Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Distratos têm queda, mas ainda preocupam setor

Desistência de compra de imóvel cai em 2017 em relação à crise econômica, que deixou bancos mais rigorosos na concessão de crédito

Douglas Gravas, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2018 | 23h00

Fantasmas das incorporadoras, sobretudo durante a crise econômica, os distratos – como são chamadas as desistências de compra de um imóvel – recuaram no ano passado, mas ainda preocupam. 

Dados da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) apontam que o número de unidades residenciais distratadas foi de 40,5 mil, entre janeiro e outubro 2015, para 29,2 mil no acumulado do ano passado até o mesmo mês. Esse é o patamar mais baixo em três anos, quase 28% menor que no mesmo período de três anos atrás, quando os cancelamentos fizeram com que o setor ligasse o sinal de alerta.

Para facilitar as vendas, as incorporadoras costumam oferecer condições que cabem no bolso do cliente. Quando o edifício fica pronto e o mutuário tem de assinar o contrato com o banco, no entanto, muitas vezes descobre que não terá condições de arcar com os custos do financiamento. Com a crise, os bancos ficaram ainda mais rigorosos na concessão de crédito para financiamento imobiliário.

A professora universitária Denise Tavares da Silva, de 58 anos, desistiu da compra de um apartamento em Niterói (RJ), após pagar as parcelas para a construtora por mais de dois anos. “Era um sonho antigo. Sou de São Paulo e moro de aluguel, queria deixar esse patrimônio para os meus filhos.”

Quando o empreendimento foi concluído e o financiamento passou para o banco, ela descobriu que o valor das parcelas seria três vezes maior do que pagava para a construtora. “Como somos mais velhos, o preço do seguro que os bancos cobravam também acabou pesando. Nós pagamos R$ 1.800 de aluguel e de repente descobrimos que pagaríamos quase R$ 5 mil por mês para comprar o imóvel. Ficou pesado demais.” Ela, então, desistiu do imóvel e recuperou 40% do que havia pago.

Cautela. Apesar de a ocorrência de distratos em 2017 ter sido menos grave que nos anos anteriores, ainda é um assunto que preocupa, sobretudo pelas inseguranças jurídicas que a falta de regulação gera, diz o presidente do Secovi-SP, entidade do setor, Fabio Amary. “Para o nosso segmento, resolver essa questão é mais importante do que qualquer outra reforma que o governo ficou de fazer.” 

Ele diz que o setor aguarda o andamento de um projeto de resolução dos distratos que está em discussão em Brasília. A proposta foi incluída na chamada “Agenda 15”, um conjunto de medidas consideradas prioritárias para votação pelos parlamentares, anunciadas pelo governo após a interrupção da reforma da Previdência. 

A expectativa do setor é de que o tema volte a ser discutido nas próximas semanas. 

Ainda que a passos tímidos, o mercado tem tido resultados melhores. No ano passado, houve um aumento de 6,1% no total de unidades residenciais vendidas e de 18,2% nos lançamentos, em relação a 2016, de acordo com a Abrainc. 

Segundo Amary, o estoque de imóveis das incorporadoras está hoje em um patamar aceitável e o lançamento de empreendimentos, compatível com as vendas. “Não há exageros.”

“Nesses últimos três anos, teve o consumidor que perdeu a renda e o que teve receio de perder. O que a gente percebe é que com a melhora dos indicadores econômicos, as famílias vão continuar diminuindo o endividamento e poupar para poder dar uma entrada maior”, diz Leandro Diniz, do Bradesco. 

Mais conteúdo sobre:
imóvel

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.