W. Lee/NYT
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Como encontrar uma carreira para chamar de sua

Entender as próprias predisposições pode ajudar os jovens a terem sucesso na hora se escolher uma profissão

Paulette Perhach, The New York Times

31 Março 2016 | 17h36

Sunil Yapa estava pulando de faculdade em faculdade, procurando uma carreira, quando decidiu voltar para um lugar mais familiar: sua cidade de origem, State College, na Pensilvânia. Lá, ele se viu em um prédio que havia visitado muito com o pai, Lakshman, professor de Geografia da Universidade estadual da Pensilvânia. Yapa assistiu às aulas do pai, ajudou-o a escrever o rascunho de um livro sobre a construção social da pobreza e conseguiu um diploma de bacharel em Geografia em 2003.

"Estava me preparando para assumir os negócios da família", conta Yapa.

Ele pensava em fazer um doutorado depois de uma viagem longa à China. Mas assim que chegou ao outro lado do mundo, longe de sua família e de sua cultura, começou novamente a escrever, prática que amava quando era adolescente, mas havia abandonado.

"Foi sorte. No final não precisei escolher apenas uma coisa. Se tivesse deixado a escrita de lado, seria muito difícil para mim", afirma ele.

Ele fez mestrado em Artes na Faculdade Hunter, em 2010, e começou a escrever um romance sobre os protestos de 1999 na Organização Mundial do Comércio de Seattle. "Your Heart Is a Muscle the Size of a Fist" (Seu Coração é um Músculo do Tamanho de um Punho), que inclui temas ligados à geografia, lançado em janeiro.

"Parece tão bobo quando olho para trás", diz ele sobre sua briga contra uma carreira que teria sido óbvia. No entanto, ser escritor também tem seus problemas: antes de vender seu livro, ele precisou aceitar outros empregos para ganhar dinheiro, incluindo vender pôsteres para universitários.

Segundo economistas comportamentais, a trajetória de Yapa é comum. A escolha da carreira não é óbvia ou fácil de fazer. Especialistas descobriram que predisposições que as pessoas desconhecem distorcem a percepção das possibilidades e criam pontos cegos nas escolhas. Entendê-las pode ajudar os jovens a ter sucesso na hora de selecionar uma profissão que fará com que ganhem a vida, mas também lhes dará satisfação, sentimento de propósito e uma chance de dominar uma habilidade que os fascina.

Ao seguir a Geografia, Yapa quase caiu em uma armadilha chamada predisposição do status quo.

"As pessoas normalmente não gostam de mudanças. É humano seguir o caminho que gera menos resistência e ficar com o que conhecemos melhor", explica Alain Samson, consultor de Ciências do Comportamento e editor do Behavioral Economics Guide. Embora a definição mais estreita de predisposição seja um comportamento individual que envolve inércia ou a tentação de evitar mudanças, é também uma tendência que pode influenciar as crianças a seguir a linha de trabalho de seus pais.

É importante manter a felicidade de longo prazo em mente, porque outra predisposição pode levar a pessoa a dar uma grande ênfase aos anos seguintes ao invés de se preocupar com as próximas décadas.

"Muitos evitam ações que são custosas no curto prazo, mesmo que elas apresentem resultados no futuro. Em economia comportamental, isso é chamado de predisposição do presente", explica Samson.

"Quanto mais novo você é, mais difícil pensar no futuro", afirma ele.

A predisposição do presente pode impedir que a pessoa tente uma carreira que exija um investimento inicial em educação, explica Samson. Ela também é capaz de encorajar a pessoa a escolher um emprego que possui um alto salário inicial, mas oferece oportunidades limitadas de avanço.

Para combater essas predisposições, os economistas sugerem que profissionais em várias etapas da carreira sejam consultados. Mentores experientes são capazes de oferecer perspectivas de longo prazo sobre como será trabalhar nessa área por boa parte da vida; jovens trabalhadores podem dar uma visão de como é o início da carreira na área que está sendo cogitada.

Esse tipo de investigação, segundo os economistas, vai ajudar quem procura uma área de atuação a evitar outro erro: fazer escolhas baseadas nos fatores mais óbvios.

"A economia comportamental nos diz que as pessoas frequentemente focam muito nas coisas erradas e tendem a olhar para aspectos da carreira que se sobressaem. Assim, por exemplo, o salário passa a ser importante, especialmente o inicial", afirma Alan Krueger, professor de Economia e Negócios Públicos da Universidade Princeton.

Quando tomam decisões baseadas na predisposição do que se sobressai, as pessoas podem dar mais importância às características visíveis ou quantificáveis, como o Corvette que um advogado dirige, sem considerar as mais difíceis de ver, como quão satisfeito o profissional está com sua carreira.

"Uma das coisas que sabemos da economia comportamental é que as interações sociais são muito importantes. As pessoas sentem que estão sendo tratadas de forma justa? Elas se dão bem com os colegas com quem trabalham? Acho que esse é um aspecto do emprego em que todos deveriam focar mais. Elas acham o trabalho gratificante?", diz Krueger.

Richard Freeman, professor de Economia da Universidade Harvard, aconselha que os estudantes explorem o mundo na prática o tanto quando puderem por meio de estágios ou de um ano sabático. Ele diz que, se os alunos não gostarem do que descobriram, devem tentar outro empregador ou outro trabalho no mesmo campo para ver se ajuda.

Leslie Stevenson, diretora de serviços de carreira da Universidade de Richmond, sugere que os alunos visitem o centro de carreiras de suas escolas ainda no primeiro ano da faculdade.

A boa notícia é que as pessoas podem mudar mesmo depois de conseguir seus diplomas - uma coisa que Yapa agradece por ter feito. Leslie também diz que os formados não devem ter medo de procurar os escritórios de carreiras, porque muitos deles oferecem serviços aos ex-alunos. "Encorajamos os estudantes a ver o gerenciamento de carreira como um processo contínuo", diz ela.

No final, enganar suas predisposições pode significar aprender a seguir seus instintos e continuar a ouvi-los. "Digo aos estudantes: 'Encontre alguma coisa que você realmente gosta'. Você precisa ter dinheiro o suficiente para viver, mas é uma loucura se sentir atraído pelas grandes recompensas, salário, prestígio ou o que quer que seja. Você precisa querer passar sua vida fazendo aquilo", afirma Freeman.

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