Talvez os jovens não devam mergulhar no mercado de ações

Até que ponto a volatilidade é benigna numa época em que a estabilidade no emprego é baixa, especialmente entre os jovens?

Conrad de Aenlle, The New York Times

11 Fevereiro 2015 | 07h00

Os jovens são quase sempre incentivados a carregar seus portfólios de aposentadoria com ações. A perspectiva de um retorno do investimento superior ao oferecido pelas obrigações no longo prazo em troca de oscilações de valor mais bruscas no curto prazo é considerada oportunidade boa demais para ser desperdiçada por alguém com dinheiro que permanecerá guardado por anos.

Mas certos consultores financeiros começaram a questionar esse raciocínio tradicional. Eles se perguntam até que ponto a volatilidade é benigna numa época em que a estabilidade no emprego é baixa, especialmente entre os jovens, e se os bens para aposentadoria estão de fato fora de alcance para esse público.

Rob Arnott, presidente da consultoria de investimentos Research Affiliates, usou uma recente nota aos clientes para defender a ideia de limitar a exposição às ações nas contas de aposentadoria dos mais jovens. Ele citou um estudo da Fidelity mostrando que 41% das pessoas com idade entre os 20 e 30 anos sacavam parte ou a totalidade dos fundos nessas contas quando mudavam de emprego, e  estatísticas mostrando que, quanto menor a idade, maior a probabilidade de perder o emprego durante uma recessão.

Arnott concluiu que investir pesadamente em ações durante a juventude envolvia riscos inaceitáveis. Ele alertou que, como os poupadores mais jovens perdiam ou trocavam de emprego com frequência e tinham propensão a sacar dinheiro dos planos de aposentadoria, este grupo poderia sair prejudicado de várias maneiras: ao pagar impostos sobre a quantia sacada, e também uma multa de 10% ao fazer o saque durante períodos de dificuldade, quando os preços das ações tendem a estar em baixa, e por não permanecerem nos empregos por tempo o bastante para receberem as contribuições proporcionais feitas habitualmente pelos empregadores a planos de aposentadoria.

"A tese segundo a qual os jovens teriam 40 anos antes da aposentadoria e, por isso, deveriam investir principalmente nos mercados de ações parece sensata, mas está equivocada", disse ele em entrevista. "Há vários motivos para não seguir esse rumo."

Mas esse é o rumo escolhido pelos gestores de fundos com meta de rendimentos cronológica. Esses fundos, que costumam ser a opção padrão nos planos de aposentadoria conhecidos como 401(k), conservam uma mistura de ações e títulos de crédito na qual a proporção muda gradualmente ao longo da carreira do proprietário, passando de quase 100% de ações para quase 100% de títulos.

Arnott aconselha os jovens interessados em poupar para a aposentadoria a manter uma mistura de ativos mais diversificada - algo como uma divisão 40/40/20 entre ações, títulos e dinheiro - até que o portfólio acumule um valor próximo ao salário anual. Dessa maneira, é menos provável que eles sofram perdas acentuadas se precisarem usar tais recursos em momentos de dificuldade.

Quando chegarem aos anos de auge no rendimento, com mais estabilidade no emprego, eles podem aumentar sua exposição às ações e manter investimentos pesados nesses mercados até ultrapassarem a marca dos 50 anos. Muitos consultores sugerem que os investidores retornem às obrigações com a aproximação da aposentadoria, mas Arnott afirma que a expectativa de vida maior praticamente exige que se capture o alto rendimento proveniente das ações durante mais tempo.

Os consultores financeiros enxergam os méritos da argumentação de Arnott, mas propõem soluções diferentes. As contribuições para a aposentadoria podem esperar até que outras metas sejam alcançadas. "Incentivamos os clientes mais jovens a terem um fundo de emergência equivalente a três ou seis meses de salários, com dinheiro que possa ser acessado sem consequências negativas no caso de uma emergência", disse Don Wilson, diretor de investimentos da firma de planejamento financeiro Brightworth, com sede em Atlanta. 

Depois que isso for resolvido, ele recomenda que os jovens poupadores mantenham 65% do dinheiro da aposentadoria em ações globais, 10% em títulos e o restante em fundos de alocação em ativos, nos quais os administradores investem com base nas condições do mercado.

Brett Bartman, consultor da RBC Wealth Management, iria um pouco além com o fundo de emergência, acumulando o bastante para sobreviver de 6 a 12 meses, de modo que "não seja necessário mexer nos recursos do 401(k) para arcar com as despesas cotidianas", disse ele. "Isso deveria ser o último recurso disponível."

Mas ele não eliminaria as contribuições para a aposentadoria nem a poupança com outros objetivos nobres durante o período de economia para o fundo de emergência. Para ele, seria um desperdício de oportunidade deixar de contribuir para um fundo de garantia até alcançar um patamar que atraia contribuições proporcionais do empregador.

"Não se deve optar pelo tudo ou nada, especialmente quando o empregador estiver contribuindo em patamar equivalente", disse Bartman.

David Blanchett, diretor de pesquisa de aposentadoria da Morningstar Investment Management, concorda que "a existência de contribuições proporcionais e equivalentes complica as coisas". Uma contribuição equivalente a US$ 0,50 por cada US$ 1 "é dinheiro gratuito com rendimento de 50%", disse ele.

Embora isso deva ser uma prioridade, ele limitaria as contribuições para a aposentadoria com o objetivo de quitar dívidas do cartão de crédito e outras dívidas com juros altos. Ecoando as recomendações de Arnott, ele acrescentou que o dinheiro que possa eventualmente ser sacado antecipadamente não deve ser mantido em ações.

Wilson disse que a distribuição de investimentos para os jovens é também uma questão de psicologia, e não apenas de considerações financeiras. "Supomos que os investidores mais jovens deveriam buscar majoritariamente as ações, porque eles têm décadas pela frente até precisarem do dinheiro, mas é preciso levar em consideração a tolerância individual ao risco", disse ele. 

"Talvez eles não precisem do dinheiro nas próximas décadas, mas, se entrarem em pânico num momento de declínio, não lhes servirá uma recomendação para investir em ações."

As atitudes em relação ao risco e ao investimento em geral podem ser formadas cedo, outro motivo pelo qual Arnott considera pouco sábio investir pesadamente em ações no caso dos jovens preocupados com a aposentadoria. O problema não é apenas a possibilidade de precisarem sacar os fundos num momento infeliz, mas também que algo do tipo possa afastá-los da ideia no futuro.

"As experiências que temos entre os 20 e 30 anos moldam nossas atitudes pelo resto da vida", disse ele. Os jovens investidores de hoje "são muito mais avessos ao risco do que a geração do pós-guerra, porque suas experiências iniciais de investimento são muito frustrantes. Isso faz com que fujam do risco pelo restante de suas vidas." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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