Shamil Zhumatov/Reuters
Shamil Zhumatov/Reuters

Selic a 6,5% gera fuga dos fundos de renda fixa

Refúgio histórico do investidor brasileiro, a renda fixa está perdendo espaço para os fundos de multimercado

Anna Carolina Papp e Jéssica Alves, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2018 | 04h00

O Banco Central não alterou a taxa de juros Selic como o mercado previa. Mas, para o investidor, a trajetória de queda atual da taxa, de 14,25% para 6,5% ao ano do final de 2016 para cá, levou a uma fuga dos fundos de renda fixa - refúgio do investidor brasileiro.

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De janeiro a abril deste ano, ao colocar na balança os recursos que entraram e os que saíram, houve resgate de R$ 4 bilhões - cenário completamente diferente do observado no mesmo período do ano passado, quando houve ingresso de R$ 49 bilhões. Na corrida por mais risco, os brasileiros já acharam um novo "queridinho" - os fundos multimercado.

Esse produto, que mistura em uma mesma cesta diferentes tipos de ativos, como títulos de renda fixa, ações e até commodities, teve captação líquida de R$ 40,2 bilhões nos primeiros quatro meses do ano, abocanhando 70% do total captado pela indústria de fundos. Foi um aumento de 24,6% em relação ao mesmo período do ano passado. Já os fundos de ações também tiveram resultado superior ao dos de renda fixa, com captação de R$ 9,9 bilhões no primeiro quadrimestre.

"Esse movimento de fato tem feito com que muitas pessoas comecem a pensar em diversificação", afirma Martin Iglesias, especialista em investimentos do Itaú Unibanco. "Como o juro deve permanecer baixo por um tempo, quem ainda não começou agora deve procurar novos investimentos. Mas, essa diversificação tem de ser consciente e adequada ao perfil do investidor", observa.

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Em tempos de juro alto, na casa dos dois dígitos, os fundos de renda fixa ostentavam larga vantagem em relação aos ganhos da caderneta de poupança. Agora, porém, os produtos estão praticamente no mesmo barco.

Segundo levantamento da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), os fundos de renda fixa só batem a caderneta de poupança seja qual for o prazo de resgate quando a taxa de administração é inferior a  1% ao ano - taxa raramente disponível no mercado para o pequeno investidor. Nos fundos com taxa de 1,5% ao ano, só vale a pena investir para o longo prazo  - acima de dois anos. Já os fundos com taxa acima de 2% ao ano perdem para a caderneta em todos os prazos. A poupança agora ganha atratividade frente a esses produtos por ser isenta de Imposto de Renda (IR).

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De acordo com cálculos do coordenador do laboratório de finanças do Insper, Michael Viriato, descontado o IR, uma aplicação de R$ 5 mil em um fundo DI com taxa de administração de 1% ao ano pagaria ao investidor ao final de dois anos, R$ 5.468,65 - praticamente o mesmo que a caderneta, que renderia um montante de R$ 5.465,35. No título público atrelado a juros, o Tesouro Selic, o investidor resgataria R$ 5.514.

Já o mesmo montante aplicado em produtos de maior risco renderia mais ao bolso do investidor. Uma aplicação em um fundo multimercado que, com base na rentabilidade dos últimos dois anos, pague 140% do CDI, pagaria R$  5.790,60. Já se o investidor tivesse aplicado em um fundo que replica um índice da Bolsa, como o Bova 11, resgataria R$ 6.452,48 em dois anos.

Viriato explica que essa mudança de alocação para novos produtos não está só ligada a perfil de risco, mas também à comodidade. "Não precisava ter perfil arriscado para ter um retorno bom. A alocação grande na renda fixa antigamente mostra que os investidores estavam se aproveitando da taxa", diz.

Ele alerta ainda que a renda fixa pode ser tão ou mais arriscada do que os fundos. Isso ocorre porque os títulos públicos estão sujeitos a oscilações do mercado e os privados estão sujeitos à capacidade de pagamento das empresas e instituições. "As pessoas acham que renda fixa é só o CDI ou associam a algo que subia todo dia, mas não é isso. Renda fixa só indica que o que ele vai receber até o vencimento está fixo, mas a rentabilidade não", explica.

Iglesias, do Itaú, afirma que o cenário favorece o apetite para risco, mas é motivo para causar uma "debandada" da renda fixa, já que os novos produtos não devem substituí-la na carteira, afirma, mas sim compor o portfólio. "No perfil mais conservador, por exemplo, aconselhamos ter 7% de fundo multimercado. No moderado, 12%, e no agressivo, 30%", diz.

Ele também recomenda como diversificação, além de fundos multimercado e de ações, fundos com ativos no exterior, para se proteger da incerteza política e volatilidade com o cenário eleitoral. "Além dos fundos, que também podem oferecer uma proteção cambial, outra recomendação é o ETF (fundos que replicam índices), pois permite diversificação e exposição ao exterior a um custo muito baixo."

Como os gringos. Segundo especialistas, o investidor brasileiro agora vive um novo paradigma que o aproxima dos investidores de outros países. Isso porque diferente de tempos atrás, quando não fazia sentido sair do Tesouro Selic - investimento mais tradicional da renda fixa, por exemplo, agora esses produtos mais conservadores deverão ser utilizados como um estabilizador da carteira. "A renda fixa começa a ter no Brasil o papel que ela tem no resto do mundo. É um dinheiro para curtíssimo espaço de tempo", diz Walter Maciel, presidente da Az Quest.

Para Viriato, o investidor brasileiro agora, mais do que nunca, deveria agir como os gringos e fatiar melhor sua carteira entre diferentes ativos e não só um. As eleições e a escalada do dólar, são, porém, uma trava para o investidor pequeno. "É como se você tirasse alguém da piscina e colocasse na praia. Quem entende vai até surfar, mas quem não sabe pode se afogar", diz. 

Maciel aconselha principalmente o investidor a se livrar do "cacoete" de olhar para um horizonte de meses e começar a vislumbrar um horizonte de mais de três anos pelo menos para ter carteira com mais retorno. Isso sem esquecer seu perfil de risco.

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