Hèlvio Romero/Estadão
Hèlvio Romero/Estadão

'Utilizava o limite do cheque especial para pagar as contas'

A técnica de enfermagem Jéssica Duarte chegou a dever seis vezes o que ganhava e, após conseguir um segundo emprego, conta como fez para limpar o nome

O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2016 | 05h00

"Conheci o crédito no meu primeiro emprego com registro em carteira, quando eu tinha 18 anos. Para receber o salário era necessário abrir conta em um banco. Com isso, tive direito aos 'benefícios', ao cartão de crédito, à conta corrente com cheque especial. Me descontrolei por vários motivos. Eu era muito nova, na escola pública não tive aula de educação financeira, moro com meus avós e eles não tinham como me ensinar nada, pois também não sabiam lidar 'com essa tecnologia'. Além disso, os cartões de crédito te dão a falsa ilusão de que você tem dinheiro. 

Se tornou uma bola de neve porque quando chegava a fatura do cartão eu utilizava o limite do cheque especial para pagar as contas. Quando entrava o meu salário na conta, já era descontado o limite e os juros. Aí eu utilizava o limite novamente. Fora isso, tinham os cartões de lojas, uns três, que eu também utilizava.

Não tomei uma decisão de dar um basta, foi aos poucos. Comecei a me incomodar com as dívidas, pois o limite do meu cartão era baixo, de apenas R$ 300. Vi que eu só gastava com bobeiras, como roupas. Se precisava comprar algo um pouco mais caro, um celular, por exemplo, precisava pedir favor para alguém. Tinha vergonha de fazer isso, achava desagradável. Foi aí que decidi que ia limpar o meu nome.

Jéssica arranjou dois empregos para limpar o nome

Não devia muito, mais ou menos uns R$ 3 mil, mas ganhava pouco na época. O salário era aproximadamente R$ 650, mas ainda tinham os descontos. Recebia uns R$ 500. Não conseguia me manter e quitar a dívida. Devia em três lojas. Ia em uma a cada mês, negociava e pagava. Mas, mesmo assim, ainda gastava mais do que o meu salário. Se uma amiga me chamasse para viajar, por exemplo, eu não falava não: pegava o cartão de crédito ou o dinheiro das férias e ia sem me preocupar.

Até que comecei a namorar, em 2014, e por algum motivo entramos no assunto de contas. Ele percebeu que eu nunca tinha um real no bolso. Disse que eu precisava me organizar, me emprestou quase R$ 3 mil para eu quitar as dívidas. Arrumei outro emprego para que pudesse quitar três empréstimos que tinha na época e devolver o dinheiro que ele havia me emprestado. Fiquei trabalhando doze horas todos os dias por seis meses, com apenas quatro dias de folga por mês.

Tenho o nome limpo há uns três anos mais ou menos. Agora estou conseguindo conquistar pequenas coisas como tirar carteira de habilitação, ir a um teatro. Acho que a nossa geração é um pouco consumista. Me esforço para controlar as contas. Tem mês que dou uma exagerada, mas tento maneirar no outro."

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