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Cursos online prejudicam os estudantes que mais precisam de ajuda

Alunos que completam esses cursos tendem a se dar muito mal em testes subsequentes de conhecimento acadêmico

Susan Dynarski, The New York Times

26 de janeiro de 2018 | 14h56

Um único professor pode chegar a milhares de alunos em um curso online, abrindo um mundo de conhecimento para qualquer pessoa conectada à internet. Este ilimitado alcance também oferece benefícios consideráveis para distritos escolares que precisam fazer economia, reduzindo o número de professores.

Mas nas escolas secundárias e nas faculdades, há evidências cada vez maiores de que o crescimento da educação online está prejudicando um grupo decisivo: os estudantes menos capacitados, que são exatamente aqueles que precisam de professores qualificados.

Os cursos online podem ser divididos em várias categorias, e alguns são mais eficazes do que outros.

Em cursos “combinados”, por exemplo, os alunos não fazem seu trabalho apenas online: também passam algum tempo em uma sala de aula com um professor em carne e osso. Pesquisas sugerem que os alunos – em quase todos os níveis conquistados - também se saem bem nas classes combinadas como em salas de aula tradicionais. Segundo esse modelo, os recursos online complementam a instrução tradicional, mas não a substituem.

De outra parte, no modelo totalmente online, um aluno pode nunca estar na mesma sala que o instrutor. Esta categoria é o principal problema. É onde estudantes menos proficientes tendem a apresentar problemas. Afinal, assistir uma aula sem professor requer alto nível de automotivação, autocontrole e organização. No entanto, nas escolas secundárias em todo o país, os alunos que enfrentam problemas em salas de aula tradicionais são cada vez mais orientados para cursos online.

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Em programas de recuperação de créditos, por exemplo, muitos estudantes reprovados em um curso em sala de aula normal retomam as aulas online. As consequências negativas podem não ser óbvias de início, porque os índices de aprovação nesses cursos são muito elevados e os alunos que as levam tendem a se formar no ensino médio, em vez de serem reprovados. O que poderia estar errado com aquilo?

Mas há algo de errado com isso. Na realidade, os alunos que completam esses cursos tendem a se dar muito mal em testes subsequentes de conhecimento acadêmico. Isso sugere que esses cursos de recuperação online muitas vezes dão aos alunos uma nota de aprovação fácil sem ensinar muito.

Considere-se um estudo realizado nas escolas secundárias de Chicago. Os estudantes que reprovados em álgebra foram remanejados aleatoriamente para cursos de recuperação presenciais ou online. Os resultados foram claros: os alunos nos cursos de álgebra online aprenderam muito menos do que aqueles que trabalharam com um professor em uma sala de aula.

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Os cursos online têm muitos benefícios reais, é claro. Eles podem ajudar os melhores alunos que precisam de cursos mais avançados do que seus distritos podem fornecer por outros meios. Isto é especialmente verdadeiro em pequenos distritos rurais que oferecem poucos cursos especializados e tradicionais para estudantes que estão em nível superior às suas notas.

Um estudo em Maine e Vermont examinou o efeito de cursos online para alunos do oitavo ano com sólidas habilidades matemáticas em escolas que não ofereceram aulas presenciais de álgebra. Os alunos foram aleatoriamente encaminhados a aulas de álgebra online ou para a matemática padrão menos difícil, oferecida nas aulas tradicionais.

Os dois grupos de alunos foram testados no final do ano letivo. Os estudantes de álgebra online saíram-se substancialmente melhor do que os seus pares nas salas de aula padrão. Também tiveram chances duas vezes maiores de completar matemática avançada mais tarde no ensino médio.

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Em faculdades, especialmente em escolas não-seletivas e com fins lucrativos, a educação online também se expandiu rapidamente, com efeitos semelhantes. Essas escolas inscrevem um número desproporcional de estudantes de baixa renda que são frequentemente os primeiros em suas famílias a frequentar a faculdade. Esses estudantes tendem a abandonar a faculdade em números muito elevados. Estudantes com fraco preparo não têm bom desempenho nas aulas de faculdade online, como mostram pesquisas recentes de professores de Harvard e Stanford.

Esses estudiosos examinaram o desempenho de centenas de milhares de alunos na Universidade DeVry, uma grande faculdade com fins lucrativos com sites em todo o país. A DeVry oferece versões online e presenciais de todos os seus cursos, usando os mesmos livros didáticos, avaliações, atribuições e materiais de leitura em cada formato. Mesmo que os cursos sejam aparentemente idênticos, os estudantes que se inscrevem online têm desempenho substancialmente pior.

Os efeitos são duradouros, com os estudantes online mostrando-se mais propensos a abandonar a faculdade. Os mais atingidos são aqueles que entraram na classe online com notas baixas. Trabalho feito por pesquisadores em muitas outras faculdades coincidem com os resultados de DeVry: os alunos mais fracos são os mais prejudicados pelo formato online.

Para aqueles com forte capacitação acadêmica, ao contrário, a aprendizagem online pode abrir oportunidades surpreendentes.

O Massachusetts Institute of Technology oferece um conjunto de cursos gratuitos online sobre economia de países em desenvolvimento. Os alunos com bom desempenho nessas aulas podem se candidatar a um programa de mestrado presencial em economia no MIT. Na verdade, os cursos online são a única via para este programa especial de graduação. Com crédito online, os alunos precisam passar apenas um semestre em Cambridge para se formar.

A abordagem do MIT inverte o modelo do ensino médio em que os alunos que fracassam em aulas presenciais são transferidos para um formato mais difícil online. No programa do MIT, os alunos devem primeiro demonstrar que podem enfrentá-lo em uma classe online. Só então eles são admitidos em um programa de mestrado rigoroso e presencial.

A educação online ainda está em sua juventude. Muitas abordagens são possíveis, e algumas podem, no final, beneficiar estudantes com necessidades profundas e diversificadas. Por enquanto, porém, a evidência é clara. Para estudantes avançados, as aulas online são uma ótima opção, mas os alunos com dificuldades acadêmicas precisam de uma sala de aula com o apoio de um professor. / Tradução de Claudia Bozzo

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