emitidas pelos bancos. Mas é preciso que o investidor saiba no que está investindo, porque crédito tem risco de a empresa não pagar e tem marcação a mercado, o que pode fazer com que o investimento tenha, em um dia ou em um mês, um retorno negativo.

O sr. espera uma forte migração da renda fixa, que hoje é 86,5% dos investimentos locais, para a variável?

Isso vai depender do investidor institucional. Hoje, os fundos de pensão estão alocados em 10% a 20% em renda variável. No mundo, essa média é de 40% a 50% em aplicação em ações. Mas vamos supor que eles cheguem entre 30% e 40%, um aumento de 20 pontos porcentuais. Daí a gente está falando em um fluxo de R$ 200 bilhões só de fundos de pensão. Ou seja, acho que temos dois atores no mercado de ações que ainda não atuaram, o institucional e o internacional.

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